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Economia

A história na chapa quente (30)

Os mistérios

do mercado

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 248, de dezembro de 2000)

Quando querem almoçar fora, muitos belenenses costumam procurar restaurantes nos quais possam “saborear um pedaço de charque ou de peixe frito acompanhado de uma tigela de açaí sem açúcar”.

Se você ainda não se permitiu esse hábito, azar o seu: você não faz parte do “mercado muito especial” do Pará, que tem sido uma esfinge para os grandes grupos nacionais de supermercados. Sem se dar conta de especificidades como essa, esses gigantes de papel acabam sendo devorados pelo monstro ao açaí e tucupi, segundo o diagnóstico da revista Exame, da Editora Abril.

É assim que, em sete páginas fartas de fotos e elogios, a última edição da revista (da segunda quinzena de novembro) explica o sucesso de grupos locais, sobretudo o Y. Yamada, e o fracasso de conglomerados econômicos que se deram bem em outros Estados e aqui naufragaram, como o Pão de Açúcar e o Bom Preço.

Por aqui, só conseguiram soçobrar à pororoca de consumo a C & A, Arapuã, Riachuelo e Lojas Americanas. Talvez, pensando bem, não menos numerosos do que os casos de insucesso total das mesmas proporções.

A explicação, porém, é dada sem maior indagação, sem ir atrás de razões mais profundas. Levada pelo embalo de teorias oportunistas ou interesseiras, a autora da reportagem tomou como se fora um almoço especial dos belenenses hábito alimentar de outra natureza.

Se há belenense que sai de casa para almoçar açaí com peixe frito, este é um excêntrico. O belenense padrão toma o açaí como sobremesa (mesmo que acompanhado por carne ou camarão) e não lhe dá o status de chamariz para um “almoçar fora”. Mesmo porque depois do açaí vem o embalar na rede, sob cafuné da nhantã, com uma arara no punho e um jacaré bocejando por baixo (ou seria uma onça ronronando?).

Se, como qualquer mercado, o belenense tem seus mistérios e manias, talvez eles ajudem a explicar parte do sucesso de grupos locais, como o nunca suficientemente festejado Yamada, ou o agora menos em evidência Líder, mas não todo o sucesso – e muito menos o aparente fracasso dos concorrentes nacionais.

A capacidade de adaptação e inventiva das três gerações de descendentes de Yoshio Yamada não pode ser minimizada. Ela é responsável por parcela expressiva dos resultados do grupo em meio século de empreitada.

Mas na terra do açaí, como na do Marlboro, determinadas regras de comércio, mesmo quando basicamente imutáveis, ajustam-se à rolança do tempo. Num mundo de contabilidade globalizada, o que as redes de supermercados do restante do país podem estar enfrentando com maior dificuldade são os procedimentos gerenciais e administrativos dos grupos locais – e o poder de influência que eles exercem sobre autoridades encarregadas da regulamentação dessas práticas ou da fiscalização do seu exercício, com a devida cor local, é claro.

Talvez um Pão de Açúcar ou um Bom Preço não pudessem adotar, em sua base belenense, uma maleabilidade e inventividade de empreendedores que controlam suas derivações locais com rédea curta, ou podendo alcançá-las com as próprias mãos. Quem sabe não é a causa de tanto estudo e vacilação do mais recente dos grandes do setor, a multinacional Carrefour, ainda à soleira das nossas casas grandes do comércio varejista.

Nessas contas, muito mais do que nos nossos hábitos (que nossos visitantes não conseguem captar com fidelidade, provavelmente porque sua generosidade é um tanto menor do que seus preconceitos e estereótipos, disfarçados de superior bonomia e benevolência), é que devem ser buscadas causas mais profundas, porém mais simples e claras, de toda essa etnologia da desculpa e da enrolação. Mesmo quando cifrada com economês de orelha.

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (30)

  1. Qual é a situação 16 anos depois? Tudo indica que somente o Líder, que segundo dizem, usa práticas não-ortodoxas com os fornecedores, parece estar no mesmo lugar.

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    Publicado por Jose Silva | 29 de dezembro de 2016, 18:39

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