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Militares, Política

A história na chapa quente (32)

Os quartéis

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 248, de dezembro de 2000)

Flaviano Gomes Melo é, finalmente, coronel da Polícia Militar. Não seria se sua ascensão ao último posto da carreira dependesse do governador do Estado. Almir Gabriel preteriu Gomes em três momentos em que decidiu fazer outros oficiais passarem à frente. Gomes decidiu então recorrer à justiça. Depois de três anos de litígio, ganhou a causa e obteve a promoção.

O veto do governador era de natureza política: Gomes se notabilizou como um dos principais elementos de ligação do senador Jader Barbalho dentro da PM (e também fora dela), depois de ter servido no gabinete militar durante os dois mandatos de Jader como governador. Na eleição municipal deste ano, Gomes tentou ser vereador, mas recebeu menos de dois mil votos, ficando numa distante suplência do PMDB na Câmara de Belém.

Se a justiça mostrou que as sucessivas preterições de Gomes não passavam de perseguição política, seu currículo expressa um tipo de distorção – também política – que se instalou na corporação militar. A partir do primeiro governo de Alacid Nunes, oficiais da PM passaram a ser convocados para desempenhar missões políticas e administrativas que nada tinham a ver com suas funções profissionais.

Por causa da facilidade com que a União e o Estado podiam intervir em Estados e municípios, sempre que era preciso designar um interventor municipal, Alacid Nunes recorria a um oficial da PM. Parecia achar que havia algo como uma genética de bom caráter e lucidez nos limites das fronteiras castrenses. Ou talvez porque militares cumpririam mais fielmente suas ordens, sem vacilações, ainda mais porque o governador era tenente-coronel da reserva do Exército.

Logo esse crescimento alcançou a casa militar da governadoria, que passou a controlar não apenas a ajudância de ordens do chefe do executivo, mas, aos poucos, todas as despesas do gabinete, tornando-se uma importante fonte palaciana de poder. Esse expansionismo informal atingiu seu ponto máximo com o governador Jader Barbalho, quando houve mais PM  por metro quadrado da história do palácio Lauro Sodré.

No ano seguinte à sua chegada a Belém, em 1974, como 2º tenente, o alagoano Gomes já estava trabalhando no palácio do governo. Serviu a todos os governos ao longo de 15 anos. Só voltou ao quartel em 1989, para exercer atividades burocráticas, cumprindo exigência regimental.

Mas no início de 1991 estava de volta à chefia da casa militar do governo, permanecendo no cargo quando Jader passou a faixa ao seu vice, Carlos Santos. Foi ele quem, numa leva de 19 nomes, promoveu Gomes a coronel.

Ao assumir, Almir Gabriel “despromoveu-o”, alegando que o ato fora praticado fora do prazo legal. O mandado de segurança impetrado por Gomes deu-lhe ganho de causa, mas Almir não assinou o ato de promoção, deixando que essa tarefa fosse cumprida por seu vice, Hildegardo Nunes.

Tudo indica que a política já penetrou o bastante nos quartéis, esvaziando seus contingentes para serviços não relacionados com a razão de ser da força (inclusive servindo de segurança privada para medalhões), a ponto de engendrar conflitos como o que envolveu o – finalmente – coronel Flaviano Gomes.

Muito ganharia o Estado no dia em que as missões dadas aos militares voltassem a se basear exclusivamente no regimento da corporação.

Discussão

2 comentários sobre “A história na chapa quente (32)

  1. Como alguém pode ser promovido a coronel se grande parte do tempo de carreira foi dedicado a atividades fora da corporação? Creio que esse tipo de crescimento profissional no serviço público não é restrito aos policiais militares.

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    Publicado por José Silva | 30 de dezembro de 2016, 16:38
  2. Politicagem: a “mão invisível” da corrpção.

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    Publicado por Luiz Mário | 1 de janeiro de 2017, 08:14

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