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Violência

O justiceiro: um sanguinário

Quero partilhar com meu leitor, no primeiro dia de um ano que, sabemos, será muito difícil, um documento que é o retrato da violência que se espraia pelo Brasil. Uma violência profunda, selvagem, impiedosa. Uma violência alucinada e alucinante, que pode irromper como um jorro súbito, subvertendo as teorias e surpreendendo todas as expectativas. Violência característica de um país enorme, dinâmico, poderoso e injusto, deforme, de lancinantes contrastes.

São trechos de cartas escritas pelo técnico de laboratório Sidnei Ramis de Araújo, de 46 anos, funcionário do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), que reúne alguns dos principais laboratórios de estudos e inovação do governo federal. Uma das cartas foi endereçada ao filho, uma criança de oito anos, antes de mata-lo, à sua mãe (ex-esposa do assassino) e mais 10 pessoas da família dela, além de mais três feridos, agora hospitalizados, nas quais atirou com firmeza e precisão com uma pistola. A chacina foi praticada durante o réveillon da família em Campinas, na noite deste sábado, 31.

Além do texto direcionado ao filho, o técnico mandou uma carta à namorada, precedida por mensagens enviadas para amigos antes do crime. O texto foi divulgado por O Estado de S. Paulo, que reprouziu alguns trechos. Foram excluídas citações que ele faz de outras pessoas e acusações sem comprovação. Foram deixadas apenas as partes em que ele relata seu plano de matar a família e comentários políticos. Também foi mantida a sua própria grafia.

Os vários erros gramaticais ou de grafia não impedem que se perceba o grau de instrução do assassino, sua mentalidade e sua alucinada maneira de encarar o que para ele são problemas – e como resolvê-los. Ele não está só nessa senda do absurdo, da selvageria, da loucura. Há milhares de pessoas, aparentemente tão esclarecidas e sadias, que tornam ainda mais difícil, com sua pretensão de justiceiros, de fazer mal a outras pessoas, a grupos delas e à própria nação.

Espero que o leitor avalie a gravidade do texto a seguir e se dê conta do seu significado, além da função que deve ter: de alerta.

“Não tenho medo de morrer ou ficar preso, na verdade já estou preso na angustia da injustiça, além do que eu preso, vou ter 3 alimentações completas, banho de sol, salário, não precisarei acordar cedo pra ir trabalhar, vou ter representantes dos direito humanos puxando meu saco, tbm não vou perder 5 meses do meu salário em impostos.

Morto tbm já estou, pq não posso ficar contigo, ver vc crescer, desfrutar a vida contigo por causa de um sistema feminista e umas loucas. Filho tenha certeza que não será só nos dois quem vamos nos foder, vou levar o máximo de pessoas daquela família comigo, pra isso não acontecer mais com outro trabalhador honesto. Agora vão me chamar de louco, más quem é louco? Eu quem quero justiça ou ela que queria o filho só pra ela? Que ela fizesse inseminação artificial ou fosse trepar com um bandido que não gosta de filho.

No Brasil, crianças adquirem microcefalia e morrem por corrupção, homens babacas morrem e matam por futebol, policiais e bombeiros morrem dignamente pela profissão, jovens do bem (dois sexos) morrem por celulares, tênis, selfies e por ídolos, jornalistas morrem pelo amor à profissão, muitas pessoas pobres morrem no chão de hospitais para manter políticos na riqueza e poder!

Eu morro por justiça, dignidade, honra e pelo meu direito de ser pai! Na verdade somos todos loucos, depende da necessidade dela aflorar!

A vadia foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos, agora os pais quem irão se inspirar e acabar com as famílias das vadias. As mulheres sim tem medo de morrer com pouca idade.

Aproveitando, peço aos amigos que sabem da minha descrença, que não rezem e por mim, se fazerem orações façam por meu filho ele sim irá precisar! Quero ser enterrado com a cabeça para baixo se garante que assim posso ir pro inferno buscar a velha vadia (que era até ministra de comunhão na igreja) que morreu antes da hora. Demorei pra matar ela pq me apaixonei por um anjo lindo!

(…)

Ela não merece ser chamada de mãe, más infelizmente muitas vadias fazem de tudo que é errado para distanciar os filhos dos pais e elas conseguem, pois as leis deste paizeco são para os bandidos e bandidas. A justiça brasileira é igual ao lewandowski, (um marginal que limpou a bunda com a constituição no dia que tirou outra vadia do poder) um lixo!

Se os presidentes do país são bandidos, quem será por nós?

Filho, não sou machista e não tenho raiva das mulheres (essas de boa índole, eu amo de coração, tanto é que me apaixonei por uma mulher maravilhosa, a Kátia) tenho raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei vadia da penha!

Não posso dizer que todas as mulheres são vadias! Más todas as mulheres sabem do que as vadias são capazes de fazer!

Filho te amo muito e agora vou vingar o mal que ela nos fez! Principalmente a vc! Sei o qto ela te fez chorar em não deixar vc ficar comigo qdo eu ia te visitar. Saiba que sempre te amarei! Toda mulher tem medo de morrer nova, ela irá por minhas mãos!”

“(…) eu ia matar as vadias (eu já tinha a arma e raspei a numeração pra não prejudicar quem me vendeu, ela precisava de dinheiro). Família de policial morto não recebe tantos benefícios com a família de presos. Cadê os ordinários dos direitos humanos? Estão sendo presos por ajudar bandidos né? Paizeco de bosta.

Sei que me achava um frouxo em não dar uns tapas na cara dela, más eu não podia te dizer as minhas pretensões em acabar com ela! Tinha que ser no momento certo. Quero pegar o máximo de vadias da família juntas.

A injustiça campineira me condenou por algo que não fiz! Espero que eles sejam punidos de alguma forma.

Chega!! Ela tem que pagar pelo que fez.”

Discussão

27 comentários sobre “O justiceiro: um sanguinário

  1. “direito de ser pai” ou deus?

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    Publicado por Luiz Mário | 1 de janeiro de 2017, 20:14
  2. Que terror. Quanta misoginia, quanto ódio ao próprio filho e a todo o futuro que poderia ter sido e não foi. Um pesadelo.

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    Publicado por Paloma Franca Amorim | 1 de janeiro de 2017, 20:52
  3. A carta não indica sentimento de aversão a mulheres (ama Kátia e exclui outras que não se comparam com a mãe de seu filho, apenas direciona a “vadias” como a ex-mulher, portanto, não se podendo generalizar). Nem tanto se vê indícios de esquizofrenia – não se depreende da carta uma dissociação da ação com o pensamento, não expressa objetivamente delírios persecutórios, alucinações, muito menos se poderia dizer na modalidade paranoide, quando o acometido cria ilusões delirantes a ponto de incapacitá-lo fisicamente para o trabalho e vida social. Muito pelo contrário: a carta parece ser consciente, lúcida, intencional, propositada, coerente (na loucura), com intuito de dar justificativas ao ato extremado.
    Pela ação, se vê que foi planejada, há lógica por trás. Perdera a guarda do filho, fato que entendia por injusto e humilhante, especialmente por causa da acusação de abuso, a qual devia tê-lo arrasado (em “O Código da Vida”, Saulo Ramos relata caso semelhante e os efeitos sobre o pai – e era tudo uma mentira), humilhação que vinha se protraindo no tempo, gerando mais revolta, sensação extremada de impotência em conflito com um autoritarismo latente, incapacidade de expressar sentimentos de amor e atrair simpatia. Para essa mente doentia, com total falta de inteligência emocional, matar somente a mãe de nada adiantaria; continuaria sem o filho e mais humilhado ainda, na cadeia, arruinado e atraindo para si toda a culpa de todas as suas ações passadas, mesmo as mais injustas e mentirosas que efetivamente tenha sofrido. Seria dar razão a ela, à mãe. Uma mente frustrada, narcisista, com forte sentimento de injustiça, sede por notoriedade, baixa autoestima e profunda depressão certamente estão entre as causas, não uma simples aversão a mulheres ou ódio, este o resultado, não a causa. Já vendo impossível reverter a guarda do filho, fez o que pretendia: punir a mulher, seus familiares e quem mais estivesse por perto, para causar mais impacto, e “levar o filho junto” (“não vai ser meu, então não vai ser de ninguém”, geralmente se vê nos crimes por ciúme). Cenário tenebroso para uma mente predisposta a atos extremos.

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    Publicado por Paul Nan Bond | 2 de janeiro de 2017, 01:15
    • Não há aversão por mulheres? Claro, chamar mulheres de vadias e dizer que gostaria de matar feministas não tem nada a ver com aversão, é índice de puro amor.
      Gostaria que mais mulheres comentassem nesse blog.
      É por causa de relativizacoes como essas que os crimes contra nossos corpos são naturalizados.

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      Publicado por Paloma Franca Amorim | 2 de janeiro de 2017, 08:24
  4. “Não tenho medo de morrer ou ficar preso, na verdade já estou preso na angustia da injustiça, além do que eu preso, vou ter 3 alimentações completas, banho de sol, salário, não precisarei acordar cedo pra ir trabalhar, vou ter representantes dos direito humanos puxando meu saco, tbm não vou perder 5 meses do meu salário em impostos”

    Parece ser uma boa mesmo ir pra cadeia. Ainda bem que a maioria da população ainda não descobriu.

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    Publicado por Phelipe | 2 de janeiro de 2017, 02:47
  5. No final das contas era um covarde doente. Como o mundo não pode ser do jeito que ele queria, ele resolveu destruir o mundo ao redor dele. Típico covarde machista, que pensa que é o produto final da evolução humana. Lucio, concordo com você: esse tipo de personalidade doentia está se tornando cada vez mais comum no mundo de hoje. Qual a razão?

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    Publicado por José Silva | 2 de janeiro de 2017, 09:55
    • A curva da prosperidade seguia ascendente até 2014 indiferentemente à curva da violência, uma evoluindo artimeticamente e a outra geometricamente. Com a queda na curva da prosperidade, a curva da violência segue no mesmo sentido. Parece ter-se tornado autônoma. Talvez porque nunca tivemos um projeto de civilização, de verdadeiro progresso.
      Subsídio para indústrias competitivas ou com investimento várias vezes amortizado. Dilapidação dos cofres públicos. Os ricos ainda mais ricos. Aos pobres, um fundo de manutenção. A falsa classe média. A corrupção promíscua. O enriquecimento ilícito caminhando na mesma avenida do crime organizado e suas brutalidades. Um Brasil que iria mesmo explodir, como está acontecendo.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 2 de janeiro de 2017, 11:55
      • Será que nesse caso podemos colocar a culpa na situação economica e politica do país? Não seria talvez uma consequência da ascenção do individualismo exarcebado promovido pelos facebooks, instagrams, whatisapp, etc, da vida? A globalização, a facilidade da comunicação virtual, e a pressão das suas respectivas comunidades virtuais aparentemente despertou um tipo de monstro que antes não existia nas pessoas.

        Paloma, o que diz o olhar feminino para tanta selvageria?

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        Publicado por Jose Silva | 2 de janeiro de 2017, 13:22
    • Concordo com você.
      É o resultado de uma educação patriarcal fundamentada na ideia de que homens são proprietários de mulheres e de seus filhos.
      Muito me preocupa a divulgação dessa carta sem uma nota opinativa dos jornalistas. No Estadão por exemplo não havia nenhum tipo de dissecação sobre o seu conteúdo, o Diário On LIne fez o mesmo.
      Por mais que existam fatores econômicos que tensionam as relações de gênero, há um fator cultural machista que ultrapassa períodos históricos e se prolifera em todas, absolutamente todos, os círculos sociais.
      Nessas horas, diante dessas vidas perdidas eu só posso ficar comovida e perceber um cansaço ancestral em mim mesma nessa resistência quase vã como mulher e como uma defensora dos direitos humanos.
      Abs

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      Publicado por Paloma Franca Amorim | 2 de janeiro de 2017, 14:12
      • Isso é verdade. A educação precisa mudar muito para conseguirmos ter relações de gênero mais equilibradas. Tanto nas cidades como no interior, a situação é sempre a mesma: as mulheres sendo tratadas como objeto de posse. Não se entristeça, pois as coisas mudarão. Apesar de tudo, creio que o Brasil ainda está mais avançado que outros paises em várias frentes. Veja, por exemplo, a participação das mulheres no mundo acadêmico. Em outros paises “desenvolvidos” isso é uma raridade. No Brasil, creio que as mulheres já são a maioria.

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        Publicado por Jose Silva | 2 de janeiro de 2017, 14:24
      • A cultura foi o elemento volitivo para o crime? Ver o fato como resultado de uma “educação patriarcal fundamentada na ideia de que homens são proprietários de mulheres e de seus filhos”, um elemento motivador secundário, reflexo, indireto, é de uma visão limitada, chega a ser ofensivo aos homens por aqui que respeitam e muito suas mulheres. Não é predominante. Foi por causa disso? Tomar a parte pelo todo chega a constranger. Recomendo “História das Gentes Brasileiras”, de Mary Del Priori, no lugar da brochura “Manifesto Comunista”, da crença, da fé, da cegueira ideológica como explicação aos fenômenos sociais. “História das Gentes…” é muito mais realista do que foi uma cultura patriarcal, quando se matava e ninguém ficava sabendo. Aqui na Amazônia, até o boto comia as criancinhas em nome do pai, mas foi ele quem ficou lindo no caldo da cultura da ignorância, da pouca vergonha. No mais, um pouco de psiquiatria forense, com abordagem mais técnica sobre o assunto, também ajudaria. Atribuir ao fato a luta de classes, à questão cultural e seus chavões, ah, é até constrangedor, causa “cansaço ancestral”. Traz medo de alguém pegar um fuzil e sair mantando em nome da “cultura do estupro”, do “patriarcalismo”, da “relação de gênero”, do “golpe”, do Temer, dos “direitos humanos”, do “cansaço ancestral”… Deixemos isso com o Islã.

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        Publicado por Paul Nan Bond | 2 de janeiro de 2017, 19:11
      • Recomendo também os dois volumes de “Serial Killer” de Ilana Casoy.

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        Publicado por Paul Nan Bond | 2 de janeiro de 2017, 19:13
      • Desculpe, Paul Nan Bond (esse é o seu nome mesmo?), se feri a honra dos homens deste espaço com minhas opiniões.
        Abs

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        Publicado por Paloma Franca Amorim | 2 de janeiro de 2017, 19:23
      • Paloma,

        Honra nenhuma foi ferida e nenhuma desculpa é necessária. Reduzir a desigualdade entre gêneros é uma meta mundial, muito bem explícita nos objetivos de desenvolvimento sustentável, um compromisso assinado por todos os países do mundo em 2015. Não há vies ideológico algum nessa batalha, pois a igualdade plena de oportunidades entre pessoas é um valor universal.

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        Publicado por José Silva | 2 de janeiro de 2017, 20:42
  6. “Útero Pagão!”

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    Publicado por Luiz Mário | 2 de janeiro de 2017, 14:49
  7. Tal atitude tende ser a divina revelação da decisão final do supremo macho, norteador do destino da tradicional família brasileira.

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    Publicado por Luiz Mário | 2 de janeiro de 2017, 17:32
  8. Na verdade, caro José Silva, não há como desfrutarmos de tais ” diteitos” atribuídos às mulheres enquanto ainda formos vítimas de julgamentos de valores enraizados em nossa sociedade por uma mentalidade religiosa tacanha cada vez mais em ascensão no Brasil.

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    Publicado por Susana Santos | 2 de janeiro de 2017, 17:55
    • Susana,

      Bom ponto. Você poderia elaborar mais a sua mensagem? Até pouco tempo atras o Brasil era um país católico. Depois, novas igrejas surgiram e se expandiram. Onde está enraizado a mentalidade religiosa tacanha? No antigo? Ou no novo? Ou nos dois?

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      Publicado por José Silva | 2 de janeiro de 2017, 20:46
      • O Brasil acaso deixou de ser um país ”religioso”?

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        Publicado por Susana Santos | 2 de janeiro de 2017, 22:22
      • O que você acha? Continua religioso? Segundo alguns falam, o número de pessoas que praticam as duas religiões se reduziu bastante nas últimas décadas. Continuamos religiosos?

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        Publicado por José Silva | 2 de janeiro de 2017, 23:59
  9. E que tal pensar que o eixo da mentalidade religiosa subsiste na divinização dos bandidos políticos profissionais?

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    Publicado por Luiz Mário | 3 de janeiro de 2017, 08:35
  10. De onde viria, então, um certo inexplicável temor para com o “Olimpo” que é senado e câmara federal?

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    Publicado por Luiz Mário | 3 de janeiro de 2017, 12:56
  11. E quem protege o divino? Ou será que ele cai do céu ou brota das profundezas do inferno?

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    Publicado por Luiz Mário | 4 de janeiro de 2017, 08:54
  12. Caro José Silva, praticando-se ou não um determinado credo/religião ainda não se pode dizer que não alimentem a fábula de Deus/deuses.

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    Publicado por Susana Santos | 4 de janeiro de 2017, 09:34

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