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Imprensa, Política

A história na chapa quente (33)

No alvo, o PT

 

(Reproduzo debate que travei com um leitor no JP 248, de dezembro de 2000. Nele estão contidos os elementos permanentes na avaliação do PT e da imprensa crítica. Abri parágrafos e coloquei intertítulos para facilitar a leitura do texto longo.)

 

Não estava querendo retrucar em relação à sua recorrente má-vontade para com Edmilson e o PT, mas seu editorial da edição 247 (“Onde a Esperança?”) foi a gota d’água. Como estudante de jornalismo, fico decepcionado com essa opção preferencial pelo puro opinionismo desprovido de comprovação fática.

É risível você dizer que quem votou em Edmilson foram “eleitores que taparam os olhos, a mente e o nariz”. O apoio ao PT este ano foi muito maior e mais orgânico do que há quatro anos atrás, quando Edmilson ganhou meio que no susto e na base da novidade. Foi um apoio que derivou do trabalho real e concreto que a Prefeitura fez nesses quatro anos, trabalho do qual você nem fala, preferindo discutir o sexo dos anjos, sobre se Edmilson devia ter sido ou não cortês com Almir na festa da Yamada.

As obras de saneamento que a prefeitura fez na periferia nesses quatro anos não têm paralelo na história recente da cidade. Isso é substantivo, a cortesia política com o adversário é adjetiva. Com o trabalho do orçamento participativo (onde até a direita está disputando agora, legitimando o processo de fato), da bolsa escola, do banco do povo, coisas reais, que funcionam mesmo, independentemente das críticas dos adversários, todo um novo contingente de pessoas passou a apoiar o PT. O partido saiu da sua adolescência nessa experiência administrativa.

Não estou fazendo discurso triunfalista ou ufanista, até porque tenho inúmeras críticas à gestão, mas só um cego não vê que, numa comparação com as gestões anteriores, a do PT foi muito melhor.

Direita versus esquerda

Esse antagonismo acirrado entre PT e direita, que você tanto critica, é mais do que natural. O projeto político e administrativo de Almir e companhia é completamente antagônico ao do PT. Você mesmo já demonstrou o profundo elitismo que permeia tudo que o governador faz. Mesmo assim, ainda poderia haver algum entendimento (e isso foi tentado), mas é óbvio que Almir age como um suserano que só aceita conversar com quem lhe presta vassalagem.

O que ele quer é faturar politicamente com tudo, mesmo o que não é de sua alçada (obras conseguidas com empenho de toda a bancada federal, obras do governo federal, até empreendimentos financiados pela iniciativa privada). O que ele não pode faturar, ele boicota – os exemplos de boicote ao trabalho da Prefeitura são inúmeros e é ocioso relembrá-los.

É engraçado você falar em “novo populismo” petista quando aqui são aplicados todos os princípios do “modo petista de governar”, tão elogiado nos quatro cantos do país. Será que as dezenas de prêmios não bastam para atestar a qualidade da administração? Não têm credibilidade as instituições que deram os prêmios (a ONU, a Fundação Abrinq, o próprio governo federal do partido adversário)?

Eu não vi Edmilson classificar de “histórica e monumental” a vitória, mas mesmo que ele tenha dito isso, é de somenos importância. A vitória foi difícil e se deveu não só à competência da equipe profissional como aos brios (mesmo tardios) da militância. Mesmo com o bom trabalho da prefeitura, houve um boicote generalizado da mídia nestes quatro anos; a fabricação de fatos contra a prefeitura (a metafísica “Milícia Cabana”, o contrato das araras); um derrame de propaganda estadual (chegando até às “vias do fato”, ou seja, criticar a prefeitura em pleno comercial institucional); um preconceito arraigado antipetista (mostrado nas pesquisas de opinião, numa curva descendente de preferência pelo PT à medida que subia a faixa etária); um adversário de perfil popular (ou populista); e o uso dos velhos métodos de compra e aliciamento de votos (a autuação de Expedito Fernandez mostra isso).

Por isso mesmo, a vitória foi substantiva. Você se engana redondamente sobre a diferença de votos não ter “paralelo no 2º turno de todas as capitais brasileiras”. Em Recife e no Rio (gestões bem avaliadas) os atuais prefeitos PERDERAM, por diferenças menores do que essa. Em várias outras os prefeitos atuais não concorreram, pois não tinha condições de vencer. E no geral as eleições foram bem parelhas (como em Curitiba, cidade também bastante premiada). Não dá para dizer que em Belém foi a eleição mais difícil para as atuais administrações.

O ser petista

Eu posso garantir, petista pode ser meio sectário, mas não dá tiro no pé. Mesmo que eventualmente estejam com discurso triunfante, o “recado das urnas” foi sim entendido, e existem mais quatro anos para corrigir o que está errado. Muitas orelhas devem estar sendo puxadas nas internas. Lula se encarregou de puxar algumas quando esteve aqui.

Vou ficando por aqui, para não tomar demais seu espaço. Só gostaria de relembrar as críticas ácidas de Alberto Dines ao oposicionismo patológico da “Folha de São Paulo” a todo e qualquer governo. E dizer que, muitas vezes, ler seu (de resto, excelente) jornal, me dá a sensação de que você faz a mesma coisa.

Marcus Pessoa de Araújo

MINHA RESPOSTA

Para Marcus meu jornal é excelente, exceto quando trata do PT e da administração Edmilson Rodrigues. Em relação a esses temas, eu estaria contaminado de má vontade, reduzindo o que escrevo a puro “opinionismo”.

Lamento que tal ponto de vista seja o de um estudante de jornalismo. Marcus critica o que diz ser um editorial, quando, com mais rigor, deveria ser tratado como artigo de opinião. Aceitemos, porém, que seja um editorial. Não é esse o lugar certo para dar opinião? Opinião, em um jornalista, não é palpite de jogo do bicho, extraído do sonho.

Fundamenta-se em fatos, resulta de uma análise lógica sobre razões claras. O leitor tem todo o direito de não concordar com o que penso. Mas não o de transformar um pensamento divergente do dele em pecado, suspeito simplesmente por existir.

Se eu me limitasse a tratar do sexo dos anjos, não estaria, neste momento, respondendo a oito processos judiciais, um dos quais proposto por Edmilson Rodrigues (sem sequer exercer o direito de resposta), por ser acusado de cometer delito de opinião. Todos os artigos considerados ofensivos trataram de relevantes temas de interesse coletivo.

Em nenhum deles a intimidade, a privacidade, as características subjetivas da personalidade, a correspondência, as relações pessoais e familiares foram sequer tocados. Neles tratei de grilagem de terras, comportamento precipitado da justiça, em desfavor dos interesses difusos da sociedade, atitudes ditatoriais de governantes, promiscuidade do poder público com a imprensa, etc..

Estou sendo – e tenho sido – punido por tratar de temas muito mais cabulosos do que o sexo dos anjos. Pago caro por abordar assuntos dos quais a grande imprensa foge como o diabo da cruz. O preço inclui ser injustiçado por meus leitores. Mas, como diria um enforcado: tudo bem.

Um dos objetivos mais insistentes que procuro alcançar na atividade profissional é a isenção de ânimo ao escrever.

Não pretendo agradar a todos e sei que a perfeição não passa de uma meta. Já estaria imensamente feliz em ser reconhecido como um honesto profissional da informação, passível de erros, menos o da parcialidade. Os diferentes grupos de interesse podem utilizar o que escrevo. Eventualmente favoreço um lado contra o outro. Mas não há nenhum propósito deliberado nesse sentido. A vida é que é mesmo pendular.

O papel da imprensa

Foi assim que ajudei Jader Barbalho a se eleger governador em 1982 (e a se livrar de Sahid Xerfan, três anos depois, colocando Almir Gabriel no lugar do dileto prefeito de botas) e assim dei alguma contribuição à vitória de Edmilson Rodrigues em 1996, colocando contra a parede o seu adversário, Ramiro Bentes, durante o debate eleitoral na TV RBA (com a presença de jornalistas, hoje, quem diria, uma utopia saudosista).

Fiz isso não porque quisesse prejudicar o candidato do então prefeito Hélio Gueiros, mas porque minha tarefa ali era confrontá-lo com uma verdade que passara a incomodá-lo (uma ligação com o execrado governador Jader Barbalho através de uma polêmica desapropriação de uma empresa de Ramiro).

 Individualmente, ele estava mais preparado para ser prefeito. Mas seus compromissos políticos o prendiam ao passado, do qual era uma expressão remanescente. Edmilson era uma incógnita, mas não tinha rabo preso ao passado. Por isso foi eleito. Não porque eu quisesse. Ou, como diria Gueiros, “desquisesse”.

Concluída a eleição e empossado o novo governo, eu não tinha motivo para cobrar-lhe algum crédito pessoal, nem para antipatizá-lo. Como sempre fiz, procurei ouvir o prefeito, estar presente aos seus atos mais importantes, sentir suas intenções, observar suas atitudes.

Às primeiras críticas, Edmilson começou a reagir com intolerância, desde a falta de civilidade e educação (como ensaiar recusa a cumprimento numa participação comum no lançamento de um livro de Emir Sader no auditório do Centur) até atos mais substantivos, como fechar as torneiras da informação pública, mantendo quase como clandestina a circulação do Diário Oficial do Município, e tornando “personas non gratas” os críticos.

Este jornal jamais desrespeitou o direito de resposta das pessoas que critica, submetendo-se até mesmo àquele ditado popular, segundo o qual quem diz o que quer deve estar sujeito a ouvir o que não quer. A tudo o que critiquei, a prefeitura do PT podia responder, integralmente, sem pagar um centavo por isso (como o leitor deve saber, este jornal sempre recusou publicidade, por princípio).

Parceria comercial com O Liberal

Os cofres públicos foram usados para engordar os já bem nutridos órgãos da grande imprensa, que efetivamente boicotaram a administração municipal quando seus desejos não foram atendidos. Edmilson Rodrigues foi o primeiro prefeito na face desta terra azulada a conceber verba pública (100 mil reais) para aumentar o lucro de um grupo de Comunicação (o Liberal) na venda ao público de fitas de vídeo descaradamente comerciais.

Quitou com o mesmo grupo a dívida formada com intenção ruinosa e deixada como restos a pagar pelo antecessor, que seu primeiro secretário de finanças (hoje desembargador) glosou, considerando-a exorbitante e interditando-a, até ser defenestrado do cargo. E já começou a fazer nova quitação de uma dívida de valor equivalente que fez em seu primeiro quatriênio, tão despropositada quanto a de Gueiros.

Basta ao leitor compulsar a coleção deste jornal para verificar que tenho acompanhado não apenas a parte adjetiva (de incivilidade) do governo municipal, acessória sem ser supérflua, mas também a substantiva. Só para refrescar sua memória, basta lembrar textos mais recentes sobre o transporte coletivo e sua tarifa, o lançamento do IPTU 2000 e o affaire Ctbel-Detran.

Em todas, se minha interpretação está sujeita (e sempre está) a questionamentos, minhas informações não foram desmentidas. Ninguém se apresentou para o diálogo, em aberto. Logo, não é “opinionismo”, mas jornalismo de investigação, interpretação e crítica ancorado em fatos, não ponto de agenda ou propaganda.

Se eu praticasse esse jornalismo inconsequente, tenho certeza que Marcus não me leria, não incorporaria o que digo às suas próprias opiniões e não classificaria este jornal de excelente, exceto nos aspectos divergentes dele. Reconheço, por exemplo, que bolsa-escola ou banco do povo são inovações na gestão pública. Mas será que em Belém o recheio dessa forma teórica é de boa qualidade? A forma não se tornou uma fôrma? Prêmio internacional é uma forma de reconhecimento, mas não é tudo, principalmente quando se multiplica seu número e se distorce seu significado.

Edmilson e Almir

Marcus devia reler sua carta e meditar: as justas acusações que faz ao despotismo do governador Almir Gabriel, aqui relatados e criticados à exaustão, não se aplicam como luva ao modo de governar do prefeito Edmilson Rodrigues? Quem se comporta como “um suserano, que só aceita conversar com quem lhe presta vassalagem”? Ou que “quer é faturar politicamente com tudo, mesmo o que não é de sua alçada”?

Marcus afirma que as obras de saneamento da PMB na periferia “não têm paralelo na história recente da cidade”. Sua declaração só pode ser levada a sério se ele se refere à macrodrenagem das baixadas, uma obra essencialmente do governo do Estado, da qual o prefeito quis se apossar através de iniciativas espertas, mas ilegítimas (que deram certo pelo abulicismo da administração estadual).

A participação da prefeitura, embora efetiva, é residual. Deve-se, sobretudo, à exigência do agente financiador, o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). O governo foi quem fez todo o projeto e é quem vai pagar toda a conta do capital. Independentemente do que penso sobre a obra (e penso criticamente sobre ela), é a maior intervenção do setor público em saneamento desde que os ingleses construíram os primeiros (e quase todos, até agora) esgotos de Belém.

Dizer que ignoro os méritos da atual gestão municipal por má vontade é uma injustiça, que só posso atribuir à falta de leitura (ou à má leitura) do que escrevo. Procuro ser um crítico equilibrado (embora incisivo), ponderado e positivo. Basta Marcus ir à coleção do JP para verificar quantas sugestões e propostas já apresentei, nenhuma delas merecedora da menor das atenções da administração municipal, mesmo que fosse para considerá-las imprestáveis.

Contra a critica

Quando critiquei o lançamento precipitado do IPTU para antecipar a formação de caixa, um dos principais responsáveis pela base informativa do tributo me telefonou e me convidou para ver o cadastro multifinalitário. Eu lá fui. Conversamos civilizadamente, fiz meus questionamentos, ele prestou as informações e voltei a me manifestar, repassando o que captei, confrontando as explicações com minha crítica, corrigindo o que estava impreciso e reafirmando o que ainda me parecia correto.

Por que não é assim em todos os casos? Por que, quando criticado em matéria pública, sem apresentar resposta, sem mandar seus assessores darem-nas, reage o grão-vizir petista com processo na justiça, coisa que o majestático doutor Almir não fez, nem, antes dele, em épocas muito mais turvas, Aloysio Chaves, Jarbas Passarinho ou Alacid Nunes, também contrariados frontalmente? O professor sem dragonas é mais coronel do que eles?

Na questão da Ctbel, recebi um dossiê da empresa, passei uma manhã lendo o processo na justiça, ouvi o Ministério Público e fui a fontes diversas antes de expor minha posição. Divulgada e reiterada, ninguém mais se manifestou. Será que estou certo?

Não sei, mas é assim que se estabelece o critério da verdade. Não é com propaganda. Não é comprando jornalistas. Não é se submetendo à doutrina. Nem anatematizando os que não pensam como nós. É por isso que continuamos a defender a democracia, sem adjetivo acompanhante (relativa, integral, socialista). Porque é o melhor regime político intrinsecamente e porque não apareceu concorrente melhor.

Para criticar, é preciso captar com fidelidade o que diz a outra parte, evitando-se deturpar sua posição e desnaturar suas palavras. Eu não disse, por exemplo, que todos os que votaram em Edmillson “taparam os olhos, a mente e o nariz”.

Eu estava me referindo apenas aos “votos que asseguraram a magra e suada vitória do alcaide”. Ou seja: aos menos de 10 mil votos da diferença entre ele e Duciomar Costa. Também não escrevi que essa foi a menor de todas as diferenças no 2º turno nas capitais brasileiras. Disse que foi a menor diferença entre os prefeitos reeleitos. Os prefeitos de Recife e do Rio de Janeiro não se reelegeram. Dos que conseguiram o segundo mandato, Edmilson foi o que teve a menor vantagem.

Uma análise realista dos fatos, travada inclusive através do confronto com posições divergentes e captando as críticas (como as “inúmeras” que Marcus diz ter, sem expô-las de público) é necessária para o PT corrigir os evidentes erros cometidos no primeiro mandato de Edmilson e não distorcer o significado da eleição deste ano em Belém.

Com a máquina municipal nas mãos e com um acervo de realizações que, se não está à altura das suas possibilidades e do desafio que o momento histórico lhe impôs, também não é inferior ao de administrações antecessoras (é um pouco melhor do que a média ou um pouco abaixo das raras melhores, sem ser excepcional para mais ou para menos), o PT saiu-se pior numa reeleição no 2º turno deste ano do que em 1996, quando sua situação era muito mais desfavorável. Como será em 2002 e 2004 pelo andor da carruagem do nosso alcaide-mor?

É a pergunta que fica, como uma proposta de reflexão para todos os que querem ver Belém melhorar, independentemente de saber a quem deve-se atribuir esse mérito. Já basta cada ano anterior ser melhor do que o seguinte, deixando saudades imprecisas.

Discussão

6 comentários sobre “A história na chapa quente (33)

  1. O prefeito cassado e comprador de votos assumiu ontem. Nenhuma palavra sobre ele?

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    Publicado por fabioreis | 2 de janeiro de 2017, 13:45
  2. Excelente provocação. Aliás, muito a propósito para conhecer o sabor da chapa.

    Curtir

    Publicado por Luiz Mário | 2 de janeiro de 2017, 14:35

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