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Polícia, tráfico de drogas, Violência

A droga e o futebol

A rebelião na penitenciária de Manaus provocou mais da metade das mortes que aconteceram na mais sangrenta rebelião do país, a do Carandiru, em São Paulo, 14 anos antes. Talvez por isso a imprensa paulista esteja acompanhando com maior atenção, profundidade e destaque do que a própria imprensa local e regional. Do seu promontório de observação e com seus recursos, ela está mostrando mais do que a mídia amazônica, revelando a mediocridade da coberta do jornalismo que tem sua base no próprio local dos fatos.

É o caso de um texto de Bruno Freitas divulgado hoje pelo portal UOL, da Folha de S. Paulo. Enquanto no Rio de Janeiro e em São Paulo o narcotráfico (junto com o jogo do bicho) lava dinheiro e investe em marketing através das escolas de samba, em Manaus ele tem uma atividade mais original (e globalizada): é dono de um time de futebol.

Por isso reproduzo o texto do repórter do UOL, apesar de fazer uma abordagem incompleta da relação do clube com a facção criminosa que o apoia.

Apontada como principal responsável pelas mortes durante a rebelião em um presídio de Manaus no último domingo, a Facção Família do Norte tem uma relação íntima com o esporte. O grupo criminoso sustenta o Compensão, um dos times mais populares do futebol amador do Amazonas, que costuma mobilizar mais gente que o Campeonato Estadual local.

O Compensão disputa o Peladão, tradicional torneio com mais de 40 anos, que reúne mais de 500 times em sua categoria principal – é conhecido como o maior campeonato amador do mundo e atrai jornalistas até do exterior. O time ligado à Facção Família do Norte conquistou o título em duas oportunidades (2006 e 2008) e amedronta adversários e imprensa local.

O time amador tem como principal incentivador Roberto Fernandes Barbosa, o “Zé Roberto da Compensa”, comandante da Facção Família do Norte. Em conversas interceptadas pela Polícia Federal em 2015, o criminoso admitiu ter investido cerca de R$ 320 mil para que o time participasse de um torneio local.

Dentre o pujante universo amador de Amazonas, Compensão é conhecido como um time com recursos mais abundantes que os demais. O dinheiro foi farto enquanto Zé da Compensa esteve no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), local da rebelião de domingo passado. Com capacidade de investimento, a equipe ligada ao tráfico de drogas conseguiu por muito tempo bancar ônibus para torcedores se deslocarem e material de arquibancada, como bandeiras. Mais importante, a agremiação recrutou boa parte dos melhores jogadores disponíveis, pagando bem por partida.

“Existe uma pressão muito grande para adversários que vão jogar lá no campo deles, com gritos de terror, de que vão morrer. Diz-se que certos times até entregam os jogos. É difícil trabalhar lá também, para os jornalistas, devido às ameaças. Uma equipe de reportagem quase foi agredida”, relatou um jornalista que acompanha o Peladão, em condição de anonimato.

Por episódios como esse descrito acima e pela notória ligação do time com o tráfico, parte da imprensa esportiva do Estado também costuma evitar reproduzir notícias sobre o Compensão.

Mas a força da equipe no cenário amador de Manaus parece enfrentar um desafio pontual. Desde que Zé da Compensa foi transferido para presídio federal de Catanduvas, no Paraná, seguidores do Peladão detectaram uma queda de rendimento da equipe ligada à facção.

Segundo um dos organizadores do Peladão ouvido pela reportagem, do ponto de vista de gestão, o Compensão é tratado como qualquer outro clube inscrito no torneio. O organizador citou o exemplo de uma escola de samba de uma grande cidade, que pode ter integrantes ligados a situações discutíveis, mas que legalmente cumpre todos os parâmetros de disputa.

A Facção Família do Norte foi uma das protagonistas da rebelião do último domingo Complexo Penitenciário Anísio Jobim, quando confrontou rivais ligados ao PCC (Primeiro Comando da Capital), grupo criminoso de São Paulo. Em 16 horas de enfrentamentos, 56 presos morreram e outros 112 fugiram.

Discussão

4 comentários sobre “A droga e o futebol

  1. Essa história está mal contada. Se o time fosse mesmo isso tudo, porque o último título foi de 2008? Uma explicação é que desde lá o narcotráfico resolveu combater a desigualdade social existente no futebol de Manaus e criou o bolsa futebol para apoiar os outros times também.

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    Publicado por José Silva | 4 de janeiro de 2017, 10:10
  2. Tentativa de privatização sem o perfume dos bons-moços.

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    Publicado por Luiz Mário | 4 de janeiro de 2017, 16:54

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