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Polícia, tráfico de drogas, Violência

Da próxima vez, o inferno

O presidente Michel Temer se manifestou pela primeira vez, ontem, sobre o massacre da penitenciária de Manaus, que resultou em 60 mortes e na fuga de 184 detentos, dos quais só uma parcela menor, de 63, foi recapturada até agora. A rebelião, seguida de execuções, aconteceu entre a tarde de domingo, dia 1º, e a manhã de segunda-feira. O presidente da república teve três dias para se informar e fazer um pronunciamento consistente. Mas disse um monte de besteiras.

A primeira delas foi sobre a causa da matança, um “acidente pavoroso”. Ninguém mata de uma vez 56 pessoas, 30 delas (dentre 36 identificadas até ontem) decapitadas, esquartejadas e evisceradas, a servir de traço de união na execução integrarem o PCC, organização criminosa nacional que penetrava no reduto de uma facção local até recentemente monopolista do narcotráfico no Estado do Amazonas, a FDN.

As falhas, imprevidências e erros primários cometido em séries tanto pela administração do presídio como pela secretaria de segurança pública estadual, se não provam omissão ou conivência, expressam tal incompetência que sua existência nega, por pressuposto, o acidente. A rebelião seguida de execução selvagem pode ter sido tudo, menos acidente.

Como o presídio foi terceirizado (e para uma empresa sem conhecimento de causa e estrutura para suportar o encargo, além de suspeita de superfaturamento), o presidente, já tardiamente, tentou aliviar os ombros do governo amazonense. Sobre eles passaram a pesar o acúmulo de críticas ao seu desempenho (ou falta dele), inclusive pelo ministro da justiça do governo federal, e seus antecedentes. Temer, mais uma vez, parece dar mais importância ao aspecto político da questão do que ao seu significado técnico e administrativo.

Ao invés de sair em defesa do governo estadual, para o qual outro governo, o de São Paulo, tem procurado transferir a responsabilidade, o presidente da república devia questionar a transferência de obrigação francamente estatal a empresas privadas, em negociações suspeitas. Ao invés de atacar o efeito, devia ir diretamente às causas, em relação às quais o governo federal tem que fazer autocritica e admitir o mea culpa. Não necessariamente seguido de mais milhões de reais em novos presídios, sem uma política pública consistente (o novo plano foi aquecido no micro-ondas da obviedade).

Para ser coerente, o governo central devia deixar que os deveres, responsabilidades, falhas e culpas brotem naturalmente, para não coonestá-las. Já nos bastidores, devia acionar quem de direito e competência para verificar a extensão do narcotráfico no Amazonas e suas conexões políticas. Essa relação suja e promíscua é a antessala da impunidade, apesar do realmente horroroso crime praticado.

Outra insensatez do presidente foi manifestar solidariedade às famílias das vítimas sem relativizar sua manifestação pela condição dessas mesmas vítimas. Afinal, tudo sugere que se tratou do primeiro confronto de uma série que se avizinha entre duas terríveis organizações criminosas. Não há mocinho nessa história. Pelo contrário, dela participam – uns como autores e outros como vítimas, relação que pode se inverter completamente no próximo capítulo – seres que dizemos humanos por excesso de caridade.

As imagens gravadas pelos próprios verdugos é de chocar qualquer indivíduo dotado da mais ínfima sensibilidade (embora não tenha conseguido abalar a sociedade e tirar-lhe expressões adequadas e coerentes com as cenas pavorosas). Ouvem-se vozes de carniceiros drogados se expressando num patuá primário, debochando dos mortos, passando por sobre os corpos, completando sua evisceração e fazendo ameaças entre torpes palavrões. A condição humana foi desprezada, negada, destruída.

O PCC já prometeu vingança, o que significa uma escala abaixo daquela que levou à eliminação dos seus quadros no Amazonas. A que nível do inferno eles sujeitarão a sociedade no próximo confronto?

Claro que todos têm família e nela alguém sofrerá. Cabe ao Estado, sem desprezar essa dimensão solidária, advertir de que seu braço punitivo se levantará mais alto em defesa do bem público, dos valores humanos. Ou da próxima vez será o inimaginável.

Discussão

5 comentários sobre “Da próxima vez, o inferno

  1. Como sempre digo. O capitalismo no Brasil é capitalismo de estado. O setor privado só existe grudado nas tetas do governo. Olhe o exemplo da empresa que gerenciava o presídio em Manaus. Ela era apenas um veiculo cujo fim principal, ao invés de oferecer serviços de qualidade para o sistema penal, era o de transferir dinheiro do povo para as campanhas dos politicos. Perto dessa máfia estruturada, os mais perigosos membros das facções dos presídios são apenas anjinhos…

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    Publicado por Jose Silva | 5 de janeiro de 2017, 15:35
  2. demonstração que estamos sem comando, sem rumo. O combate ao narcotráfico precisa de um repensar. enquanto politico for eleito com as benesses do narcotráfico nosso crescer será o do rabo do boi (LP). Os presididos são reflexo do nosso “iluminismo”.

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    Publicado por valdemiro | 6 de janeiro de 2017, 09:50
  3. Quanta benevolência, meu caro Valdemiro, para com o “comando”. Que tal pensar sobre o Estado dentro do Estado, para tentar perceber qual o rumo?

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    Publicado por Luiz Mário | 6 de janeiro de 2017, 11:03
  4. A primeira retaliação ao massacre em Manaus, ocorrido na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo em Boa Vista, Roraima, considerada a terceira maior na história dos presídios, novamente revela a personificação de nossa natureza infra-humana.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 6 de janeiro de 2017, 12:03
  5. O horror se torna maior ao se imaginar que tudo pode ter sido obra dos imperadores (bandidos políticos profissionais) para desviar o foco.

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    Publicado por Luiz Mário | 6 de janeiro de 2017, 19:01

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