//
você está lendo...
Polícia, Política, tráfico de drogas, Violência

Um país em ruina

O Brasil vive numa guerra civil não declarada. O crime organizado se tornou um Estado dentro do Estado. As penitenciárias funcionam como quartel-general dos bandidos. São também o centro de aperfeiçoamento do crime.

De tão repetidas, frases como estas se tornaram vazias. Pareciam retórica ou exagero até o primeiro dia deste já terrível 2017. Milhares – ou milhões? – de seres humanos puderam ver, através da internet, cenas que nem mesmo a mais selvagem fantasia poderia conceber. Num local insalubre, homens cortavam as cabeças de outros homens, os retalhavam, evisceravam, arrancavam de seus corpos já desfigurados seus corações, exibindo-os como se fossem partes de animais comestíveis.

Não era só uma selvageria sem paralelo. Um dos carrascos pegava o braço de um decapitado e simulava um aceno mórbido para o celular, que tudo registrava, transformando em imagem cenas cruéis mal elas iam se constituindo. Outro chutava cadáveres ou subia nos corpos inanimados.

Além disso, certamente sob efeito de droga, o narrador assinava a autoria das barbaridades e mandava recado para os destinatários finais daquela matança, o maior desde Carandiru, em São Paulo um quarto de século antes. Na penitenciária de Manaus, as execuções somaram mais da metade da chacina da antiga casa de detenção paulistana, em proporção muito mais grave comparativamente à população carcerária e todos os moradores do Estado do Amazonas. E porque em São Paulo grande parte das mortes foi pelo acerto de contas da Polícia Militar com os presos, não por morte entre eles.

Não se imaginaria que um ato desse porte poderia acontecer numa penitenciária amazonense, tão longe das sedes das duas principais organizações criminosas do Brasil: o Primeiro Comando da Capital, de São Paulo, e o Comando Vermelho, do Rio de Janeiro. E que cinco dias depois outra matança, com as mesmas características, se repetiria, ontem, em Boa Vista, capital do Estado mais setentrional do país, com metade dos mortos da penitenciária de Manaus – mas, comparativamente, ainda mais grave do que ela.

A narrativa debochada de quem filmava os atos de execução e os recados que mandava tinham um destinatário final: o Estado, em todas as suas configurações (União, Estados e municípios). O mensageiro não deixava dúvidas: o crime organizado, com dezenas de milhares de militantes dispostos a tudo, se considerava acima e além do poder público organizado, do seu aparato humano e das suas leis. Não tinha a menor hesitação nem receio de se identificar. Olhando através do governo, como por um vidro transparente, visava quem estava do outro lado, o contracanto diabólico de outro bandido.

Em Manaus, a Família do Norte, com o suporte do CV carioca, atacava ferozmente o PCC paulista, numa irreversível declaração de guerra, aparentemente respondida a partir de Roraima, capaz de prosseguir no Pará, no Acre ou no Maranhão, na periferia do poder real (se aproximando dele) uns contra os outros integrantes das facções, mas podendo ir além delas, até o cidadão comum ou até mesmo aos governantes. O crime organizado pôs fim a todos os limites. É matar e – ou – morrer até o objetivo pretendido: o controle da mais rentável atividade econômica (no Brasil e em muitos países). Até o tráfico de drogas e suas conexões e derivações em uma cornucópia imensa.

Para atingir essa meta, tudo é possível, até mesmo confrontar a representação institucional da sociedade, com suas regras legais, seu aparato bélico, seus exércitos. Usando tudo isso contra suas próprias origens. O roteiro desse fluxo é bem conhecido pelos criminosos, que pagam propinas, extorquem, ameaçam e convivem com essa estrutura legal. Só que ela não é uma estrutura compartimentada. Ela se mistura, se envolve e se esconde na ilegalidade, no mundo invisível, no qual bandidos e líderes políticos se cruzam ou se associam. Uns recebendo propinas milionárias. Outros matando para ter receitas milionárias. Bandidos, todos eles. Iguais.

As cenas que continuam a circular pela internet situam o Brasil como um dos países mais selvagens e brutalizados do mundo, sem que os atos ultrajantes decorram de uma guerra convencional nem mesmo de uma guerra civil perfeitamente caracterizada. O homem que, dentro da penitenciária, teve meios para invadir pavilhões, matar, decapitar e esquartejar outros presos, desprezando a mais remota dimensão de humanidade no corpo de uma pessoa, continuará com o mesmo poder ainda que trancafiado. Mas também poderá estar na rua daqui a pouco, de alguma forma.

Se isso acontecer, será a ruína de um país que prometia, como o Brasil.

Discussão

12 comentários sobre “Um país em ruina

  1. Ruína real, mas mero “acidente” pro teoricamente comandante da nação, que parece ou não morar no mesmo país desse caos, ou de fato crê que assessoria de marketing e verba publicitária dobrada são mais eficazes que demitir imediatamente um dos grandes responsáveis direito por tudo isso: seu despreparado, trapalhão, indiscreto e completamente envolvido na gênese de mais essa crise, ministro da (in)justiça emprestado do Alckmin.

    Curtir

    Publicado por Marlyson | 7 de janeiro de 2017, 20:01
    • Concordo. O ministro se mostrou totalmente incapacitado. Depois dele ser desmascarado pela governadora de Roraima, ele deveria ser demitido sumariamente. Nesse caso, o culpado é mesmo o mordomo (Temer) que não tem coragem de fazer o que precisa ser feito.

      Curtir

      Publicado por José Silva | 7 de janeiro de 2017, 22:23
      • Temer é irmão siamês da Dilma.Totalmente perdido e inexpressivo. Bem se vê que eram da mesma chapa.

        Curtir

        Publicado por Jonathan | 7 de janeiro de 2017, 22:53
      • Pois é…porque será que eles brigaram? Formam um par mais do que perfeito!!! Segundo rumores, o PT do senado fechou apoio total ao irmão siamês da Dilma. Foi uma troca para aliviar a barra (leia-se punições) da ex-presidenta durante a votação final do impedimento.

        Curtir

        Publicado por Jose Silva | 8 de janeiro de 2017, 12:17
      • O barco começou a afundar e elegeram a Dilma como bode expiatório. Aproveitaram os clamores por impeachment e tentaram vender a ideia de que o impedimento ajeitaria tudo. Basta escutar as gravações do Machado.

        Contudo, o buraco era e é mais embaixo.

        Curtir

        Publicado por Jonathan | 10 de janeiro de 2017, 22:35
  2. Cenas de verdugos vilipendiando cadáveres nos remete à cultura dos zumbis cinematográficos, ultimamente e de maneira direta e próxima, protagonizada nas penitenciárias de Manaus e Boa Vista.

    As mesmas cenas são veiculadas no conflito da Síria, no entanto, interpretadas de maneira involuntária por civis e crianças.

    Como a escalada do entretenimento em fetiches mórbidos está programando culturalmente grande parcela da população, à exemplo, dos posicionamentos controversos, prós e contra do descontrole da violência. Um prognóstico previsível se apresenta, a retaliação que não foi inadvertida, pelo contrário, o desfecho incentivado pela inoperância e quem sabe um “Racismo de Estado”, não detectado ou desconsiderado pelos agentes de segurança.

    Curtido por 1 pessoa

    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 7 de janeiro de 2017, 20:17
  3. Toda instituição tem seus departamentos de planejamentos e projetos, e o Estado possui a melhor estrutura para gerir esses departamentos, colocando-os em prática…..

    Curtir

    Publicado por Luiz Mário | 7 de janeiro de 2017, 21:16
  4. A cultura da corrupção engendrou a “Pilatocracia”.

    Curtir

    Publicado por Luiz Mário | 7 de janeiro de 2017, 22:42
  5. Ao ver essas cenas, uma dúvida que me ocorreu: qual o alcance da expressão “ser humano”. Aquele homem que sequencialmente abria os corpos já mutilados e retirava, de cada um, o coração, colocando-os num recipiente cheio de outros órgãos, fazendo piadinhas e debochando dos cadáveres, merece ser tratado como ser humano? É para esse homem e seus pares que o país irá se empenhar (às nossas custas, evidentemente), para proporcionar melhores condições de estadia no sistema prisional? Afinal, são injustas as condições ali oferecidas; uma flagrante ofensa à sagrada garantia constitucional da dignidade humana! Certamente, o que sobrará será este tipo de discurso, mas o que faltará será uma análise coerente do problema a começar pela insanidade institucional de se colocar centenas de crimonosos reunidos, num espaço diminuto, onde o contato é inevitável, sem nenhuma disciplina, regidos por seus próprios códigos de ética, sustentados pelo Estado-pai e sem nenhuma obrigação de trabalhar ou indenizar o mau causado por suas condutas. Extramuros, isso se chama vadiagem e é tipificado na LCP. Intramuros, é direito intocável desses marginais.

    Curtir

    Publicado por Marilene Pantoja | 9 de janeiro de 2017, 10:49

Trackbacks/Pingbacks

  1. Pingback: UM PAÍS EM RUÍNA | LIVRE IMPRENSA - 8 de janeiro de 2017

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: