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Cidades, Colonização, Cultura

A história na chapa quente (37)

Belém: de novo,

a capital amazônica

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 251, de janeiro de 2001)

Em 1908, após 25 anos de construção, foi concluída a Estrada de Ferro de Bragança, ligando a capital ao seu hinterland mais acessível, a atual Zona Bragantina. Quatro anos depois as vendas de borracha começaram a cair e o preço desmoronou. Até 1920, Belém ainda era a terceira mais importante cidade do Brasil. Depois, sucumbiu a uma decadência desenfreada. A população do Pará diminuiu, até em termos nominais, entre 1920/40.

Não é de surpreender que esse período seja conhecido como uma Idade Média estadual. Mas é de espantar que esse conceito se mantenha até hoje. Se faltou a folia do monopólio internacional da borracha, com um desvario de gastos não reprodutivos, não faltou imaginação para criar uma indústria de transformação, que chegou a produzir capas de chuva, sapatos, impermeáveis e alguns outros artefatos. Assim como manufaturas aproveitando derivados de couro, tecelagens, metalúrgica. Tendo que usar o móvel das maravilhas em um regime capitalista: o capital de risco.

Mas os distritos industriais de Belém, implantados entre os igarapés do Reduto e das Almas – duas docas de acesso fluvial ao interior da cidade, ainda com traços de Veneza tropical – ou ao longo das rodovias Arthur Bernardes e BR-316, viraram cemitérios de sucatas, agora em reciclagem para a economia quaternária, de serviços.

É o “sinal dos tempos”, segundo o qual uma Belém industrial “já era”? Provavelmente. Saindo ou entrando em Belém, pelos 40 quilômetros da BR-316, que exigiram muitos anos para serem finalmente duplicados, pode-se encontrar um símbolo desse estado de coisas: duas importantes indústrias, subsidiadas pelos incentivos fiscais. Suas carcaças estão quase íntegras, mas desprovidas do seu coração, as máquinas, remanejadas na surdina (como, depois de terem ido, parece estar vindo o maquinário movediço de uma fábrica de cimento, para Itaituba).

Indústria: nunca mais?

Belém não terá um setor industrial representativo. É sentença definitiva? Talvez. Nem sobrará o consolo de voltar a ser o entreposto comercial da Amazônia. O rio Amazonas já não é o único caminho de entrada e saída, nem mesmo o mais importante. Artérias artificiais foram abertas na floresta para aproximar mercados e fontes de matéria prima dos centros produtivos. Belém foi deslocada. Seu comércio, que um dia pretendeu erigir na rua 15 de Novembro uma reprodução de Wall Street, à base do aviamento dos altos rios, repletos de seringueiras férteis, terá o papel de coadjuvante.

Mas quem, então, será o príncipe das transformações? A informação. Com suas universidades, institutos de pesquisa, museus, bancos de dados, autarquias públicas, mão-de-obra e o acervo de uma história de quatro séculos, petrificados ou desfigurados, Belém recuperará sua hegemonia.

Isto, se conseguir se qualificar para ser o interlocutor autorizado e legítimo da Amazônia com o mundo, a instância capaz de inserir a região na globalização sem ser por ela engolida – e também sem transformá-la em fantasma do meio-dia.

Todas as informações relevantes, todas as fontes produtoras de conhecimento, todos os elos das cadeias que se tecem de dentro para fora (e em sentido contrário), terão que passar pela metrópole estuarina. Ela será capaz de olhar para o mais vasto de todos os hinterlands do planeta e com condições de descortinar um mundo de interesses convergentes para a Amazônia.

Se quiser desempenhar essa função, Belém terá que passar por uma revolução, que não seja iluminista apenas no discurso e na retórica publicitária, capaz de libertá-la dos andrajos do subemprego, do lumpen, da mentalidade periférica, do provincianismo auto-suficiente porque medíocre.

A capital não tem que ser deslocada. O desafio é fazer Belém chegar a toda a Amazônia e reabrir os caminhos que ligam o interior (que pode alcançar o Pacífico e o Caribe) à sua metrópole. Ao invés de despejar 50 milhões de reais por ano em Belo Monte, na perspectiva de uma década, o governador tem que aplicar esse dinheiro em algo que não seja uma brincadeira narcisista debruçada à janela de um rio, como se o rio fosse uma circunstância e o serviço público fosse uma franquia de narciso.

Uma cidade do saber (fazer)

Meio bilhão de reais em 10 anos é um bom programa para o reforço dessa engrenagem quaternária de informações, de expertise, de conexão mundial, de multiplicação das habilitações e refinamento do saber. Em Belém.

Para voltar a ser a metrópole da Amazônia, condição que perdeu para Manaus, segundo o último censo, sendo esta a capital de um artifício fiscal e tributária encravado no sertão humboldtiano (ou euclideano?), Belém precisa ser uma capital do mundo. Precisa voltar a ser única, como o foi nos sonhos oitocentistas do Marquês de Pombal e de Mendonça Furtado, o irmão que para cá mandou o último déspota esclarecido português.

Sonhos que a história frustrou e que, agora, cumpre retomar, não na perspectiva de um novo pacto colonial, mas justamente do seu inverso: a libertação de toda e qualquer cangalha ultramarina. Para fazer nascer de seu ventre o agente que vai impedir a consumação desse “destino manifesto”: a informação e o saber fazer, a serviço de uma empreitada de realização da utopia amazônida.

Essa utopia deve compreender desde um centro de estudo e tratamento de água a um núcleo de comércio exterior, de uma escola de minas e metalurgia a um campus de pesquisa em biodiversidade (no que resta da floresta do Aurá), ferramentas que amplificarão a voz da Amazônia não apenas em decibéis, mas na autoridade que conta neste novo mundo em formação: a da inteligência.

 

Discussão

2 comentários sobre “A história na chapa quente (37)

  1. Lucio, essa ideia virou utopia né? Manaus já possui maior densidade científica que Belem. Além disso, a nossa avenida da ciência se transformou em mais um corredor de favelas, ao invés de um corredor de empresas voltadas para o desenvolvimento tecnológico. Da uma pena danada da cidade, a mercê de prefeitos populistas e irresponsáveis.

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    Publicado por José Silva | 9 de janeiro de 2017, 20:15

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