//
você está lendo...
Política, Terras

A história na chapa quente (41)

Jader Barbalho:

Hamlet tropical

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 251, de janeiro de 2001)

Tudo indica que Jader Fontenele Barbalho chegou ao máximo da sua carreira política. Ocupou todos os cargos possíveis de alcançar em uma eleição e o topo do executivo federal, sendo por duas vezes ministro de Estado. Só não foi, até agora, presidente e vice-presidente da República.

É praticamente impossível que venha a sê-lo algum dia, embora certamente tenha incluído, entre os seus projetos senatoriais, viabilizar seu nome como companheiro de chapa de um candidato presidencial com maior densidade política nacional do que ele. Agora, o máximo a que pode aspirar é ser presidente do Senado, tornando-se o segundo na linha sucessória de Fernando Henrique Cardoso e o chefe da câmara legislativa mais influente do país. Conseguirá?

À distância de Brasília, sem condições de participar das conversas de bastidores, as que realmente decidem as votações em plenário, responder a essa dúvida passa a ser um lance de jogo de azar. Mineiramente, pode-se dizer que Jader ainda é o candidato mais forte à sucessão de Antônio Carlos Magalhães. Mas contra a vontade manifesta e militante do político que ainda é o mais poderoso de todos (embora já nem tanto: sua exuberância se parece àquela revitalização que precede o fim).

A vantagem de Jader pode ser de 50,1% contra 49,9%, o que não é pouco se considerado que enfrenta a fúria de ACM como nenhum outro antes. Qualquer maresia pode afogá-lo. Se chegar à praia, será como um náufrago, salvo milagrosamente de ondas violentas, já sem fôlego, desgastado por uma travessia que lhe deu, finalmente, uma projeção como nunca havia tido, mas negativa, estereótipo do que há de pior na imagem do político na consciência popular.

O preço de uma vitoria

Mesmo que vença, o presidente nacional do PMDB se livrará do estigma das vitórias de Pirro? Poderá bem conduzir o Senado? Prevalecerá sobre seus muitos adversários, alguns levados ao paroxismo? Conseguirá impor respeito, eliminando ou pelo menos atenuando a péssima imagem dele projetada pelos principais órgãos da imprensa?

Uma análise realista da situação poderia aconselhar o ex-governador a procurar uma alternativa intermediária entre a vitória e a derrota, uma saída honrosa. Mas ela ainda existe (se é que foi possível alguma vez)? Não se deve duvidar da capacidade mimética dos políticos e de sua inventividade. Por isso, é melhor não descartar de todo essa hipótese.

Tanto Jader quanto ACM chegaram a um limite que mesmo o estômago descomunal  da espécie já parece incapaz de suportar o menor dos batráquios. Talvez só o presidente da república, usando o poder que o cargo lhe confere, especialmente o de encontrar compensações, poderá impedir que a evolução da voragem chegue até o plenário, no dia da votação.

Imagina-se que ambos poderiam sair derrotados e vencedores. Jader não seria o presidente do Senado, apenas indicando-o. Vitória do baiano. Mas aumentaria sua presença no governo. Vitória do paraense. Esquema talvez viável se o ocupante do Palácio do Planalto não fosse FHC, o dubidativo.

Independentemente desse desfecho, nada além da presidência da câmara alta está ao alcance previsível de Jader Barbalho. E aquém? Presidente do Senado, poderia trabalhar melhor sua reeleição, quase assegurando-a desde já.

A carreira ameaçada

É uma tentação e a hipótese mais factível, ainda mais porque, sem outro nome equiparável ao seu, Jader poderia entrar com mais facilidade numa forte coligação, cedendo a candidatura ao governo ao seu parceiro para reforçar ainda mais o seu cacife.

Pode, no entanto, ser o canto da sereia. Mais oito anos garantidos em Brasília, com uma vida mais cosmopolita, levariam o senador a voltar a enfraquecer os vínculos políticos com sua base eleitoral, que já começavam a ficar débeis quando, na eleição do ano passado, ele decidiu reavivá-los (o que já parecia improvável).

É uma sedução e tanto para quem identifica nessa base a origem da má fama que o acompanha pelo país. Mas como não eliminará as causas reais do problema, Jader apenas destruirá o espelho no qual elas se refletem.

Talvez se possa apostar que a curva de influência do político mais poderoso no Pará desde Jarbas Passarinho (antecipando-se, graças a outro coronel, ao surgimento da Nova República, em 1985, que pôs fim formalmente ao ciclo dos governos militares) começará a infletir. Para baixo, naturalmente. Uma tendência histórica, mas cujo grau de determinismo ainda poderá ser ponderado por atos de vontade. Em que medida, não se sabe.

 

Atraso

 

A imprensa nacional está denunciando a desapropriação da Fazenda Paraíso, um imóvel fantasma em Vizeu, proposta pelo então ministro da reforma agrária, Jader Barbalho. Chegaram ao tema com mais de 12 anos de atraso. A denúncia original foi feita neste Jornal Pessoal, usado na época pelo PT para propor uma CPI na Câmara Federal.

A CPI deu em nada. O mesmo destino foi reservado a um inquérito administrativo no Incra, também insolvente porque um documento chave sumiu do processo de desapropriação, apagando as pistas que poderiam levar ao responsável por irregularidades havidas no ato desapropriatório.

Até hoje, todas as informações usadas são as mesmas aqui publicadas em 1988.

Discussão

2 comentários sobre “A história na chapa quente (41)

  1. Lucio,

    Quem saiu vencedor dessa batalha? A perdedora todos nós sabemos: a república brasileira.

    Curtir

    Publicado por José Silva | 11 de janeiro de 2017, 21:56

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: