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Imprensa, Polícia, tráfico de drogas, Violência

Os que não voltam

Rafael Farias de Oliveira devia ter voltado ao presídio no dia 2 para cumprir o compromisso que assumiu ao ser beneficiado pelo indulto natalino. Duas semanas depois, ontem, ele andava por uma rua do conjunto Cidade Nova VI, em Ananindeua, quando foi atacado por três homens, que dispararam vários tiros contra ele. Três balas o acertaram na parte superior do corpo. Ele morreu na hora.

Rafael foi preso pelo crime de roubo. Número crescente de criminosos estão sendo enquadrados nesse delito. Parte significativa deles tem um objetivo: gerar renda para pagar o consumo de droga. Quando o objetivo não é alcançado ou o dinheiro não é suficiente, mantendo o usuário em débito com os traficantes, eles o matam. Pode parecer por motivo fútil à superfície, mas não é. A punição é desproporcional ao crime, mas a regra que prevalece é a dos traficantes, não a do mundo legal. Tanto nos presídios quanto nas ruas. Quem manda é o bandido. E o bandido é cada vez mais cruel, implacável, abusado.

Menos sujeitas as ruas estão à barbárie das decapitações, esquartejamentos e outras insanidades, que vigoram nos lugares de confinamento de criminosos. Mas as ruas têm um componente que está criando tensão em tal escala que começa a explodir na forma de linchamentos de criminosos por pessoas comuns: o caráter aleatório das agressões. Rompendo com todas as regras e procedimentos, a violência se tornou sistemática, diária, imprevisível, insondável, sem limites. Em uma palavra: intolerável.

A vida está sendo reduzida a um lance de dados, dependente do incerto e não sabido. O carimbo desse absurdo é dado pela incompetência do poder público, pela sua incapacidade de cumprir o principal mandamento constitucional: assegurar a saúde e a vida dos cidadãos. A lei de Talião, combinada com o mais selvagem darwinismo social, está destroçando a segurança pública. Tempestades se formam no já plúmbeo horizonte nacional. E esse fenômeno de violência descontrolada independe do sucesso ou insucesso da recuperação da economia nacional.

O fotógrafo Tarso Sarraf captou a estupefação, o desespero, a indignação e a revolta do homem comum, cuja vida vale nada, ao registrar o flagrante da irmã debruçada sobre o corpo ensanguentado de Rafael, com a parte baleada encoberta por um pano. Merecidamente, a fotografia foi para a primeira página da edição de hoje do Amazônia, e também para uma página interna da seção policial.

Qual o nome da moça, sua idade, como soube da morte do irmão, o que fazia Rafael, onde está a sua família – estas e muitas outras informações inexistem na rápida, desinteressada e pobre matéria. O texto insosso e burocrático contrasta com a sensibilidade do fotógrafo, autor da mais impressionante imagem deste início de ano na imprensa paraense, ao meu olhar.

É o que salva a edição comercial e pobre do jornal, como de todos os demais na cobertura de acontecimentos que têm um significado maior do que lhe concede o aproveitamento sensacionalista da imprensa, se aproveitando do leitor da mesma maneira que o bandido se aproveita do transeunte incauto e até do cidadão recolhido à intimidade do lar, outrora sagrado.

Quantos dos sentenciados por crimes que não voltaram do gozo das festas de fim de ano, graças ao indulto natalino, retornarão aos seus locais de origem? Quantos, rompendo o compromisso, não voltarão aos presídios, não voltando mais à própria vida?

Ao Estado as respostas, embora se saiba que ele pouco ou nada responde.

Discussão

11 comentários sobre “Os que não voltam

  1. O holocausto social perpetua-se na banalização e generalização do caos pelo citadino encantado pelo enredo hipnótico do sistema.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 15 de janeiro de 2017, 10:35
  2. Já não é mais possível esconder o que é o Estado burguês.

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    Publicado por Luiz Mário | 15 de janeiro de 2017, 11:30
  3. Enquanto todos os equipamentos do Estado estão sucateados e ineficientes, os responsáveis por todas as desgraças do povo (políticos) continuam bamburrando com as vantagens e roubos do dinheiro público. A culpa não é do eleitor é deles que ainda recebem salário para nos matar (bandidos e cidadãos de bem).

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    Publicado por Laudyson J B Araújo | 15 de janeiro de 2017, 11:52
    • Laudyson,

      Quem elege os políticos? Porque a cada eleição os mesmos são mandados de volta para posições importantes? Como explicar a nossa predileção nacional em votar em ladrao? Qual a sua hipótese?

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      Publicado por José Silva | 15 de janeiro de 2017, 18:09
      • É difícil não votar num. Ainda mais quando parte considerável dos votos é comprada. Voto é mercadoria em balcão de negócios. Para muitas pessoas, o único bem que pode resultar em receita. Daí ser vendido, junto com o fisiologismo, o compadrio, a falta de perspectiva, de educação, de autonomia.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 15 de janeiro de 2017, 21:35
      • E onde entram os princípios e ética de cada um, que nao dependem de classe social, do nível de educação ou das necessidades? Colocar a culpa nos outros não seria uma forma fácil de justificar a nossa colaboração na situação em que estamos?

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        Publicado por José Silva | 15 de janeiro de 2017, 22:46
  4. Sexta, seis da tarde, na Diogo Moia, a esposa de um amigo fechava seu pequeno negócio quando surgiu um assaltante. Tentou fugir e se estatelou no chão. O cara levou o que pôde. Ela, com cinco dedos do pé direito quebrados e o tornozelo esquerdo, também.

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    Publicado por Edyr Augusto | 16 de janeiro de 2017, 15:34
  5. 4a.feira última por volta de 20h, retornando p/ casa via ônibus. Alguns metros dá descida, fui assaltada à mão armada, tive muita cautela em “negociar” c/ os motoqueiros armados, e por muita sorte não ter sido alvejada, apesar das ameaças. Não se intimidaram nem diante de vizinhos-testemunhas… Estarrecedor e revoltante o qnto estamos reféns.

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    Publicado por Amélia Oliveira | 16 de janeiro de 2017, 19:15
  6. Abstenção Já! A real soberania popular.

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    Publicado por Luiz Mário | 17 de janeiro de 2017, 08:49

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