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Política

A história na chapa quente (44)

Uma guerra viciada

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 253, de fevereiro de 2001)

Os dois maiores inimigos na política brasileira atual, os senadores Jader Barbalho (do PMDB) e Antônio Carlos Magalhães (do PFL), têm um ponto em comum: jamais foram outra coisa na vida além de políticos. Por isso mesmo, ambos vêm suscitando dúvidas sobre a evolução do patrimônio pessoal que acumularam enquanto se dedicavam integralmente à política.

Quando atacam, a ambos é dada a razão: essa variação patrimonial não guarda coerência com as rendas que têm declarado ao fisco. Quando se defendem, não conseguem convencer a opinião pública. Reforçam nela uma convicção latente: exercer o poder é o melhor caminho para enriquecer.

Mesmo que ilícita essa acumulação de bens, ela será protegida pelo próprio exercício do poder. O crime ficará acautelado dos rigores da lei por suas próprias lacunas, que um bom advogado sabe tão bem explorar. Como mostrou, até um certo ponto, o mafioso americano Al Capone.

A pergunta que todos se faziam (escrevo no dia 10), às vésperas da definição do confronto entre Jader e ACM pela presidência do senado, o segundo cargo na escala de substituição do presidente da república, é sobre qual esse limite de tolerância no Brasil.

Se os dois políticos duelassem nos Estados Unidos como vêm fazendo no Brasil, ainda estariam livres de processo ou, talvez, das grades de uma prisão? Ainda estariam usufruindo dos seus mandatos parlamentares? Ainda seriam interlocutores sancionados da maior autoridade pública do país e símbolos de alguma coisa de moralmente exemplar ou edificante para a sociedade?

Como qualquer colegial está cansado de saber, o gângster Al Capone roubou, extorquiu, cometeu inúmeras transgressões penais e mandou matar à vontade sem ser preso. Mas foi mofar numa penitenciária por sonegar o imposto de renda, a brecha encontrada por seu implacável perseguidor, o agente Elliot Ness, do FBI. Os EUA não são melhores moralmente do que o Brasil, muito pelo contrário. Mas há lá uma divisa nítida para todos, uma convenção partilhada pela nação.

Tolerância patológico com o delito

Em todas as sociedades cometem-se crimes, em todas há numerosos casos de impunidade ou mesmo de edificação de impérios baseados na ilicitude. Mas parece que só progridem aquelas nações que adotaram mecanismos de prevenção, contenção e repressão a partir de um entendimento tácito: de que, uma vez tornados públicos, os delitos já não podem mais ser ignorados. Muita sujeira colocada embaixo do tapete indica que a tolerância ao desvio se tornou patológica. Passou a ser a tolerância daquelas casas que lhe tomam a denominação.

É esta insensibilidade pública que espanta na escalada das escaramuças entre os dois senadores. Verifica-se, mais uma vez, que ambos têm toda razão quando atacam e nenhuma quando se defendem. É uma constatação quase generalizada em relação à classe política, mas de fácil extensão a toda a elite brasileira.

Certamente o paraense Jader Barbalho teria sido aclamado – e muito mais cedo – presidente do senado se não tivesse trombado com Antônio Carlos Magalhães. Jader está pagando caro por um dos maiores méritos da sua já extensa carreira política, de 35 anos: não ter vergado a coluna a mais um dos desmandos do sultão baiano.

A imprensa e os barões

Fica uma incômoda sensação de que, não fora esse detalhe, o líder do PMDB não teria sido premiado com um tratamento excepcionalmente incomum nas páginas de Veja, a mais influente revista de informação do Brasil (e uma das mais importantes do mundo): depois de uma reportagem de capa de oito páginas, uma suíte de quatro páginas na edição seguinte, na qual a repercussão era constituída por acréscimos da própria revista e não pela reação da sociedade (na seção de cartas a participação de Jader foi a de um coadjuvante; logo sumiu daquele espaço).

O tratamento francamente parcial dado aos preliantes (ou seria meliantes?) mostrava que um segmento do poder, simbolizado pela Editora Abril, escolhera ACM como parceiro, conduzindo a opinião pública para objetivos que até podem ser legítimos, mas não são limpos porque padecem de uma tendenciosidade larvar.

Algo como ocorreu com Fernando Collor de Mello, fustigado nas suas muitas e abertas chagas, mas em função de interesses não muito melhores do que os dele. Porque era de outra “panela”, de outra “tchurma”, de outra gangue, neófita no poder nacional (e por isso tão desastrada).

A imprensa pode ter seus favoritos, mas sua escolha não deve impedi-la de informar o melhor possível para permitir a escolha do público. Nem devia camuflar sua própria definição para que o campo de batalha fique suficientemente iluminado. Não é fácil abordar com equilíbrio um choque tão passional de líderes políticos, atrás dos quais há legiões ocultas, nada passionais, muito pragmáticas.

Mais fácil, porém, é servir a um dos lados, apresentando-o como a escolha certa, o outro sendo o dragão da maldade contra o santo guerreiro (ainda mais, afilhado de orixás). Dessa guerra, entretanto, o mocinho parece ter sido expurgado. E as regras são de uma pelada de fundo de quintal. Acima do joelho tudo é canela.

Patrimônio suspeito: só um

Atualizando a fortuna de Jader, dos 2,6 milhões de reais declarados ao fisco para os quase R$ 30 milhões de valor real, Veja deu uma medida mais exata do descompasso na relação entre os ingressos comprováveis de renda do ex-governador do Pará e as incorporações patrimoniais que tem feito.

A façanha o notabilizaria na iniciativa privada se ele realmente houvesse se arriscado no jogo do mercado (administra as empresas do conglomerado como um autarca).

Mas Veja se esqueceu de que o patrimônio declarado por ACM ao leão é duas vezes maior do que o de Jader, o que, em princípio, autoriza tratá-lo como homem de R$ 60 milhões. Essa riqueza não mais explicável do que a de seu oponente de circunstância (uma tal que poderia jogar Capone contra Lucky Luciano, sem, contudo, diferenciá-los).

Antônio Carlos Magalhães não passava de um obscuro deputado federal, eleito pela UDN baiana à sombra dos velhos coronéis do Estado, mas buscando calor ao lado de Juscelino Kubitscheck. Aos 40 anos, foi nomeado prefeito de Salvador.

Era um típico membro da classe média, que subia no vácuo do autoritarismo do regime militar, caldo de cultura ideal para o seu próprio mandonismo. Deixou JK e se atrelou aos generais, ele próprio um legítimo cacique no modelo de antanho dos coronéis da Guarda Nacional (adaptado à era da comunicação eletrônica).

A riqueza de ACM

Em 1967, o prefeito nomeado tinha 50% de uma casa sua em Salvador e metade na que o sogro doara à sua filha, quando casara, além de um apartamento na capital baiana, em nome da filha; um lote e uma casa de veraneio em Madre de Deus; um apartamento em construção e financiado em Ipanema, no Rio de Janeiro; um apartamento em Brasília, financiado pelo IAPI (o instituto de previdência dos industriários); dois carros Volkswagen; e uma pequena quantidade de ações de empresas.

Quatro anos depois, ao ser eleito indiretamente (pela Assembleia Legislativa) governador da Bahia, ACM não perdera nenhum dos seus imóveis e ainda conseguira incorporar um sítio em Brasília e um outro apartamento no Rio de Janeiro. Começara a engordar bastante sua bolsa de ações, um nítido elemento do rito de passagem da classe média para a classe alta. Se não de fato, então, ao menos já nas aspirações. Elas se consolidariam em 1975, quando encerrou o primeiro dos três mandatos como governador baiano.

O deputado Élquisson Soares, que analisou as declarações de ACM até 1982, fez uma observação interessante sobre elas: para comprar um apartamento na avenida Vieira Souto, em Ipanema, onde está um dos metros quadrados mais caros do Brasil, que custou 1,3 milhão de cruzeiros (valor da época), Antônio Carlos precisou vender 68 mil ações preferenciais do Banco do Brasil, que lhe renderam Cr$ 800 mil.

Mesmo assim, seu estoque de ações do BB, que na declaração de rendimentos anterior somava 55.890 ações, passou para 193.663 ações, mesmo com a quitação do apartamento na Vieira Souto. Milagre dos peixes adaptado ao capitalismo financeiro que nos assola?

A partir daí, o universo patrimonial do cacique do PFL se ampliou para um tamanho que só não é exatamente equivalente ao de Jader porque o excede em pelo menos o dobro, aceitos os valores das declarações de ambos (ACM, é verdade, tendo partido de uma base mais bem fornida do que a de Jader, alguns degraus abaixo na escala da renda).

Tanto um como outro podem exigir que seus detratores apresentem provas concretas da acusação que lhes fazem, de engordar seus patrimônios através do roubo. Podem se achar no direito de se colocar acima dessas calúnias enquanto a relação de causa e efeito não tiver sido estabelecida, como não o foi até agora (até mesmo porque não houve uma tentativa séria nesse sentido na instância competente, administrativa ou judicial).

Mas a extrema facilidade no manuseio do dinheiro público e parceria privada, que é colocada ao alcance dos políticos (e de certos segmentos da elite), permite disfarçar o roubo com a aparência do benefício legítimo, embrulhando tudo com o celofane do sigilo ou da clandestinidade, do caixa 2.

O patrimônio de Jader

O senador Jader Barbalho, por exemplo, em 1980, quando ainda era apenas um deputado federal, como Antônio Carlos em 1965 (a diferença de idade entre os dois é de 17 anos), tinha no seu patrimônio tributável uma casa de 272 metros quadrados, num bairro suburbano de Belém (o Marex, ao lado do aeroporto), no valor de 1,8 milhão de cruzeiros (da época).

Usando-a como garantia, conseguiu arrancar do mesmo Banco do Brasil (uma mãe para esse tipo de gente, diz Ítalo Rossi pela boca de um personagem de São Paulo S/A, filme de Luís Sérgio Pherson sobre a saga da industrialização nacional, feita pela iniciativa privada com dinheiro público), no intervalo de um ano (até junho de 1981), quatro empréstimos rurais, no valor de R$ 97,7 milhões – ou seja, algo quase 100 vezes maior do que a garantia dada à transação.

Dois anos depois, quando já era governador, em 1983, Jader quitou essa dívida pelo valor histórico, graças a facilidades concedidas para resolver o problema de quem comprara um elefante para pagar por uma formiga.

A partir dessa origem comum, seguindo trajetória idêntica, os dois se tornaram potentados na sua base eleitoral. A diferença é que Jader seguiu sempre o percurso do voto, que é mais lento e hierarquizado. ACM, parceiro dos militares, queimou etapas e emergiu como a mais poderosa liderança nortista (não importa a impropriedade geográfica na ótica dos que veem o país a partir do seu centro econômico, umbigo do universo nacional).

A eminência parda

Sagaz e não muito dado a escrúpulos, ACM usou esse poder para multiplicar seu capital, o material e o imaterial. Sedimentou-o tanto na fértil terra baiana, receptiva à messe mística e hipnotizada pela modernização autoritária, de mãos dadas com a marketização do folclore, quanto nos anéis superiores da aliança, sintonizada nos cifrões. Não chegou tão longe quanto José Sarney por mero acaso (os búzios maranhenses parecem mais eficientes), mas tem sido mais poderoso nas alcovas e bastidores.

Sem essa dupla sustentação, ACM não teria podido tirar a retransmissão da TV Globo, mantida por 18 anos pela TV Aratu, para sua TV Bahia (a chave foi o despejo de Mário Garnero da NEC, sociedade entregue de mão beijada à Globo), nem usado com tanta folga os satélites da constelação de Roberto Marinho para irradiar seu prestígio. Com tal apetite que acabou por assustar o dono da opinião pública nacional.

A ocasião para começar a livrar-se do parceiro, com perigoso potencial de dominação, veio quando os excessos do coronel incomodaram também outros circunstantes do poder e dona Nicéa Pitta [mulher do prefeito de São Paulo, indicado por Paulo Maluf, que denunciou a corrupção do marido no curso de um litigioso processo de separação] apareceu-lhes como sopa no mel.

Ali, ACM começou a decair da confiança – como se dizia na época do regime militar – do companheiro Marinho. E ali também começava a tomar corpo o arroubo de energia de Jader Barbalho para mandar o soba calar-se em sua poltrona no plenário do senado e lá ficar, quietinho, quietinho, mando como um leão sem dentes.

Tudo gente fina

Se a plutocracia paulista ultrapassou suas medidas de tolerância a esses cangaceiros nortistas, seu método para livrar-se deles é virtual, mais eficiente do que um primitivo duelo ao entardecer, testemunhado por mandacarus antediluvianos. Justamente por isso, menos perceptível, o que confunde os juízos e compromete as avaliações. Não é, certamente, o que interessa à nação.

Os estereótipos cabem como luva, mas é preciso atravessá-los com a luz da verdade para que se chegue à moral que dá valor à história: todos são culpados. Ou, como diria o iracundo Émile Zola, na França do século XIX, se Zola pudesse ter emprego na grande imprensa brasileira de hoje:

– Ah, a boa gente! Que canalhas!

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (44)

  1. Tudo gente boa, cujos nomes batizam ruas, escolas e bairros pelo Brasil afora. O nosso culto aos corruptos não tem fim. O ACM ficou com certeza muito mais rico. O ACM Neto, por exemplo, declarou 77 milhões em bens. E olha que ele teve que dividir a herança com vários outros parentes. Qual o patrimônio diz Jader hoje?

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    Publicado por José Silva | 16 de janeiro de 2017, 10:09

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