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Política

A história na chapa quente (45)

Jader e Almir em 2002?

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 253, de março de 2001)

Ao derrotar o todo-poderoso Antônio Carlos Magalhães e se eleger presidente do senado, Jader Fontenele Barbalho inscreveu seu nome numa galeria de honra: a dos políticos paraenses que asseguraram sua perenidade no tempo e no espaço, tornando-se figuras de grandeza nacional.

Essa posição é partilhada por poucos na história republicana, como Antônio Lemos, Lauro Sodré, Magalhães Barata e Jarbas Passarinho (não sendo paraenses de nascimento o primeiro e o último). Como chefe do poder legislativo, formalmente na mesma linha hierárquica do presidente da república e do presidente do Supremo Tribunal Federal, Jader se tornou o político mais importante do Pará na Quinta República.

Carreira toda na política

José Sarney iniciou essa quinta etapa republicana em 1985, quando substituiu o último general-presidente do ciclo militar, o patético João Figueiredo. Mas a carreira política de Jader começara duas décadas antes, literalmente pelo começo: pulando da política estudantil para uma cadeira de vereador na Câmara Municipal de Belém. Quando se tornou deputado estadual, na eleição seguinte, ainda conservava a imagem do político genericamente de esquerda, com a qual subiu para Brasília em 1978, um coadjuvante dos “autênticos” do MDB.

Para ser eleito governador do Pará pela primeira vez, quatro anos depois, Jader já precisou fazer uma composição heterodoxa: uniu-se ao tenente-coronel Alacid Nunes, o último dos governadores do Estado eleito indiretamente (pela Assembleia Legislativa), a partir de uma imposição feita de cima para baixo pelo presidente militar.

Jader abriu uma cunha, que antecipou localmente a derrocada do regime militar, beneficiando-se do paroxismo a que chegou a rivalidade entre Alacid e Jarbas Passarinho. No poder, tratou de livrar-se do aliado incômodo, restabelecendo um domínio político inspirado nos velhos métodos “baratistas”, uma combinação de carisma, populismo e relaxamento na condução dos negócios públicos.

Mas o poder foi um butim pequeno demais para ser dividido. Hélio Gueiros, o sucessor, também tentou se livrar do aliado. Faltou-lhe, porém, habilidade suficiente. Jader retomou o governo, tirando proveito dos dois ministérios que ocupou no governo Sarney para acumular forças (e força$).

Sem equipe, teve que engendrar um esquema temerário para tentar, ao mesmo tempo, subir para o Senado e deixar um representante no comando do Estado. Para tanto, usou como escudo e trampolim o nome de Jarbas Passarinho. Só conseguiu – e com dificuldades – o primeiro objetivo. O preço foi o fim da carreira da maior liderança política do ciclo militar no Pará. Passarinho foi quem o pagou.

A primeira derrota

Para Jader, a conta foi mais suave. Mas, ameaçado de seguir no mesmo caminho, teve que aceitar entrar na disputa pelo governo, em 1998. Sabia que as possibilidades de vencer o governador Almir Gabriel, disposto a tudo pela reeleição, eram pequenas. Contudo, se não retomasse o contato com a base eleitoral, podia tratar de se acomodar no planalto brasiliense ou no litoral alencarino.

Sua primeira derrota eleitoral serviu de advertência, que ele considerou na medida certa: em 2000 envolveu-se inteiramente na disputa municipal e voltou do sertão com um PMDB restabelecido na linha de frente.

O confronto com Antônio Carlos Magalhães, o único político que não perdeu poder na passagem do regime de exceção para a democracia, foi um teste de adestramento para Jader. Nas artes e engenhos dos bastidores do poder nacional, ele mostrou uma competência muito superior à do cacique baiano. E uma notável capacidade de resistência aos ataques de desmoralização e descrédito da grande imprensa brasileira. Engoliu sapos como nenhum outro político nos últimos anos. Mas não mugiu e nem tossiu, seguindo à risca o manual das raposas de terreiro eleitoral.

Sua votação foi na medida certa: bem acima do mínimo necessário, o que serviu para lhe conferir legitimidade, mas não tanto que minasse definitivamente a base de sustentação do governo, aumentando a capacidade gravitacional da oposição. É claro que essa engenharia só se tornou possível porque o Palácio do Planalto, contrariamente ao que declarou o presidente Fernando Henrique Cardoso, participou da batalha ao lado do líder do PMDB.

Uma vitória da sagacidade política, mas que também evidencia o crescente distanciamento entre as instituições e a sociedade, que acompanhou à distância – impotente, mas um tanto enojada – o desenvolvimento dos combates e o seu desfecho.

No alto do poder

Pela segunda vez em toda a história republicana, um representante do Pará chefia um dos três poderes legais do país. Nem o mais empedernido inimigo de Jader Barbalho pode deixar de reconhecer nesse resultado um componente decisivo da sua capacidade pessoal.

Foi o que o ex-senador Passarinho destacou na carta de felicitações dirigida ao homem que voltou a ocupar o lugar que fora, até então, privilégio exclusivo seu (fato objetivo que nenhum dos anti-Passarinho também pode deixar de reconhecer).

Contudo, há um contexto sem o qual mesmo as mais notáveis qualidades individuais resultariam em nada. Sete dos oito políticos que ocuparam a presidência do senado a partir de 1985 foram representantes das regiões mais pobres do país: Nordeste, Norte e Centro-Oeste.

Essa linhagem “nortista”, conforme a definição tropocêntrica dos “sulistas”, só foi interrompida, de 1989 a 1991, pelo senador Nélson Carneiro, do Rio de Janeiro (o célebre defensor do divórcio, já falecido). A atual mesa do senado é toda de “nortistas” (quatro do Nordeste, dois do Norte e um do Centro-Oeste).

Sul versus Norte

Na Câmara dos Deputados a relação é quase inversa porque, ao contrário da casa vizinha, onde a representação é uniforme (três vagas por Estado, independentemente da população de cada um), a definição dos lugares obedece ao critério demográfico, embora sob certa bitola, que compromete seu rigor (mínimo de oito e máximo de 70 deputados por bancada, concedendo mais lugares a Estados menos populosos, e pobres, e menos a São Paulo, o caso mais grave de distorção aritmética).

No mesmo período, a presidência da casa foi ocupada por cinco “sulistas” e três “nortistas”. Depois de dois mandatos de Michel Temer, de São Paulo, agora é a vez de Aécio Neves, de Minas Gerais, restauração da dobradinha do café-com-leite que congelou a República Velha. Só que o neto de Tancredo Neves (único item notável na sua biografia) divide a mesa da Câmara com seis “nortistas”, sem um único “sulista” acompanhante.

Enquanto no executivo federal o “Sul” recuperou a chefia, que deambulou em mãos “nortistas” nos dois primeiros mandatos pós-ditadura (com Sarney e Collor), o parlamento, inclinado em favor das regiões mais pobres, teria a função de estabelecer politicamente um equilíbrio nacional. Ou corrigir, através da vontade, um desequilíbrio que decorre de fatores estruturais (sobretudo econômicos). Esse contexto serve de pano de fundo (ou de simples moldura, conforme o ponto de vista) para ajudar a explicar o notável triunfo do representante de uma unidade menor da federação num canil de cachorro grande.

O “Norte” é dono do poder político. Mas o poder político que conquistou é mais do que um poder formal? O troféu ao alcance desse poder é vital ou decorativo, as migalhas do banquete? Talvez Jader Barbalho ajude a responder a essas e outras perguntas que sua vitória pode suscitar.

O perigo da vitória

Mesmo sendo apontado como um dos mais célebres exemplos de enriquecimento ilícito, conseguido graças ao assalto aos cofres públicos, ele ultrapassou todos os obstáculos e armadilhas postos em seu caminho. Teve um voto além da metade das cadeiras do Senado e bem acima do exigido para ser eleito.

Tecnicamente, dispõe de legitimidade e poder para exercer soberanamente o cargo. Mas esta será uma legitimidade meramente formal se ele não conseguir convencer a opinião pública de que as máculas do passado são apenas manchas removíveis; ou então que, reais ou não, o que conta a partir de agora é seu comportamento, suas ações.

Muitos líderes refizeram suas biografias sem precisar negá-las ou retocá-las. O ditador Getúlio Vargas, depois de um lastro de ignomínias no Estado Novo, colocou-se à frente de um programa de verdadeiro estadista, um dos raros da história, quando voltou à presidência pelo voto popular, em 1950. Foi o único, nesse cargo, a preferir a morte ao ultraje, a se cansar dos “jeitinhos” negociados dos quais, antes, fora um mestre.

Revanche Almir x Jader

Pode-se esperar isso de Jader Barbalho? Só ele pode responder, o que, se fizer, o fará contra as evidências do passado e o ceticismo do presente. É óbvio, ao observador desapaixonado, que dificilmente ele teria derrotado um esquema viciado de poder, mantido independentemente das diferenças de geografia política, se não houvesse um outro esquema mais forte em ação – e, talvez, não menos viciado. É acaciano que votos foram comprados, com conta de vencer à vista ou parceladamente, ainda que por compra simbólica (mas nem um pouco menos eficiente – e cara).

Um dado novo na política paraense resulta, quase por gravidade, desse acerto por cima: a possibilidade de que Jader e Almir Gabriel, inimigos ferozes na eleição de 1998, dividirem o mesmo palanque em 2002. O pombo-correio dessa novidade, tão velha na política brasileira, em seu formato de gangorra biruta, tem sido o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha.

No cargo por injunção do PMDB e aval de Jader, ele retribuiu partilhando o ministério segundo indicações do seu companheiro de Senado. Mereceu, por isso, raios furiosos do governador nos momentos de má meteorologia. Mas quem melhor do que esse belzebu do Palácio dos Despachos para restabelecer a ponte erodida sobre esse terreno comum (tão pantanoso, aliás, como o da onírica Alça Viária).

O primeiro ensaio foi durante a visita-surpresa ao gabinete do governador. A reação foi pouco menos delicada do que um coice de tucano (menos violento, porém, do que imagina a ave que coiceia). A ligação feita por Padilha a partir de Brasília, na véspera da eleição para a presidência do Senado, precedida de arranjos à ilharga do Palácio do Planalto, foi recebida sem decibéis negativos.

Sim, o governador nada teria a opor a que o próprio Jader Barbalho lhe telefonasse. Mesmo porque, para o bem de todos os paraenses e felicidade geral deste que quase fora um país (ao menos na música do poeta Ruy Barata e na dramaturgia do filho, Paulo André), já orientara seu senador, o brilhantemente mudo (ao menos nestes tempos de muda) Luiz Otávio Campos a digitar seu voto no painel eletrônico (viciado? censurado?) em favor do antípoda de ACM, tanto mais igual quanto mais oposto.

Jader ligou, a conversa foi amena por imensos dois minutos e acabou. Nenhum contato pessoal depois, nenhuma mensagem escrita de felicitação. Os dois aprontam suas agendas, inscrevem em seus livros de haver. Dizem que orientados por causas nobres, os pleitos que ficam para depois no orçamento da União, as plataformas que emergem como cinzas avivadas por vento forte e efêmero,  e assim se vão para o reino do nunca mais.

Tudo é possível?

É claro que, entremeando tantos motivos relevantes, há detalhes menores, como saber quem ocupará as candidaturas majoritárias, quais máquinas serão usadas e etecetera. Menores, talvez, mas preliminares sempre.

Por enquanto, é aí que Inês continua sua imolação. O governador tem um candidato do peito: é o secretário especial Simão Jatene. Não ignora que o nome de Jatene é pesado, de pouco apelo popular. Mas, quem sabe, se Jader desse um empurrão, o rateante motor de Jatene não pegava? Mesmo porque, qual é o candidato do senador peemedebista? Ele próprio? Não gostaria de voltar ao Senado, consagrado?

Quanto a essa possibilidade, só se tiver o governo atrás, inflando as velas dos caçadores de votos. Caso contrário, vai ter que batalhar na bacia das almas, como fez em 2000, com a perspectiva de ombrear com alguém da esquerda (talvez Ana Júlia Carepa?).

Se Jader for o coligado para senador e Jatene o candidato comum ao governo, Almir talvez se sacrifique e vá até o fim do seu mandato, voltando um ano e meio depois para disputar a prefeitura de Belém. E depois novamente o governo, ou o senado. E depois…

As combinações possíveis são numerosas, desafiam a imaginação, surpreendem as expectativas. Não há espinhas dorsais resistentes ou programas consistentes para atrapalhar o embaralhamento de cartas, conforme os caprichos do crupiê.

Mas uma coisa é certa: se ainda falta o momento certo para que Jader e Almir sentem diante de uma mesa e possam puxar suas listas da algibeira (ou da cartola?), a hipótese de um acordo entre eles deixou de ser demoníaca, já não constitui heresia e, mais um pouco, passará a ser sagrada.

Em prol do Pará, do povo e quetais, evidentemente, e deles também, naturalmente, que Mateus deve, biblicamente, embalar os seus (primeiro). A equação precisa ser armada antes que se possa anunciar o resultado.

Dizem os velhos cronistas da história brasileira que nossos coronéis, de carreira ou da sempiterna Guarda Nacional, antes de travar iminentes batalhas sangrentas consultam a força do inimigo. Se convincente, antes de terçar armas no assim chamado teatro de operações, armam um tratado e cada um ocupa o que lhe cabe na partilha. A vida fica mais saudável, menos cruenta.

Um ambiente assim, do qual pode resultar uma batalha de Itararé ou um pacto de fancaria, vive-se agora no Pará. O tempo criado pela emocionante vitória do senador Jader Barbalho em Brasília é propício. Embora sujeito a chuvas e trovoadas trazidas, de fora do continente, pelas maquiavélicas frentes frias de sempre. No Pará, até os ventos mudam de rota quando colidem com os interesses de um poderoso.

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (45)

  1. Em meio a toda essa estratégia não pode ser esquecida a Cultura da Corrupção, que ensina os bons costumes, forjando os bons-moços da tradicional família brasileira….

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    Publicado por Luiz Mário | 17 de janeiro de 2017, 09:15

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