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Imprensa, Política

A história na chapa quente (48)

Coisas deste país varonil

(e outras rimas ricas)

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 253, de março de 2001)

Quem comprou Memórias das Trevas, de João Carlos Teixeira Gomes (Geração Editorial, São Paulo, 766 páginas, R$ 40), pode ir queixar-se ao Procon. O subtítulo (Uma devassa na vida de Antônio Carlos Magalhães) não passa de propaganda enganosa. Quando muito, trata-se de um libelo contra ACM. Um libelo cabe na tribuna, no judiciário ou no parlamento. Também em livro, desde que o leitor seja advertido.

Mas Joca não fez a devassa que anunciou: limitou-se a reconstituir a perseguição que ACM moveu contra o Jornal da Bahia. Não toda, aliás: apenas enquanto o autor foi o responsável pela redação, já que o autor é o que interessa (o resto é figuração, ou é o resto, como preferiria nosso prefeito).

Mesmo nesse contexto mais restrito, seu levantamento não foi além de uma coletânea de artigos, a maioria escritos por ele mesmo. Não há dúvida de que é material suficiente para caracterizar o uso da força – e, sobretudo, da máquina pública – para silenciar um jornal incômodo. Mas não para contar a história completa.

Mesmo porque, ao contrário do que sugere a capa do livro, o personagem principal não é o senador baiano, mas o jornalista baiano, lui-même, João Carlos. ACM, que lhe causou tantas dores de cabeça, agora serviu de escada para conduzir os originais até uma editora nacional, conquistar dela uma volumosa edição, uma tiragem (e uma recepção) desproporcional aos méritos do livro, inquestionáveis nos limites da província, insubsistentes na amplitude da nação.

É um livro que às vezes emociona e comove, mas a repetição de hipérboles cansa e tira a força que teria um volume mais enxuto, objetivo, expositivo, menos autocentrado, como diz uma certa psicologia da conivência. João Carlos podia dar seu valioso testemunho se tivesse um pouco de humildade para esperar a avaliação de terceiros a partir de seu arrolamento de dados e situações. Mas ele é advogado, juiz e jurado desse tribunal que armou em páginas embebidas de saturado óleo-de-dendê.

Em 1967, quando começou sua guerra com ACM, ele garante que já desfrutava “de crescente conceito”, não só por sua dedicação ao jornalismo e conduta ilibada, mas também “pelo exemplo da minha coragem pessoal”.

O autor se considera o mártir da imprensa brasileira nesse período de chumbo, no qual tantos perderam a vida, mais do que o emprego ou o cargo de chefia, e trombaram não com um inimigo que atacava à distância, mas com um repressor com instrumento de tortura à mão.

É evidente que João Carlos é um caso de dignidade, mas um entre vários, e certamente não o mais grave, não o mais injustiçado (hoje mesmo, há jornalista que sofre mais numa democracia do que ele no período da ditadura).

Ao relatar ter sofrido nove processos movidos contra ele com base na tal da Lei de Imprensa, um dos quais pela lúgubre Lei de Segurança Nacional, João Carlos, ofuscado pelos limites da província baiana, perde o contexto geral que explica seu caso dentre outros.

Ele admite que, até hoje, não consegue entender “por que foi processado o redator-chefe, e não o diretor do jornal, que era seu proprietário”, quando ACM e apaniguados apresentaram suas queixas-crime. Bastaria a ele, que é advogado, ler a lei 5.250/67 para verificar que, formalmente, o responsável pelo suposto delito de imprensa é o responsável pela redação e não o dono da publicação.

O caso não perderia em gravidade, mas certamente se tornaria mais rés-o-chão, rotineiro naquela era das trevas, uma violência, não há dúvida, mas enquadrável no quadro jurídico (ou antijurídico) de então. João se considera um “subversivo” que “não tinha sequer o direito de morar”, por ter que apresentar uma certidão negativa da Auditoria Militar para poder efetuar a transação. Não há dúvida da violência que sofreu. Mas daí a ser herói por tê-la sofrido vai uma certa distância.

Sua posição diante do atrabiliário ACM e seus esbirros foi decente e honrosa, mas ele se excede quando se qualifica como um jornalista que buscou “escrever sem tutelas e, num plano ideológico mais vasto, atingir a ditadura”. Não se vexou, contudo, em elogiar o general Garrastazu Médici, em editorial de primeira página no Jornal da Bahia, em 1972, para tentar encontrar no então presidente da ditadura um anteparo contra Toninho Malvadeza. Deu-se mal: Médici continuou adstrito ao seu radinho de pilha e ao futebol, barulho que o isentava de ouvir os gritos nas masmorras da tortura.

Não espanta que, ao fim de quase 800 páginas, metade das quais nada têm a ver com uma “devassa” do gendarme baiano (são viagens, opiniões e cometimentos literários do autor, membro da Academia Baiana de Letras), ACM tenha desistido do ímpeto inicial de prender e arrebentar, que partilhava com o general João Figueiredo até mudar-se, na undécima hora, para a nau de velas infladas de Tancredo Neves.

Ficaram elas por elas, uma mão inadvertidamente lavando a outra, que deu uma mãozinha sem querer. Coisas daquele país chamado Bahia, levadas a todos os confins da pátria por essa guerra das famílias ACM e Jader Barbalho.

Ah, o Brasil encalacrado e morrinha do qual se queixava Mário de Andrade, esse paquiderme inerte que enervava o britânico Antônio Callado, sempre recorrendo ao jeito errado.

Discussão

5 comentários sobre “A história na chapa quente (48)

  1. Será que o livro foi patrocinado pelo Jader?

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    Publicado por José Silva | 19 de janeiro de 2017, 21:13
  2. Parece que o jogo entre as hienas é apenas quebrar parte da mandíbula do adversário para diminuir a voracidade e tê-lo sob domínio. Afinal, como é a regra entre eles, o inimigo de ontem é o mais fiel aliado de hoje.

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    Publicado por Luiz Mário | 20 de janeiro de 2017, 11:15
  3. E o livro do Palmério Dória Honoráveis Bandidos sobre a família Sarney no Maranhão, da mesma coleção e mesma editora?
    Achei que teve elogios demais vindo de desafetos de Sarney, descobri varias coisas, mas faltou uma pesquisa mais profunda e mais detalhes das gestões do clã.

    Curtir

    Publicado por Fabrício | 18 de fevereiro de 2017, 12:52

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