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Imprensa

Repórter até morrer

Reproduzo matéria que saiu no Blog JORNALISMO NAS AMÉRICAS, editado no Centro Knight de jornalismo, nos Estados Unidos por Rosental Calmon Alves.

Crowdfunding busca ajudar o Jornal Pessoal, produzido no Pará há 30 anos por um só jornalista, Lúcio Flávio Pinto

Por Alessandra Monnerat

Por quase 30 anos, Lúcio Flávio Pinto tem sido o único repórter e editor de um jornal diferente dos demais e independente, que investiga e fiscaliza de perto os poderosos no Pará e no resto da região amazônica brasileira. Suas reportagens fizeram dele um jornalista renomado e premiado ao redor do mundo, mas também atraíram ameaças e agressões.

Para ajudar a confrontar os atuais problemas financeiros da publicação quinzenal, um colega jornalista lançou uma campanha de crowdfunding (financiamento coletivo) para tentar garantir o futuro do Jornal Pessoal.

“Quando fiz o Jornal Pessoal, eu tinha 21 anos de profissão, 18 dos quais em O Estado de S. Paulo, passara por algumas das principais publicações brasileiras, formara um imenso rol de fontes, viajara pelo país e pelo mundo. Era o meu capital, que gasto até hoje. (…) Mas ainda quero fazer mais. Nunca deixei de ser o foca de reportagem. Vou morrer assim”, disse Lúcio Flávio Pinto ao Centro Knight.

Nadando na contracorrente da imprensa do Pará, o Jornal Pessoal hoje luta para manter suas portas abertas. Os custos de produção, de R$ 5.840 por mês, não são cobertos pelas vendas em banca, única fonte de renda do veículo além de doações. Cada jornal custa R$ 5 e a vendas flutuam abaixo de 1,1 mil, de uma tiragem de 2 mil exemplares.

A circulação é a única fonte de renda porque Lúcio Flávio nunca aceitou publicidade e continua convencido de que isto garante a independência do seu jornal.

“Pretendo levar o jornal até o seu fim com essa diretriz editorial: não aceitando publicidade. Na origem do Jornal Pessoal, foi um protesto contra o atrelamento ideológico, político e comercial da verba de publicidade. Prometi a mim mesmo que desafiaria a regra de que jornal não sobrevive sem a receita publicitária. E tenho respondido ao desafio, apesar de tudo”, disse ele.

Para manter a publicação viva, o também jornalista Lucas Figueiredo organizou a campanha decrowdfunding no site Kickante com o pedido: “Salve o Jornal Pessoal, voz e fiscal da Amazônia”. A meta é atingir R$ 160 mil, para financiar dois anos de produção da publicação escrita e editada por Lúcio Flávio,um dos mais prestigiados jornalistas do país.

As contribuições variam entre R$ 10 e R$ 8 mil, e garantem recompensas como exemplares do jornal e livros escritos por Lúcio Flávio. A cinco dias do fim da campanha, pelo menos 220 apoiadores levantaram mais de R$ 28 mil – ou 17% da meta.

Não é a primeira vez que um grupo de pessoas se junta para socorrer o Jornal Pessoal. Em outubro, uma ‘vaquinha’ virtual arrecadou quase R$ 15 mil, com contribuições de 68 pessoas. Segundo Lúcio Flávio, é um pequeno fôlego para fazer chegar aos 30 anos “um jornal semanal impresso em papel, sem publicidade, sem atrativos gráficos”. Ele é o único pauteiro, repórter e editor da publicação.

Para Lúcio Flávio, a meta de arrecadar R$ 160 mil e a tranquilidade de financiar dois anos de produção é ambiciosa demais. Mas Figueiredo, que atuou como repórter da Folha de S.Paulo e colaborador da rádio BBC de Londres, aposta no modelo de financiamento coletivo. De olho no aumento de doações para projetos como o ProPublica nos Estados Unidos após a eleição de Donald Trump, o jornalista acredita que o público necessita ainda mais de informação independente em tempos “nebulosos”.

“Imagine o Brasil, com a crise política, econômica e institucional que vivemos. Imagine a Amazônia, maior fronteira de recursos naturais do planeta, que recebe uma cobertura pífia por parte da imprensa tradicional. Quanto vale para o país e para o planeta termos um veículo independente que pratica jornalismo em profundidade, que não tem receio de denunciar os predadores da região? R$ 5,8 mil por mês não é nada em relação ao valor da informação que o Jornal Pessoal nos fornece”, garantiu ele aoCentro Knight.

Figueiredo explica que a campanha de financiamento foi pensada como uma medida emergencial para garantir a sobrevivência do que ele chama de jornal-besouro, “que não deveria voar, mas voa”.

“Lúcio Flávio não retira dinheiro do jornal, ao contrário, ele gasta. Nos últimos anos, ele acumulou uma dívida significativa em seu crédito pessoal a fim de não deixar o Jornal Pessoal morrer. E ele ainda tem de bancar do próprio bolso os custos de seus inúmeros processos na Justiça, fruto de denúncias do Jornal Pessoal contra membros do Executivo, do Legislativo e do Judiciário e contra grandes corporações”, afirmou.

Os processos judiciais são um capítulo à parte na história de Lúcio Flávio e do Jornal Pessoal. Atualmente, o jornalista soma sob seu nome 34 ações – quatro ainda em curso. Ele chegou a ser condenado a pagar R$ 400 mil a Romulo Maiorana Júnior por danos morais e materiais pela reportagem “O Rei da Quitanda”, de 2005. Maiorana é executivo das Organizações Romulo Maiorana, braço da gigante Rede Globo no Pará e detentora do Jornal e da TV Liberal, os maiores meios de comunicação da região.

Número inaugural do Jornal Pessoal, lançado em setembro de 1987

Além das ameaças jurídicas, Lúcio Flávio coleciona ameaças de morte e já foi agredido verbal e fisicamente.

“Eu fechei e reabri duas vezes o jornal”, conta Lúcio Flávio. “Estava cansado, queria uma alternativa de vida e de trabalho menos sacrificante, além de ter passado por certo desânimo sobre a importância do jornal. Mas recuei do propósito. Senti o vazio informativo, até como consumidor de jornalismo”.

Lúcio Flávio já fez pazes com o possível fechamento do jornal. No entanto, ainda não sabe o que o aguarda além disso. “De verdade, o day after me assusta. Mas não me intimida. Virei um outsider e não conseguirei mais me livrar essa condição. Nela, o que ainda poderei fazer? Não sei”.

Foi por causa de um de seus processos que Lúcio Flávio não pôde ir à Nova York em 2005 receber o Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa do Comitê para Proteção de Jornalistas (CPJ). O mesmo motivo o impossibilitou de ser reconhecido com o Colombe d’Oro per la Pace na Itália, em 1997. Além desses, o jornalista já ganhou quatro prêmios Esso, o prêmio Vladmir Herzog, o reconhecimento do Abraji e da Fenaj. Em 2014, o Repórteres sem Fronteiras (RSF) o considerou um dos 100 Heróis da Informação, o único brasileiro a ser selecionado.

Com 51 anos de carreira, a pauta de Lúcio Flávio continua aberta a todas as questões, principalmente a informações que não aparecem na grande imprensa e a críticas sistemáticas à ação das elites. Há mais de dois anos, ele se dedica a um blog onde escreve apenas textos sobre os fatos, sem imagens, sem vídeos e ainda respondendo comentários dos leitores.

Após uma trajetória de luta diária para se manter vivo e fora da cadeia, Lúcio Flávio sinaliza para os jovens jornalistas: vale a pena. Principalmente para quem, como ele descreve, “tem vocação jornalística, tem curiosidade inesgotável, se preocupa com o coletivo, rastreia as manifestações do interesse público, gosta de ler de tudo, sente necessidade atávica de escrever e partilhar suas informações, querendo sempre saber mais e do melhor”.

Discussão

9 comentários sobre “Repórter até morrer

  1. Excelente texto. Espero que a nova vaquinha consiga atingir a sua meta! O importante é continuar expandindo a base de apoio para além de Belém.

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    Publicado por Jose Silva | 25 de janeiro de 2017, 17:23
  2. vender e vender
    vida longa ao nosso JP e vida longa com paz e saúde ao nosso LFP

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    Publicado por valdemiro | 25 de janeiro de 2017, 18:37
  3. Força, Lúcio! Teu trabalhoé impar, és um guerreiro e merece todo o nosso respeito! Parabéns pelo jornalismo incomparável que diariamente e há tantos anos nos oferece como a única opção séria, confiável e inteligente de informação!

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    Publicado por Marilene Pantoja | 25 de janeiro de 2017, 19:17

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