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Polícia, Política, Segurança pública, Violência

Salve-se quem puder

(Artigo publicado no site da Amazônia Real)

No ano passado, o Pará, com a nona maior população (mais de 8 milhões de habitantes), foi o quarto Estado brasileiro no qual os policiais mais mataram. Foram 237 mortes debitadas à conta da polícia ao longo de 2016, segundo , segundo o Conselho Nacional do Ministério Público. Mais 4.196 mortes violentas, que aumentaram 11,2% em relação a 2015.

Este ano promete ser ainda pior. Em menos de 20 horas, da tarde do dia 20 até a manhã do dia seguinte, 27 pessoas foram mortas violentamente em Belém. Das quais 24 executadas, quase certamente, por Policiais Militares transformados em milicianos. Quando se completaram 48 horas, as mortes já eram de 30 pessoas, 25 delas executadas pela milícia.

Ela circulou atirando pelas ruas como vingança pela morte do soldado Rafael da Costa, do grupo de elite da PM, a Rotam, versão paraense da paulista Rota, ambas conhecidas – e temidas – pela violência. O militar não foi assassinado nem executado: foi atingido na cabeça por uma bala durante tiroteio com suspeitos de um sequestro relâmpago, que ele e seus companheiros de viatura interceptaram.

Eles foram atrás do bando e mataram um dos seus supostos integrantes, executado dentro da casa em que se refugiara. A partir daí, provavelmente em dois carros, já sem a farda e encapuzados, os policiais mataram mais 24 pessoas, apanhadas de surpresa durante a noite, em geral jovens, todos eles homens, em 16 bairros periféricos (moradia principalmente de gente pobre). De forma aleatória ou seguindo as informações que tinham sobre a localização de pessoas com antecedentes criminais.

Apesar do anúncio das autoridades de que havia ronda permanente da polícia pela Grande Belém, a rotina de crimes de morte de todos os dias prosseguiu, Foi mantida a média de cinco assassinatos por dia, enquanto  a força policial estava supostamente mobilizada para caçar os autores do novo e mais grave matança em série de Belém. Nenhum foi preso ou sequer identificado até agora.

Significa que os bandidos ordinários, na periferia ou à margem do crime organizado, continuam a sua prática de liquidar desafetos, cobrar com sangue dívidas de drogas, praticar latrocínios e disparar contra inocentes como se a polícia (da qual também são vítimas) não estivesse em alerta nas ruas.

Por isso, ao invés de obrigar a corporação a cumprir o seu dever, cortando na própria carne, para identificar, prender e expulsar os colegas que abusam das prerrogativas de agir armados contra violadores das normas legais, matando a esmo, fazendo justiça pelas próprias mãos, o governador Simão Jatene, do PSDB, preferiu recorrer ao Ministério da Justiça.

Sabendo que não conta com a isenção da sua polícia, ou reconhecendo sua incompetência, lançou logo o SOS à Força Nacional. Ao menos tacitamente, a sua declaração sugere temor de que suas ordens não sejam cumprida, ou a renúncia à voz de comando, que a constituição lhe confere como comandante-em-chefe da polícia estadual. Foi a admissão da ruindade da polícia paraense.

Tem razão de ser. São passados quase 40 meses da mais sangrenta execução em série por policiais da história de Belém, até a da semana passada,  a de novembro de 2014. Como a de agora, ela irrompeu a partir da morte de um cabo afastado da função por medida disciplinar e considerado chefe de milícia, autor ou mandante de vários assassinatos.

A nova versão, é duas vezes e meia mais sangrenta. O que dizer da segurança pública do Pará, se, de tudo que foi feito no primeiro caso, resultou em prisão zero e história inconclusa, pela falta de sentença final no processo judicial instaurado contra oito militares presos e todos soltos depois?

Até agora, nenhum dos “justiceiros” que surfou nessa onda de sangue foi preso. O Pará ameaça subir ainda mais no ranking do sangue em 2017. Detalhe importante: nas mortes praticadas por policiais não estão incluídas as execuções que homens encapuzados fizeram na Grande Belém a bordo dos já muito conhecidos carros preto e prata, no qual circulam atrás dos seus alvos, sem nunca terem sido importunados. Quantas dezenas elas foram, sem entrar na estatística oficial?

A conivência das autoridades é evidente. A Secretaria de Segurança Pública do Pará comunicou, depois das 25 execuções, que não iria identificar os mortos “para não prejudicar as investigações”. Estranha essa estratégia. Supunha- se como dever do Estado divulgar o mais rápido possível os nomes das pessoas executadas pelo grupo organizado em milícia. Assim, tranquilizaria parentes e amigos dos assassinados.

A decisão de ocultar a identificação das vítimas seria para não prejudicar as investigações. Seria porque, sabendo quem morreu, os policiais que estão na investigação saberão automaticamente quem matou, no pressuposto de que são outros policiais? Seria porque os bandidos “pé-de-chinelo” estão como que cadastrados informalmente pelos agentes operacionais, que circulam permanentemente pelas ruas da cidade, numa socialização do conhecimento à margem das normas legais e administrativas, só para os “iniciados” Pegá-los se tornaria questão apenas de oportunidade ou vontade, conforme a motivação dos policiais.

Só assim a explicação dada pela secretaria se torna inteligível. Tanto quanto assustadora. Porque não haveria motivos para tanta demora em apresentar resultados. A chacina seguiu o mesmo padrão das execuções anteriores. Vários homens encapuzados ocupam um carro (agora um de cor preta e outro, prata). Circulam a alta velocidade por bairros periféricos da região metropolitana de Belém. Descem onde encontram alvos fáceis, desatentos ou desprotegidos. Sempre homens. Na maioria, jovens. Certos deles aparentando ser marginais. Talvez alguns realmente com passagem pela polícia. A maioria, aleatoriamente.

Um ou dois ocupantes dos carros descem, avançam determinados e rápidos, atiram várias vezes para matar logo. Usam armas de grosso calibre, não poupam munição para que não haja sobreviventes. Fogem e partem imediatamente para novo alvo. Desta vez, com maior número de vítimas, 25, por mais bairros,16, como para não deixar pistas, desafiando as autoridades.

E na próxima, diante de um aparato de segurança tão ineficaz que sua primeira grande providência é pedir ajuda externa, como se já não fosse capaz de garantir nem mesmo que os policiais não se transformem em pistoleiros de milícia clandestina?

Discussão

2 comentários sobre “Salve-se quem puder

  1. E aí? Alguma novidade sobre a investigação secreta conduzida pelo excelentíssimo senhor secretário? Colocaram as tropas nas ruas em busca dos assassinos?

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    Publicado por José Silva | 27 de janeiro de 2017, 23:28
  2. Não seria demais imaginar que, aproveitando-se da morte do policial, o estado dentro do Estado age para desviar o foco de falcatruas ao mesmo tempo em que aterroriza para dominar, agindo com a “mão invisível” da corrupção?

    Curtir

    Publicado por Luiz Mário. | 28 de janeiro de 2017, 11:38

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