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Imprensa, Política

A história na chapa quente (52)

Estação pesada

(Textos publicados na edição 259 do Jornal Pessoal de maio de 2001)

Sem considerar os 20 milhões de reais que significou construí-la, a Estação das Docas exigiu dos cofres públicos estaduais alguma coisa entre um milhão e R$ 1,5 milhão no seu custeio ao longo de 12 meses. É a conta do subsídio, prevista para durar um ano, completado neste mês. Findo esse prazo, porém, a Estação continua sem poder caminhar com as próprias pernas.

Quase todas as lojas do segundo andar faliram. No primeiro piso, já há insatisfeitos. Foi parar na justiça o primeiro litígio sem possibilidade de conciliação administrativa. Dos estabelecimentos que permaneceram funcionando, a maioria se mantém porque teve acesso a um financiamento em condições privilegiadas junto ao FDE, administrado pelo Banpará. Só começará a pagar o empréstimo no próximo ano.

A Estação não tem muito motivo para comemorar. Para permanecer, terá que mudar – e muito. A primeira tentativa já está sendo feita, através de uma programação cultural mais intensa. Mas logo os erros de concepção dos espaços internos se manifestarão. O teatro, por exemplo, tem acústica deficiente, camarins inadequados e é feio.

Espetáculos ao ar livre, em fins de semana, poderão atrair mais gente do que o palco móvel no interior da Estação, uma invenção de mau gosto e nada funcional. Mas se o Estado não continuar bancando os principais custos, sem o retorno do capital, a Estação só terá vida fora do espaço refrigerado. Com faturamento que não dará para a sua auto-suficiência.

Como justificar e legitimar esse grande gasto do Estado, se o lugar é administrado autocraticamente pela Pará 2000, uma OS organizada na surdina, para a qual foram indicados apenas simpatizantes, dependentes e parente do secretário de cultura, Paulo Chaves Fernandes, uma típica ação entre amigos?

Se o público arca com a manutenção, a administração da Estação tem que sair dessa bitola e passar a ser efetivamente pública, condição que impõe responsabilidades para o futuro e, também, em relação a um passado cuja história foi mal contada.

Entre iguais

Em editorial de primeira página, na sua última edição, o Jornal Popular confessa que, nas eleições municipais do ano passado, “depois de muitas conjecturas e introspecções, decidiu encampar, através de seu balcão de anúncios, a candidatura do senhor Edmilson Rodrigues para prefeito de Belém, mesmo sabendo ser o tal indivíduo pessoa de duvidosas virtudes e parcos momentos de equilíbrio”.

O jornal está dizendo, com todas as letras, que vendeu espaço editorial em troca de dinheiro. Empresa jornalística séria vende espaço publicitário e trata de identificá-lo como tal para evitar eventual confusão do leitor. Não vende espaço editorial.

O prefeito Edmilson Rodrigues teve à sua disposição colunas e matérias no Jornal Popular porque pagou por isso. Quando dava dinheiro para a publicação, era elogiado, exaltado, glorificado. Deixando de pagar, sofre agora uma campanha tão adjetivada quanto destituída de fundamento.

O Jornal Popular é uma publicação de escroqueria e chantagem. Para arrancar dinheiro, não tem o menor escrúpulo. Inventa à larga. Difama e calunia. Quem cede, passa a ter tratamento de cliente. Quem resiste, sofrerá as mais sórdidas injúrias. Quem sonega impostos ou tem riqueza de origem duvidosa, acaba achando que é melhor pagar a ver expostos os seus podres. Uma vez feito um pagamento, a cobrança será contínua e crescente. Como é próprio dos chantagistas. E dos chantageados.

Desde que esse jornal se estabeleceu, em 1992, todos os governadores e prefeitos, de forma contínua ou episódica, lhe deram dinheiro. Não numa relação normal entre anunciante e veículo, estabelecida a partir de parâmetros – objetivos e subjetivos – discerníveis, como tiragem, penetração, influência, credibilidade. Usaram o jornal para ofender desafetos e inimigos. Ou para conseguir um reconhecimento impossível de obter em fontes mais honestas.

Edmilson Rodrigues, diretamente ou através de intermediário, valeu-se desse órgão da imprensa marrom para tentar me intimidar. Como reagi, passou para outra forma de intimidação, uma queixa-crime na justiça com base na Lei de Imprensa. E como ninguém de respeito dá a mínima para o Jornal Popular, abandonou-o. Só que a cobra criada agora o ataca, com matérias que são tão despropositadas na ofensa quanto haviam sido na louvação.

Não é só a sordidez da publicação que impressiona, mas a tortuosidade moral dos que tentam usá-la para propósitos sujos, ou aqueles que nela veiculam seus anúncios, empenhados unicamente em não sofrer agressões, mas ignorando um outro aspecto da questão: de que o leitor, ciente da quitação da chantagem, fica sabendo também que essas empresas têm podres a esconder. No último número há anúncios da Big Ben, da Fácil Veículos e duas páginas de matéria paga da Unimed Belém.

Quem anuncia nesse jornal, seja em peças publicitárias caracterizadas, seja através da compra clandestina de espaços editoriais, é tão sórdido quanto a própria publicação. E não se limpa dessa sujeira quando dela se afasta, como o prefeito Edmilson Rodrigues deve estar verificando agora – e vários outros poderosos já experimentaram na pele antes.

Espera-se que o povo aprenda a identificar todos esses falsários.

Falha

Ao pedir para ser excluído da promoção da TV Liberal, que irá escolher o paraense do século XX, o governador Almir Gabriel conseguiu safar-se da sinuca de bico em que o grupo Liberal o havia colocado, por absoluta incompetência.

Como qualquer pessoa sensata faria, o governador alegou que por estar vivo e ter poder, sua condição especial afetaria sua votação e a dos demais concorrentes, a favor e contra. Se ganhasse a disputa, poderia ser acusado de ter-se valido do cargo de governador. Se perdesse, seus adversários certamente propagariam que nem mesmo o poder o livrara da derrota.

A primeira situação não seria uma glória duradoura. A segunda seria um demérito imerecido. E ainda haveria uma terceira: ter que financiar a propaganda do grupo Liberal.

A iniciativa do governador retirou uma das evidentes falhas da promoção. Mas não é o suficiente para permitir levar a sério uma eleição que não oferece Lauro Sodré e Antônio Lemos como candidatos.

Discussão

2 comentários sobre “A história na chapa quente (52)

  1. Com os espaços públicos nascendo privatizados, quem sabe se não há alguma lavanderia colaborando com o estado de coisas que se assiste?

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    Publicado por Luiz Mário | 27 de janeiro de 2017, 12:37
  2. E a Estação hoje em dia? A última vez que fui deu uma tristeza danada. Temperatura quente demais e claros indícios de manutenção em crise. Será que algum dia foi auto-sustentável? E o Centro de Convenções? Conseguiu cumprir o seu papel de atrair a indústria de eventos para Belem?

    Curtir

    Publicado por José Silva | 27 de janeiro de 2017, 23:23

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