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Educação

A história na chapa quente (53)

Confusão universitária

(Artigo publicado na edição 260 do Jornal Pessoal, de maio de 2001)

Com seus 28 mil alunos, a Universidade Federal do Pará se considera a segunda maior do país. Mas está ameaçada de acabar sofrendo intervenção federal sem que para isso tenha praticado mais do que uma confusão inacreditável. Seu enredo talvez reflita a situação em que se encontra parte considerável das universidades brasileiras, assoladas por um vírus para o qual deviam funcionar como antídoto: a irracionalidade.

No dia 19 de junho termina o mandato do atual reitor, Cristóvam Diniz. É provável que até lá o nome do seu sucessor ainda não esteja definido. Mas sua vice, Telma Lobo, não poderá substituí-lo. Ela foi eleita meses depois dele. Seu mandato, por isso, não coincide com o do reitor, que termina antes. Pode substituí-lo em suas faltas e ausências, mas não sucedê-lo.

O cargo ficará então vago até dezembro. O Ministério da Educação terá que designar um reitor pro tempore até que as anormalidades sejam corrigidas ou ele próprio as promova. Ou, quem sabe, aproveite para ficar mais tempo como interventor.

Nada disso estava em perspectiva quando o Conselho Universitário se reuniu, no início do mês passado, para homologar o resultado da consulta à comunidade. O candidato Alex Fiúza de Melo conseguira menos de meio por cento de vantagem sobre seu principal adversário, Carlos Maneschy. Conforme a decisão anterior do conselho, o nome do vitorioso encabeçaria a lista tríplice a ser submetida ao MEC.

Maneschy, porém, suscitou uma questão: a resolução eleitoral, assinada pelo reitor, não foi aplicada na votação. Nos cálculos que precisaram ser feitos para a definição do vencedor, ponderados pelos percentuais aplicáveis a cada segmento da comunidade universitária (peso de 70% para os professores, 15% para alunos e 15% para funcionários), a resolução mandava incluir a abstenção. Mas a decisão do conselho era para seguir as normas anteriores da UFPA, que excluem a abstenção, como em todas as eleições.

Em todas, exceto no processo eleitoral adotado pela Universidade Federal do Ceará. Justamente essa exceção foi copiada pela resolução assinada pelo reitor, sem que ele próprio (ou todos os demais) se desse conta da contradição, apenas depois da votação e da ata que a encerrou. O reitor admitiu o erro da resolução (ninguém cotejara a resolução ao regimento eleitoral para perceber o conflito), mas o candidato Maneschy suscitou a ilegalidade da eleição.

Ele levou a questão para as barras da justiça federal, mas o relator da sua ação nem considerou o mérito da questão, rejeitando-a liminarmente. Maneschy apontou o reitor como autoridade coatora, mas a outra parte na demanda teria que ser o colegiado. O problema foi transferido para o Consun, que acabou anulando a eleição.

A mudança de atitude resultou da adesão dos estudantes à causa de Maneschy, atraídos pela possibilidade de mudar as regras eleitorais na nova consulta: de proporcionais, elas passariam a ser universais. Com a equalização, os estudantes é que iriam decidir a eleição.

Foi a vez do candidato Alex Fiúza recorrer da decisão. Lembrou que em todo o processo eleitoral não havia sido verificada nenhuma ilegalidade ou irregularidade. Não caberia, por isso, anulação, mas apenas homologação. O resultado da eleição continuava válido e ao Consun caberia apenas encaminhar a lista tríplice.

Uma campanha acirrada e agressiva atingiu o ápice quando o reitor Cristóvam Diniz recebeu uma ameaça de morte por telefone. O “bina” instalado no aparelho registrou o número da chamada. Acionada, a Polícia Federal não teve dificuldade em localizar o autor do telefonema: era o pai de Alex, o engenheiro Rodolpho Fiúza de Melo. Com leucemia, em estado terminal e em crise de depressão, Rodolpho ligara do apartamento do hospital onde estava internado, depois de haver passado pela CTI.

Logo que soube do incidente, Alex procurou contato com o reitor, explicou-lhe a situação e se desculpou em nome do pai, que alegou ter agido fora de controle. Cristóvam Diniz aceitou as explicações e deu o caso por encerrado, convencido de que a ameaça era apenas de palavra, sem qualquer intenção de atingi-lo fisicamente.

Mas a Polícia Federal ainda estava em dúvida se esse desfecho informal seria suficiente para arquivar o inquérito que já havia instaurado. Algumas notas publicadas em O Liberal procuravam sustentar a ameaça real de vida a que estaria exposto o reitor.

Dúvida e confusão é o que parece não faltar a esse imbróglio universitário, que pode acabar afunilando até uma intervenção do MEC – por falta de qualquer outra alternativa legal ou de bom senso. Se ainda não se pode proclamar o vencedor da disputa pela reitoria, já se sabe nos quatro cantos quem perdeu: a Universidade Federal do Pará.

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (53)

  1. Eta história boa. Foi uma confusão danada. No final das contas todos se deram bem. Cristovam voltou para o laboratório. Fiuza foi reitor por dois mandatos e agora é secretario de estado do Jatene. Maneschi conseguiu o que queria e se candidatou a prefeito apoiado pelo Barbalho. A única que saiu perdendo foi a UFPA, que continua em estado deplorável, fruto de más gestões consecutivas.

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    Publicado por Jose Silva | 30 de janeiro de 2017, 13:11

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