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Política

A história na chapa quente (55)

Todos no picadeiro

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 261, de junho de 2001)

O senador Jader Barbalho perdeu seu último aliado na grande imprensa brasileira: nesta semana, a revista Istoé, a única que lhe vinha dando tratamento favorável, colocou sua foto na capa (repetida, com mais agressividade editorial, na abertura da matéria) e oito páginas de reportagem feita para causar impacto.

Ecoava, assim, uma nova denúncia, tão ou grave que as anteriores, contra o presidente do Senado brasileiro: de que ele foi o beneficiário da comercialização de TDAs (Títulos da Dívida Agrária), emitidos quando era ministro da reforma agrária, no governo José Sarney. Os títulos foram emitidos para bancar as benfeitorias de imóveis rurais desapropriados por interesse sócia, diretamente por ele ou por sua indicação.

Quércia x Temer

Até então, Istoé vinha caminhando em parelha com o senador do PMDB, contraditando as matérias escritas contra ele ou atacando seus inimigos, principalmente o ex-senador Antônio Carlos Magalhães. Dizia-se que, além do interesse estritamente jornalístico, havia um componente ainda mais forte nessa posição: o ex-governador de São Paulo, Orestes Quércia, que sempre foi extremamente generoso com a revista, destinando-lhe verbas publicitárias ou prestando-lhe outras gentilezas. Se tal interferência existia e persiste, o que mudou para alterar o sentido do vento dominante na redação da revista?

Segundo as especulações, o apoio que Jader deu ao deputado federal Michel Temer na disputa pelo controle do PMDB paulista. Temer é adversário de Quércia, a quem deseja afastar para poder apresentar-se como candidato ao governo de São Paulo, objetivo que voltou a fazer parte da estratégia de Quércia.

O texto, cujo tom extrapolou a técnica da reportagem para assumir uma entonação editorializada, seria o troco. Quércia rompeu ou está ameaçando romper com seu antigo aliado, Jader Barbalho, a quem tanto ajudou no passado e com quem vinha mantendo identidades, voluntárias ou não.

Essa hipótese é plausível. O conteúdo da matéria a reforça. Istoé aceitou e deu desproporcional repercussão a uma história frágil, cheia de lacunas e contradições. Seu principal elemento de credibilidade é o próprio enredo da desapropriação da Fazenda Paraíso, em Viseu, no Pará, feita pelo Mirad em 1988, que este jornal foi o primeiro a denunciar, naquele mesmo ano (13 anos antes da grande imprensa).

Negócio com título podre

O chefe da Secretaria de Recursos Fundiários, Antônio Pinho, na época um dos homens mais próximos e influentes junto a Jader, atropelou o bom senso, as normas legais e a própria sequência regular da tramitação do processo para concluir a desapropriação de um imóvel cuja existência era posta em dúvida e a dominialidade, questionada. Era, no mínimo, uma ação temerária, que acabou levando-o à condenação pela justiça federal.

A reportagem publicada por Istoé sustenta que por trás da operação estaria o próprio Jader Barbalho. A ele o suposto proprietário da Fazenda Paraíso, Vicente de Paula Pedrosa da Silva, teria levado o dinheiro apurado com a venda das TDAs que recebeu do Mirad por conta da desapropriação.

Um irmão de Jader (não identificado pela revista, que simplesmente repassou a documentação recebida de terceiros, limitando sua investigação própria a ouvir alguns dos principais envolvidos) teria sido apenas o intermediário e Pedrosa funcionou como “laranja”. Como esse é um esquema triangular usual nesse tipo de corrupção, o enredo tem verossimilhança. Só não tem consistência.

As 55,2 mil TDAs entregues pelo Mirad a Pedrosa no final de 1988 valem atualmente 5,3 milhões de reais, segundo a revista. O banqueiro e pecuarista Serafim Rodrigues de Moraes diz, na conversa telefônica que teve com seu advogado, o procurador aposentado da república Gildo Corrêa Ferraz, ter pagado 4 milhões por esses títulos. Serafim iria usar as TDAs para amortizar a dívida do Agrobanco, de sua propriedade, com o Portus, o fundo de previdência privada dos portuários.

Esse tipo de operação, muito praticada até hoje, não é ilegal, mas é imoral. Sem considerar a possibilidade de desapropriações superdimensionadas ou irreais (pela inexistência das benfeitorias pagas), a imoralidade resulta da compra desses títulos por um preço muito abaixo do valor de face e sua plena utilização na quitação de dívidas, principalmente junto a instituições públicas, com o mínimo (ou nenhum) desembolso.

A diferença entre o valor efetivamente pago pelo devedor e o que ele apropria nominalmente para abater o débito é tão brutal que as TDAs se tornaram os mais desacreditados dentre os papéis podres do mercado. A podridão monetária contaminou o cheiro moral dessas transações.

Aí começa a aparecer o pé quebrado da história trombeteada como coisa séria por Istoé, tão inconsistente no ataque a Jader Barbalho quanto o foi na sua tendenciosa defesa (o que reforça as sombras de Quércia por trás da revista). Se as TDAs valiam R$ 5,3 milhões, pagar R$ 4 milhões (na hipótese de que a mulher do banqueiro se equivocou e estava se referindo a real e não a dólar) por elas já seria um negócio desinteressante para o dono do Agrobanco. Se alguma vez chegou a ser praticado, um tal deságio só pode ter havido no início da emissão de TDAs, feita aos turbilhões.

Rapidamente o deságio desceu abaixo de 50%, tendo chegado a até 30% do valor de face (ou 70% de deságio), a taxa mais comum. Pagar com deságio de apenas 20% é algo que não se ajusta à experiência e ao conhecimento, não só do banqueiro Serafim, mas também de sua mulher, Vera Antes Campos, ex-operadora da Bolsa de Valores de São Paulo.

Jogo de espertezas

Também não seria a forma esperta (e imoral). Pagando 80% do valor declarado, dificilmente o casal usaria TDAs para amortizar o passivo do Agrobanco. Buscaria outros papéis de maior rentabilidade. E Istoé assegura que, antes de fechar o negócio, Serafim “resolveu pechinchar”.

Diz a atual esposa do banqueiro que pagou Vicente Pedrosa com um cheque da agência central do Bamerindus em São Paulo, na rua XV de Novembro. Não diz o número do cheque, a data certa da sua emissão, quando foi sacado, se foi retirado no caixa do Bamerindus ou depositado em outra conta de outro banco, e detalhes assim que enriqueceriam a reportagem.

A revista não se importa com essas lacunas. Afinal, mesmo sem esses fatos importantes, seria fácil fazer “o levantamento das contas pelas quais passou o milionário cheque do Bamerindus, preenchido e assinado por Vera Arantes”. Seu marido aposta também nessa trivialidade, até porque Vera “emitiu no máximo dez cheques de valores elevados”.

Qual é mesmo o valor de referência, nem as fontes e nem a revista se preocupam em precisar. Vera Arantes, após certo embaraço com a matemática e a língua portuguesa, diz que o cheque tinha, em 1988, valor equivalente a quatro milhões de dólares, numa estranha relação, de um para um, que não guarda coerência com a temporalidade e a cronologia cambial. Não há qualquer referência ao valor do cheque que ela subscreveu, na moeda de então. Tudo o que ela diz a respeito é na comparação com o dólar.

Atualizado monetariamente e cambialmente, esse valor gravitaria, hoje, em torno de R$ 10 milhões. Mesmo se apenas fosse feita a equiparação cambial, bateria em R$ 9 milhões. Nesse patamar, a história é não só ridícula, mas primária.

Era melhor o banqueiro meter a mão no bolso e fazer o que raro capitalista aceita fazer no Brasil: tirar dinheiro para pagar em espécie dívida que contraiu, recebida igualmente em espécie. No nosso capitalismo, tal movimento é considerado herético. Os executivos de Jader Barbalho que o digam.

A coreografia do golpe

Não é menos risível a reconstituição que Vera Arantes faz do ato de pagamento das TDAs. Vicente Pedrosa recebeu o cheque no saguão  de um hotel paulistano (qual? É irrelevante para Istoé). Colocou o papel no bolso, atravessou caminhando o hall (“bem grandão”, assinala Vera) e foi entregar o cheque a Jader Barbalho, que o esperava sentado do outro lado.

Em mais um detalhe insignificante, fica-se sem saber se Barbalho ainda era ministro da reforma agrária ou já havia assumido o ministério da previdência social, em qualquer das hipóteses sendo razoavelmente passível de identificação em ambiente público. Mesmo um colegial, ouvindo semelhante relato, se perguntaria: para que, então, usar intermediário, “laranja”?

Ora, Jader Barbalho andou cada vez mais mal acompanhado à medida que foi acumulando poder, principalmente a partir do seu primeiro mandato de governador, conquistado em 1982, quando era um dos “autênticos” do MDB na Câmara Federal. Auxiliares, parentes e amigos seus se meteram em encrencas, várias das quais terminaram na justiça, no Ministério Público ou na polícia.Acabou sendo algo mais do que força de expressão.

Nenhum deles, porém, acusou o chefe, líder ou amigo, inclusive os que trocaram de barco (como o empresário José Maria Mendonça, agora na nau tucana). Ou é uma regra do silêncio (ormetá) capaz de fazer qualquer mafioso babar de inveja, ou, à parte essa possibilidade, é também porque Jader se comporta como um senhor medieval: abre um fosso em torno do seu castelo, isolando-o com um lago cheio de piranhas ou jacarés.

O personagem protegido

É claro que o senhor do castelo precisa ocasionalmente sair do seu reduto ou deixar entrar quem lhe interessa. Os muitos atos de improbidade, comprovados ou sob suspeição, apontados na passagem de Jader Barbalho pela vida pública, atingiram gente que estava próxima dele, um tanto ou demasiadamente. Só ele é imaculado nesses círculos concêntricos de sujeira e lama?

Por trás da pergunta está a lógica que move a enxurrada de investidas contra ele nos últimos meses. Fatos fétidos resvalam nele, respingam-lhe, mas não há uma conexão com ele, não há um elo objetivo, documentado, conclusivo. As suspeitas, por mais abundantes que se tenham tornado, por mais incômodas que sejam, não são munição bastante para fulminá-lo.

A Fazenda Paraíso, as TDAs, Vicente Pedrosa e um banqueiro querendo diminuir seu prejuízo (ou obrigado a reduzir sua rubrica de perdas e ganhos) poderiam ser o elo que faltava para, finalmente, chegar ao ponto de origem e de chegada de todas essas histórias que, mesmo sem fechar, cheiram mal.

Mas se realmente está aí o nexo, Istoé não foi apenas incompetente para demonstrá-lo: agiu de má-fé, tendenciosamente, com dolo. O que talvez sirva de impulso para ir atrás de suas relações nebulosas de bastidores, com Orestes Quércia, quem sabe.

Quércia, as pessoas parecem haver esquecido, foi uma continuação mais bem sucedida de um modelo, o do também paulista Adhemar de Barros, que tem servido de inspiração para políticos como Jader Barbalho, embora sem o mesmo sucesso (Quércia posa, hoje, de cidadão notável e o centenário de Adhemar tem comemoração em São Paulo).

Jader não está apenas sendo submetido a uma revisão histórica ou a um exercício acadêmico: ele responde a procedimentos em curso e se expõe a um processo definitivo de cassação de um mandato que o povo lhe conferiu e a uma honraria que a maioria absoluta dos seus pares lhe conferiu (pares em um sentido mais profundo do que a retórica da expressão).

Revendo um caso do passado pode-se corrigir um erro histórico ou confirmar o acerto de uma condenação. Num caso vivo, envolvendo pessoas de carne e osso, deve-se evitar decidir contra as provas ou precipitar uma decisão para servir a um interesse tão condenável quanto o que se apura.

A rigor, aliás, Istoé quase não apurou: repassou ao seu leitor o que suas fontes dizem ser a verdade, aplicando-lhe o sinete do jornalismo para ter aceitação. Essa renúncia à verificação independente provoca erros graves.

O caso dos castanhais

A revista  se refere à desapropriação dos imóveis compreendidos no que se convencionou chamar de Polígono dos Castanhais como se eles fossem localizados em Mato Grosso e não em Marabá, no sul do Pará. Repete a ladainha de sempre: teria sido uma desapropriação fraudulenta.

Mas não foi uma desapropriação: foi uma prosaica operação de compra e venda. Com a qual Jader Barbalho transformou a reforma agrária em negócio agrário, sem precisar desapropriar e sem projetar um demônio para os empedernidos fazendeiros.

A partir da vantajosa operação de aquisição dos castanhais, vantajosa para o vendedor e ruinosa para o comprador (em última instância, o contribuinte), fazendeiros passaram a se acotovelar nos corredores do Incra, em Brasília e Belém, oferecendo seus imóveis para o governo. Algo tão grave quanto outras negociatas, mas com a marca da inventiva de um político populista que trocou seu carisma pela fortuna pessoal.

O ajuste de contas não pode ser feito, porém, à custa da verdade, que deve ser buscada tanto na seara do acusado quanto na do acusador, tudo exibido sobre a mesa da opinião pública, a quem caberá o julgamento.

É evidente que as principais personagens da matéria de Istoé não intervieram na trama olimpicamente ou movidas pelo superior interesse público. Há bandido demais para mocinho de menos nesse script. Ou nem há mocinho.

A fita gravada pela PF

A peça fundamental é uma fita, que teria sido gravada clandestinamente por um policial federal e por ele entregue à revista (outro conto da carochinha). Se verdade, mais uma vez a PF estaria extrapolando sua missão e agindo conforme um padrão técnico vulgar.

Veja reproduziu trechos de fitas que a mesma PF teria gravado e, ao invés de transcrever integralmente, decidiu editá-la, inutilizando a peça como prova para fins de instrução processual em juízo. Mas nem mesmo como fonte para trabalhos jornalísticos serviria.

Jamais uma fita gravada clandestinamente ­– e, sobretudo, as fitas utilizadas por Veja e Istoé – deviam receber o crédito que as duas publicações lhes deram, sob pena de lançar-lhes um pouco da lama que atiram sobre terceiros. Não imerecidamente, aliás.

No caso de Istoé, abstraindo a muito plausível hipótese de que a conversa foi adredemente armada para gravação, a fita devia servir como provocação para uma checagem verdadeiramente jornalística. Começando pelo levantamento da história do Agrobanco e de sua dívida.

Nada, exceto a boa vontade da revista, sugere que o banqueiro seja o empresário correto descrito por seu advogado, desejoso de resolver seu problema financeiro licitamente. A operação da qual ele participou é uma das muitas negociatas feitas à sombra de moeda podre, dívida com o setor público, tráfico de influência, informação privilegiada, caixa 2 e enriquecimento espúrio, elementos característicos de grande parte das histórias ocultas desta república apodrecida e sua elite doidivanas.

É preciso aprofundar a apuração do envolvimento do senador Jader Barbalho, tão caricatamente demonstrado no texto. Mas não viciar a investigação no nascedouro, em função de um limite pré-estabelecido, de uma diretriz obtusa por opção.

Se for estabelecido o nexo do ex-governador com a sucessão de ilicitudes que lhe seguem como fauna acompanhante, sem fechar a cadeia (como simbologia e realidade), deve-se puni-lo adequadamente. Sem esquecer, porém, os demais personagens que participam da trama.

A esposa do banqueiro, por exemplo, diz que obteve os quatro milhões de dólares (como ela alega) atuando na Bolsa de Valores de São Paulo. É preciso constatar tal rendimento, que está muito longe de ser rotineiro.

Da mesma maneira como o rastreamento dos seus cheques independe de ter ou não o senador peemedebista num dos pontos finais, já que ela assinou “alguns cheques” com valor aproximado de US$ 4 milhões (quantos têm tal poder no Brasil?). Esses “alguns” podem ser um trunfo no rastreamento. Embutidos numa fortuna pessoal, passam a ser numerosos. Nessa história, seguramente não há mocinhos.

Uma história tortuosa

É justo que uma instituição formadora de opinião pública como a imprensa, uma vez convencida da nocividade de determinado político, se empenhe em expurga-lo da vida pública. Esse é um compromisso enobrecedor. Mas quando alcançá-lo passa a ser uma meta obsessiva, independentemente dos métodos adotados, o perseguidor se equipara ao perseguido, o justo ao vilão.

Se o critério de diferenciação é o da verdade, os fatos devem prevalecer, mesmo que eventualmente eles favoreçam o personagem considerado nocivo. Ele deve pagar pelo que fez, não pelo que lhe atribuíram.

Do contrário, sendo a boa intenção a pedra de toque da história, o lobo pode se apresentar travestido de cordeiro. E o cidadão, preso num maniqueísmo viciado, tomar por seu salvador quem não passa de saqueador com nova roupagem.

Os novelos dos “casos” Banpará, Fazenda Paraíso, Polígono dos Castanhais e outros que turvam o passado de Jader Barbalho e comprometem seu futuro continuam a ser  desastradamente desfiados pela imprensa. Atacando com fúria e objetivos nem sempre bem definidos, ela não ataca bem.

Desperdiça o grande talento de seus repórteres e o material de arquivo que se acumula aos milhares de centímetros nos recortes. A impetuosidade, o passionalismo e a tendenciosidade podem acabar servindo à fuga do bandido esperto. Ou de álibi para o candidato a bandido, que vê sua hora chegar.

O ranário famoso

Tome-se o escândalo em torno do ranário da atual esposa do senador, Márcia Zahluth Centeno. O projeto se tornou motivo nacional de escárnio e deboche. O superintendente-interventor da extinta Sudam cancelou-o unilateralmente por haver constatado um desvio de recursos, algo inacreditável para um empreendimento que teria recebido 9,6 milhões de reais de incentivos fiscais e ainda não passava de um conjunto de galpões rústicos, sem qualquer atividade produtiva.

A imprensa aproveitou o mote para uma enxurrada de matérias sobre a fraude praticada pela mulher do presidente do Congresso Nacional na criação de rãs e a interferência do próprio Jader para favorecê-la junto à Sudam. Só agora é que a empresa, depois de uma patética e contraproducente tentativa de desmentir as acusações com uma inconsistente página de matéria paga em O Liberal, apresenta argumentos de peso em sua defesa.

Em primeiro lugar, desde a semana passada, com o protocolamento da defesa na ADA (a intragável sigla da nova agência, que substituiu a Sudam), o caso passou a ter o curso da legalidade, com a ampla defesa e o contraditório. Até então, era um ato de força de um burocrata nomeado para exercer um poder que não pode ser discricionário, mesmo tendo sido assim na prática.

O burocrata pode ter os melhores propósitos. Mas a lei é peça indissociável do regime democrático, a pedra no caminho da mutação de burocratas bem intencionados em déspotas, de que a história é pródiga.

A leitura isenta da defesa de Márcia Centeno não deixa dúvida de que sua empresa foi vítima de um ato arbitrário do superintendente da Sudam. Ele passou por cima de um processo administrativo em curso, sujeito ao devido processo legal, ainda pendente da defesa do acusado. Simplesmente puniu o ranário, com base num laudo de inspeção do próprio órgão, que não definira motivos suficientes para esse ato nem pedira o cancelamento do projeto.

Constatando irregulares, os fiscais da Sudam fizeram seis exigências para que o empreendimento se ajustasse. A principal falha observada era o descompasso entre o índice de liberação de recursos comprometidos pela superintendência com o projeto, que era de quase 80%, com o índice de implantação do ranário,  que era de 55%. A defasagem, de 25%, ultrapassava o limite de tolerância estabelecido pela legislação da Sudam, que é de 20%.

Na sua defesa, a empresa questiona e explica essa extrapolação, atribuindo-a a obras não previstas que precisou fazer para ajustar tecnicamente o criatório diante de uma mortandade quase completa do plantel em 1997, quase liquidando o negócio. Os acréscimos não foram aceitos pelos técnicos.

As justificativas – para essa e para as demais irregularidades – serão examinadas, analisadas e contraditadas, se for o caso. O importante é que quase todas as exigências da própria Sudam já foram atendidas pela empresa e o índice de implantação foi recolocado na faixa da normalidade, de 8% segundo a empresa.

Se há manipulação nos dados ou nos argumentos, o contraditório vai esclarecer. Mas do confronto entre a defesa agora apresentada pelo ranário e as acusações publicadas pela imprensa nacional, a partir de declarações prestadas pelo superintendente da Sudam ou informações que tiveram origem no órgão, o pêndulo da inverdade pende mais para o lado do superintendente José Cyrillo.

Independentemente do resultado do processo, já está fora de dúvida que o cálculo apresentado pelo superintendente sobre o total das liberações é irreal e indevido. Ao cancelar arbitrariamente o projeto, ele simplesmente aplicou o indexador mais pesado para reajustar valores, adicionando-lhes juros e multas que caberiam se, comprovadas as irregularidades no devido processo legal, o processo tivesse sido regularmente cancelado.

A empresa mostra que recebeu R$ 830 mil, um valor que poderia quase dobrar (para R$ 1,5 milhão) no cálculo de atualização normativo da Sudam, pela Ufir. Ainda assim, distante dos R$ 9,6 milhões apontados por José Cyrillo. O índice de implantação que ele informou também está muito aquém do índice apurado pelos próprios fiscais da superintendência.

Ainda que as 22 páginas de texto da defesa  e seus 27 anexos de documentos fossem só mentira, duas providências deviam separar o processo punitivo movido contra Jader Barbalho da apuração da verdade.

A primeira competia à Sudam: seria reconhecer o direito de defesa antes de uma sentença sobre o caso, com o cancelamento unilateral do projeto, sem o contraditório. A segunda é matéria da imprensa: se tanto espaço foi dado ao ataque da superintendência, alguma atenção pelo menos teria que ser dada ao outro lado. Esse princípio consta de todos os manuais de redação. Mas parece abolido sempre que o assunto for Jader Barbalho.

A investigação jornalística

No entanto, neste aspecto, os jornalistas precisam ser objetivos. Lembro que no segundo capítulo da investigação sobre o assassinato do ex-deputado Paulo Fonteles de Lima, a inacreditável história levantada pelo delegado Bertolino Neto, de que o mandante era o empresário Josiel Martins, foi endossada por todos. Menos por este jornal.

Sustentei que Josiel tinha outras contas a acertar com a polícia e a justiça, mas era inocente no assassinato de Paulo. Minha convicção resultara de extensa apuração dos fatos. Não importavam minhas impressões sobre o então dono virtual de Capanema, nem o empenho da família Fonteles em incriminá-lo. Daquele crime ele era inocente, como, afinal, acabou demonstrado, com a decisiva participação deste jornal, o que, à sua maneira, o próprio Josiel acabou reconhecendo.

São numerosas e diversificadas as contas que Jader Fontenele Barbalho precisa prestar ao cidadão brasileiro. Algumas já estão colocadas na agenda, outras estão mesmo no momento da cobrança no lugar competente, a justiça, ou em andamento por escaninhos do poder executivo e do Ministério Público.

Se esse contencioso anda lento demais ou se é os órgãos públicos são  omissos, deve-se pressionar para que cumpram sua parte nesse acerto de contas. O que não se pode é executar o acusado sem o devido processo legal, com o contraditório e a ampla defesa assegurados.

Muita gente deve-se perguntar como um político do Pará chegou tão longe, ocupando a presidência do poder legislativo nacional mesmo contra a vontade do político então o mais poderoso do país, cuja ascensão tem um rastro cristalino, de adesão ao poder estabelecido, independentemente de sua cor ou feição.

O lado de Jader

Jader Barbalho foi um político de centro-esquerda que, no exercício do poder, subordinou sua identidade mal definida a um propósito maior, o de ser cada vez mais rico e poderoso.

Até chegar à presidência do Senado, entretanto, teve que atravessar o rio que separa a sociedade brasileira em duas margens, sempre mais distantes entre si. Não esteve do outro lado desde o início. Não era um antigo iniciado nas práticas e costumes dos que se estabeleceram na margem incrivelmente rica desta nação, criminosamente rica.

Ao passar para o outro lado, não pôde se desvencilhar de todo dos compromissos e afinidades da margem excluída do usufruto do bolo do poder, para o qual gente como Delfim Neto, agora posando de democrata, tanto contribuiu, em atos (fazendo a diferença social se acentuar, num padrão africano ou asiático) e em pensamentos (dizendo que o bolo precisava primeiro crescer para depois ser distribuído).

Já Antônio Carlos Magalhães, o homem que continua a influir poderosamente na pauta dos jornais, como raros, mesmo já sem mandato político, sempre esteve do lado de lá. Camufla essa posição com seu enorme carisma, com o lado abertamente modernizante do seu despotismo, com sua face de mecenas, pródigo para os que o aceitam como Oxalá. É baiano por circunstância e essência, mas se aculturou ao centro hegemônico do país com a esperteza de um José Sarney, um Itamar Franco que esconde o topete afetado dentro do casacão sagazmente sisudo.

Um cidadão se perguntará quantos acertos Jader terá feito para sentar na cadeira presidencial do Senado e quantas jangadas não armou antes, para singrar o mar revolto entre as margens. Legítimo é, portanto, o desejo de revisar essa trajetória para apontar-lhe os vícios.

Os que estão cansados de saber toda a ladainha da ascensão e exercício do poder, porque sempre estiveram lá, olham incomodados  para esse parvenu inesperado (ou não esperado, indesejado). O que não aceitam não é a sujeira de métodos (mesmo porque são os únicos sancionados para a travessia do rio social), mas o fato de não ser da confraria, não haver beijado o anel da Fiesp [a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo], não ter sido ungido nos óleos das velhas elites, transeunte em carro blindado pela avenida Paulista.

Quem, nesse meio, reagiu a Collor, reage a Jader. Não propriamente pelos tantos motivos justos de reagir a ambos, em proveito da sociedade, na defesa de causas nobres. Mas (e disso não deixa dúvida Istoé, incorporando-se ao coro uníssono daquela boa gente que tanto provocou a ira de Émile Zola na França do século XIX) como intérpretes (e marionetes) de personagens ocultas nos camarins ou nos camarotes.

A briga só estará na medida certa se todos forem levados ao picadeiro, querendo ou não. Ali expostos, com suas verdades e mentiras, o dito e o escondido, à luz do dia e à inquirição de todos. Para que o Brasil aprenda a verdadeira lição e não a repita, a imprensa aplicando a orientação de Batista Campos: mostrando quem é o ladrão e quem é o boi.

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (55)

  1. Aproveitando o ensejo: o picadeiro transbordou para os dias atuais.

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    Publicado por Luiz Mário | 1 de fevereiro de 2017, 10:24

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