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Cultura

O Nero americano

Quem podia imaginar que testemunharia um momento histórico em que duas das maiores empresas americanas, a Ford e a Coca-Cola, se manifestariam abertamente contra o presidente dos Estados Unidos? Donald Trump realizou essa façanha. Ele está criando uma perplexidade geral pelo mundo por fazer o que, antes, se criticava num político por não fazer: cumprir exatamente o que prometeu na campanha eleitoral.

Imaginava-se que a fantasia de Dr. Strangelove, o Dr. Fantástico (nada a ver com a TV Globo) criado por Kubrick, se desfaria logo depois que ele fizesse o juramento de posse. Mas, como naquela famosa poesia de Fernando Pessoa, descobriu-se que a máscara, se havia, grudou na pele, virou pele. Essa figura bizarra se tornou o homem mais poderoso do planeta.

Mas o mundo não é tudo que está fora do território americano. Trump não conseguirá fazer o país retornar às fronteiras que havia antes da Primeira Guerra Mundial, mesmo porque os EUA já a haviam atravessado para cometer guerras locais expansionistas. Logo o guerreiro, com o big stick em mãos, foi complementado pelo american way of life, a mais eficiente criação do capitalismo americano, quando ele visava as mentes antes dos bolsos, dissipada pela geração de autênticos Antoninos que se têm revezado no Salão Oval da Casa Branca.

A outra invenção foi a globalização. Ela quase sempre existiu, ou todos nós não teríamos por origem seminal a mãe África. Mas adquiriu uma potencialidade sem igual com a tecnologia que os americanos usaram para dar conteúdo definitivo à aldeia global de McLuhan. A Coca-Cola tem forte presença em 200 países. A Ford em outros tantos, como fabricante de veículos automotores ou através da sua benemérita fundação. Henry Ford pensou nas duas. Queria ganhar muito dinheiro – e ganhou. Mas queria reformar o mundo – e quase conseguiu. Foi atropelado pela dinâmica história, mas a semente frutificou.

Ford e Coca-Cola lideram uma fileira de corporações globais para as quais o discurso de Trump, mais do que ferir sua cultura empresarial e as raízes das quais brotaram, é a maior ameaça aos seus negócios. Seus executivos, se antecipando a um coro que se pode começar a ouvir, não temeram falar grosso diante do tonitruante fantoche. Talvez pensassem que Trump, como anomalia, seria apenas uma fantasia.

Concretizando suas promessas e compromissos, na forma de materialização da ameaça, seu sonho irracional de fechar a muralha americana tem um problema grave: dentro dos seus domínios já estão instalados muitos cavalos de Troia. Para ganhar essa guerra, ele terá que destruir a maior criação americana: o império.

Trump é o Nero que estava faltando aos Estados Unidos. As multinacionais criarão os seus Petrônios?

Discussão

2 comentários sobre “O Nero americano

  1. Ele é tudo o que os Estados Unidos sempre propuseram como salvação do mundo: free trade e globalização. O interessante é que essa agenda sempre foi a querida pelos republicanos. Ninguém sabe o que ele está fazendo. Poderia ter iniciado fazendo coisas boas para unir o povo ao redor dele. Preferiu começar arrepiando até mesmo os mais conservadores. Creio que ele está mal assessorado e a equipe dele está batendo a cabeça. Tudo indica que as coisas não estão indo mesmo em uma boa direção.

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    Publicado por José Silva | 1 de fevereiro de 2017, 21:56
  2. Tentativa de negar o ocaso capitalista….

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    Publicado por Luiz Mário | 2 de fevereiro de 2017, 00:50

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