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Educação

A história na chapa quente (57)

Novo reitor

(velho reitor?)

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 262, de julho de 2002)

Alex Fiúza de Melo é o primeiro reitor da Universidade Federal do Pará originário da área de ciências humanas e sociais. É um sociólogo, que acaba de voltar de um doutorado em ciência política, com dois livros de alto nível teórico produzidos no percurso da pós-graduação.

Mas pode não ser o primeiro bom intelectual a se afundar nos assuntos administrativos de uma instituição complexa e contraditória. O exemplo mais recente é o do seu próprio antecessor, Cristovam Diniz, excelente como pesquisador e pessoa, mas sofrível como reitor.

Alex interrompe uma série de quatro profissionais das ciências exatas e naturais na reitoria da UFPA (a “era dos geólogos”, criada por José Seixas Lourenço), antecedida por médicos e bacharéis em direito. Ele enfrenta também o ceticismo dos brasileiros em relação à elite nacional depois do que fez na presidência da república um homem com a qualificação de Fernando Henrique Cardoso, colega de ofício de Alex na sociologia.

Seu maior desafio imediato é desfazer os nós políticos que podem ter sido armados para vincular sua escolha ao processo eleitoral de 2002. Depois de ter sido o mais votado na consulta geral, por uma diferença insignificante (menos de meio por cento), Alex se tornou o segundo da lista quando a escolha se tornou indireta, através do conselho consultivo da Universidade. Reverteu à última hora o favoritismo de Carlos Maneschy, cabeça da lista, graças a dois apoios: o do atual secretário Nilson Pinto, do PSDB, e o de Jader Barbalho, do PMDB.

A interpretação imediata a esse fato é mais ou menos óbvia: Alex pode ser um dos pontos de ligação entre uma futura e possível aliança entre peemedebistas e tucanos no Pará. Ou, na pior das hipóteses, um cabo eleitoral em favor de uma candidatura de Nilson Pinto (de volta à Câmara Federal, mais provável, ou ao governo do Estado, cada dia menos factível), ou do candidato para o qual o presidente do Senado requerer seus préstimos.

Se fizer isso, Alex Fiúza de Melo estará confirmando as expectativas de razão dos que, sacando contra o futuro, mas sem motivo real hoje, já o acusam de vir a ser marionete desses dois polos do poder político no Pará.

Evidentemente, num processo claudicante nas bases e autoritário na consumação, afunilando tanto que se torna solitário na decisão, a política, aquela que é real, praticada todos os dias, tem seu peso. Mas se ela se tornar um compromisso excessivo, arrastará o novo reitor para o final deficiente, triste ou melancólico dos que o antecederam no posto nos mandatos mais recentes. Se for igual, Alex será pior do que eles e trairá sua biografia, o que foi e o que podia ser.

O compromisso que tem com os que influíram para sua designação deve acabar quando assumi-lo implicará transpor os limites da decência, da lisura, da honestidade ou da eficiência. Um bom executivo dá dividendos políticos pelo bom trabalho que realiza, não pelas relações espúrias que o mantêm. Se quiser ser uma saudável novidade na UFPA, Alex tem que começar limpando e arrumando a casa para que ela funcione debaixo de uma exigência básica: a do mérito.

Isto significa professores dando efetivamente aulas, num padrão de qualidade aceitável; pesquisadores aplicados nas suas investigações; a função administrativa subordinada aos fins de ensino, pesquisa e difusão da academia; compadrios e fisiologismos desfeitos; alvura nas relações dentro e fora do campus; e respeito.

A UFPA é a segunda maior universidade em alunos do país. Mas isso só quer dizer que é inchada. Cabe ao novo reitor, a partir do primeiro dia de trabalho, dar um sinal de esperança à sociedade: de que a universidade federal vai tentar conciliar grandeza quantitativa com qualidade.

Discussão

2 comentários sobre “A história na chapa quente (57)

  1. Lucio,

    Qual a sua avaliação do mandato do Alex? Houve algum progresso? Ou foi apenas o business-as-usual? No final ele migrou para o PSDB, tal como você tinha indicado. Em contrapartida o seu oponente, Maneschi, migrou para o PMDB. Não houve a ponte, mas sim uma divisão de poder. Será que essa divisão foi tudo decidida anos atras?

    Curtir

    Publicado por José Silva | 3 de fevereiro de 2017, 09:10

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