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Política

A história na chapa quente (58)

Haverá mudança em 2002?

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 263, de julho de 2001)

Se permanecer no cargo, como parece provável, o governador Almir Gabriel será o grande eleitor na disputa do próximo ano. Para se tornar vitorioso só lhe falta uma coisa: o candidato. Se o secretário especial da produção, Simão Jatene, não fosse quase um zero eleitoral até poucos meses atrás, ele já poderia estar posando como candidato virtual da coligação oficial.

Como a máquina estadual, mesmo costumando ser o cabo eleitoral decisivo no Pará, não é suficiente ainda para dar a Jatene a densidade de que ele é carente (e que nem mesmo constituía sua preocupação até assumir neste ano sua candidatura informal), o governador mantém sua opção preferida na algibeira.

Faz tudo para oficializá-la, dando a Jatene os meios para difundir seu nome pelo vasto território paraense (provavelmente com a maior dispersão eleitoral do país), mas se reserva ainda o direito de descartá-la se for mantida – ao invés de dissipada – a ameaça do seu companheiro de viagem ser não um novo Luiz Otávio Campos, mas um novo Zenaldo Coutinho.

O fator Barbalho

A principal incógnita na projeção do futuro eleitoral do Estado é o destino do senador Jader Barbalho. Com todo o seu desgaste, ele ainda é o principal político fora dos redutos situacionistas. Se tudo o que de pior acontecer com ele (perder a presidência do Congresso Nacional e o mandato de senador, tornando-se inelegível pelos próximos oito anos), ainda assim poderá manter influência sobre um quinto do eleitorado paraense, que o apoia independentemente de ouvir denúncias sobre o enriquecimento ilícito do líder do PMDB local, o que já vem sendo feito há pelo menos 20 anos..

Para não ser pulverizado, Jader terá que oferecer aos seus correligionários o consolo da imagem de vítima: de que foi punido pelos muitos erros que cometeu, sobretudo no trato com dinheiro público. Mas que seus inimigos exageraram os seus pecados porque, na verdade, queriam dar-lhe o troco por ter levado à cassação de Antônio Carlos Magalhães, o todo-poderoso político que ninguém, até Jader, havia tido a coragem de enfrentar.

Se conseguir essa façanha, que já começou a tentar (antecipando-se à possibilidade de vir a ser realmente cassado), ainda poderá influir na próxima campanha. Se não, voltará à política já como sexagenário (é pouco provável que consiga colocar em seu lugar o filho Helder, vereador em Ananindeua, ou a ex-esposa, Elcione, estigmatizada pelo sobrenome e que ainda pode ser alcançada pela onda punitiva ao ex-marido).

Para minorar os efeitos do exílio que uma cassação lhe acarretará, Jader terá que embarcar numa candidatura que lhe garanta um mínimo de influência na composição da próxima administração, atuando nos bastidores e nos contatos com os redutos do interior, sua principal reserva de votos.

Dificilmente Simão Jatene se enquadrará nesse perfil. Ele é continuidade demais, o que significa fortalecer o esquema Almir Gabriel (e, por consequência, enfraquecer os polos opostos).

Jader poderia apoiar um nome menos identificado com o governador e mais fácil de carregar, como o do vice-governador Hildegardo Nunes. Essa aliança representa uma ironia, já que em 1982 Jader havia tratado de rapidamente se livrar do pai do vice, Alacid Nunes. Ele foi peça fundamental para que derrotasse o candidato do sistema, o empresário Oziel Carneiro. Mas, como diz o senador peemedebista, político olha para frente e não para trás. Quando isso lhe é conveniente, claro.

Aposta sem risco

Almir Gabriel estaria disposto a trocar Jatene por Hildegardo? Provavelmente só numa hipótese: a de derrota certa. Realista como é, o governador ainda não conseguiu definir o peso dessa variável. Acredita que uma exposição escancarada do seu secretário e toda a retaguarda oficial para arrastá-lo pelo Pará ainda poderão colocá-lo numa posição de força no momento exato de definir as candidaturas no cronograma eleitoral.

Só se o ponteiro das pesquisas confidenciais continuar batendo abaixo de um número medíocre (5% ou 6%) e a data da escolha chegar é que o governador poderá, a contragosto, lançar a candidatura do seu vice. Nesse caso surgiria como tentadora uma hipótese que Almir praticamente descartou: deixar o governo para concorrer a uma vaga, quase certa para ele, de senador.

O que significaria dar adeus a um projeto de poder. A partir do momento em que trocar de cadeiras no palácio de despachos, Hildegardo fará tudo para estar em boa forma na hora de reivindicar um segundo mandato.

Daí o quadro de esquizofrenia que caracteriza as relações entre os dois inquilinos principais da sede do governo. Almir dá todos os sinais de que Hildegardo o desagrada, ao transformar o exercício da vice-governadoria numa permanente campanha à sucessão. Assim, contraria a indicação de apoio a Jatene com o que não faz parte do catecismo do tucano-chefe: a independência dos subordinados.

A hipótese indesejada

Já o vice faz de conta que aceita o comando do governador, mas prepara as condições para sair de sua órbita se, ao completá-la, a postulação à candidatura não o estiver esperando.

Hildegardo avança em duas frentes: beneficia-se ao máximo da infraestrutura colocada ao alcance do vice-governador, que lhe dá grande poder de deslocamento e penetração (sem o qual continuaria a ser uma figura de retórica no jogo político para valer), e aumenta seu poder no PTB, uma sigla que havia se tornado propriedade privada dos Kayath.

O ex-superintendente da Sudam (por indicação de Jader Barbalho) e seu filho, que integra o secretariado de Almir, não costumam levar muito a sério as posições estabelecidas, seja a dos outros quanto a deles próprios.

Foi assim que Henry Kayath elevou o filho, à época muito mais neófito do que Jatene, à condição de deputado (estadual e federal) bem votado, arrasando a horta eleitoral alheia (como a de Mário Chermont) com os produtos populares made in Sudam. Poderiam agora falhar a Hildegardo na undécima hora, fechando com o esquema Almir Gabriel e deixando o vice a ver navios em Soure?

Para não passar por esse constrangimento, Hildegardo está tentando deslocar os Kayath do comando do partido, algo que parece ser-lhe mais viável do que caçar outra legenda.

É semelhante a estratégia do prefeito de Ananindeua, Manoel Pioneiro, outro candidato a candidato dentro da coligação oficial, embora com menos recursos do que o vice. Pioneiro dá a impressão de que fazer uma administração populista e realizar o máximo possível de obras, independentemente de se saber se formam ou não um todo coerente, no segundo principal município do Estado, pode ser o bastante para credenciá-lo ao principal cargo majoritário da eleição de 2002.

Como sua campanha não foi vetada pelo governador, ele, como Hildegardo, acha que Almir Gabriel ainda pode vir a apóia-lo. Para manter-se como essa alternativa potencial, age como se já fosse o candidato da União pelo Pará. Sabendo que se seu projeto tiver sido concebido para enfrentar qualquer situação, vai ter que buscar outro pouso, igual a Hildegardo, mas sem os recursos dele.

E se, numa hipótese já considerada menos provável, Jader Barbalho não for cassado, independentemente de continuar ou não como presidente do poder legislativo? Aí volta ao pêndulo das decisões. Mas continuará sem ter um nome peemedebista para concorrer ao governo, produto de sua estratégia de não deixar surgir uma sombra dentro do seu partido. Ele partir para uma aliança com a oposição também não parece uma boa possibilidade.

A última possibilidade

A oposição ainda não deverá ter um grande nome para o governo. Nem mesmo Ana Júlia Carepa, a mais qualificada para essa disputa, está disposta a enfrentar o elevado risco sem ter na retaguarda um partido com presença forte no Estado (não conta com essa certeza nem mesmo dentro do PT).

Agravar essa fraqueza intrínseca com um desgaste junto ao público externo seria o resultado de uma aliança dos partidos ditos de esquerda com o PMDB de Jader Barbalho. A não ser que o senador esteja disposto a sacrificar seus próprios planos de retomada do controle político do Estado para, disputando apenas sua reeleição, apostar apenas na derrota do governador. Seria, então, optar pela vitória de Pirro. Ganhar e levar coisa alguma.

Até agora ninguém ouviu de Almir e de Jader que a possibilidade de se aliarem em 2004 está definitivamente descartada. Livre da cassação, com espaço para cultivar a imagem de vítima, salvado mais uma vez de uma situação extremamente perigosa graças à sua habilidade, Jader poderá apenas exigir, na mesa da negociação, que o deixem voltar ao Senado.

E, quem sabe, não o obriguem a ajudar a eleger um governador que mais tarde o enforcará. Uma aliança sem maior exposição, sem necessidade de palanque comum, mas exercida através da combinação de cabos eleitorais capazes de multiplicar os votos nos redutos interioranos.

Essas diferentes alternativas têm em comum o fato de que gravitam em torno do poder de mando, derivado da caneta que nomeia funcionários públicos e da chave que dá acesso aos cofres do erário. É o poder que dá força às candidaturas e elas se viabilizam por representarem a continuidade desse mesmo poder, embora o governador que sucede nem sempre se submete inteiramente ao que o antecedeu. Algumas vezes, muito pelo contrário. Exemplos de que o Pará, particularmente, é muito pródigo.

Esse enunciado também significa que as possibilidades de renovação no comando político do Estado são mínimas, ainda que não totalmente impossíveis. Menos pelas forças de mudança interna e mais pelas ondas de transformação no cenário político nacional, no qual as surpresas ainda são um dado a levar na devida conta. Tanto para desorganizar o quadro da disputa local, como para reforçar aqueles movimentos que simulam mudança para que tudo continue quase igual

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (58)

  1. Sua predicao foi correta. Nada mudou e será difícil mudar. Talvez você tenha errado nos mecanismos. A mudanças não ocorre nem tanto pelas forças nacionais, mas sim pela total incapacidade interna, incluindo somos eleitores, de promover uma mudança significativa com base em novas lideranças mãos promissoras.

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    Publicado por José Silva | 8 de fevereiro de 2017, 08:56

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