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Militares, Política

A história na chapa quente (59)

Guerrilha do Araguaia:

ainda a hora das versões

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 263, de julho de 2001)

A história completa da guerrilha do Araguaia, quando vier a ser escrita, mostrará que, tanto à direita quanto à esquerda, o Brasil desconhecia a Amazônia; o sertão ainda era algo indecifrável para o litoral.O Partido Comunista do Brasil, pensando com a cabeça de Stálin, fossibilizada na Albânia e temperada em Cuba, achou que podia criar um foco ou uma zona libertada no ponto de ligação entre o planalto central e a floresta amazônica.

Ao saber que guerrilheiros (nunca mais do que 60) conseguiram se estabelecer naquele ponto ermo, abandonado e pobre do país, o outro lado da face de cartão postal do prosseguimento da “corrida ao oeste” (“uma aventura tão grandiosa quanto a conquista da Lua”, dizia a propaganda do Brasil “pra frente”), o Exército achou que ia ter que enfrentar (finalmente?) uma guerra. Encarou-a como tal.

Em duas campanhas organizadas convencionalmente, sob o comando duro (mas desajustado) do general Antônio Bandeira, mobilizando um máximo de três mil homens, o Exército fez mais mal aos civis do que aos guerrilheiros.

Fantasia na selva

Reforçou neles a ilusão de que haviam realmente conquistado a simpatia da população nativa, algo que o heroico Che Guevara tentara sem sucesso em selva semelhante na Bolívia. E criou um caldo de cultura para que os erros de concepção e de prática da guerrilha ficassem sepultados sobre um manto diáfano de fantasias, dos heróis perseguidos, dos mártires de uma luta que só não teria dado certo porque a correlação de forças era demasiadamente desigual. Ainda assim, idealistas dispostos a morrer por uma causa justa.

Na verdade, a do Araguaia foi uma guerrilha natimorta. É provável que os bravos combatentes conhecessem mais as condições chinesas ou cubanas do que as amazônicas. Os diários da guerrilha têm uma verossimilhança com a situação real da região que teria um ensaio produzido nas areias de Ipanema por um militante da festiva.

Muito solidário, sem dúvida, mas fantasioso, idealista naquele sentido hegeliano que Marx tanto escarneceu. A simpatia era superficial. Não rompeu de princípio porque as tropas regulares do governo cometeram violências e barbaridades com os moradores locais.

Era de se prever. Em Xambioá ficaram estacionadas centenas de soldados, a maioria jovens e solteiros, que acabariam cometendo excessos com as moças nativas. O mesmo aconteceu com os lavradores no meio da mata, assustados por aquelas investidas sem muita ordem.

Guerrilha contra guerrilha

Os militares superestimaram o inimigo. Desse erro derivaram alguns desentendimentos (uma tropa atirando contra outra tropa), por medo ou inexperiência. O exército Brancaleone parecia mais a força regular do que os guerrilheiros, diferentemente do que sugere o coronel Jarbas Passarinho, nas intervenções que fez na imprensa a propósito da tentativa de reconstituição dos fatos em O Liberal.

Na terceira campanha, a de menor duração e a que mobilizou menos gente, o Exército liquidou quase sem baixas o foco guerrilheiro graças a uma competente operação prévia de inteligência, comandada pelo então major Sebastião Rodrigues de Moura, que se popularizaria como Curió. Ele se infiltrou na mata com outros homens e pôde verificar que os guerrilheiros eram poucos, estavam enfraquecidos (interna e externamente) e poderiam ser destruídos se seus poucos elos fossem desfeitos.

Curió desfez os nós oferecendo terra e outras vantagens a lavradores que se dispusessem a ser bate-paus, ou espiões. Três estradas (as OPs, ou operacionais) foram abertas para o assentamento desses colaboradores, finalmente donos do seu lote (a via, não interessava). Eles levaram os soldados à maioria dos guerrilheiros, inclusive o líder do grupo, Osvaldão.

Certamente uma parte ao menos do grupo poderia ter sido presa com vida. Houve decisão superior para um ataque radical, talvez para eliminar arquivos e testemunhas. Seria difícil explicar como um grande exército esbarrou por mais de quatro anos num movimento guerrilheiro tão frágil. Através da exaltação do inimigo seria possível não só remir a culpa do comando das duas primeiras operações, como talvez até eleva-los à condição de heróis.

Por desconhecimento dos fatos ou por diretriz política, muitos intelectuais, especialmente os mais próximos do PC do B, deram à guerrilha do Araguaia uma projeção falsa, superdimensionada. O ex-senador Passarinho diz que esse resultado insólito, os derrotados escrevendo a história no lugar dos vencedores, invertendo a regra histórica, deve-se à infiltração da esquerda nas redações e outras formas de omissão ou conivência de terceiros.

Não principalmente: deve-se, sobretudo, à recusa do Estado brasileiro, e particularmente do Exército, de apresentar documentos que comprovem sua própria versão, sempre tibiamente apresentada.

A verdadeira história

Pior do que desmistificar a importância da guerrilha seria comprovar a incompetência da nossa principal força militar, à época despreparada tanto para enfrentar uma guerra convencional (como a das Malvinas, que arrastaria para o ocaso a vizinha ditadura militar argentina, mais profissionalizada do que a nossa, em todos os sentidos, bons e ruins) quanto um foco guerrilheiro (urbano ou rural), e compreender uma região pioneira como a Amazônia. O silêncio oficial se explica menos pela submissão a uma norma de discrição, mas pelo receio de enfrentar o desafio da verdade.

Se é da responsabilidade da administração Geisel a última e vitoriosa campanha contra os guerrilheiros, na qual teria vindo embutida a ordem de não deixar testemunhas vivas, como diz o ex-governador do Pará, é errado deduzir daí que as duas etapas anteriores tivessem sido menos sangrentas, menos sujas.

Podem ter sido até mais. A diferença é que as principais vítimas foram civis e não guerrilheiros, a sociedade como um todo e não apenas um grupo de contestação armada, que se transformaria numa visagem à custa de fabulações.

O inimigo interno da doutrina de segurança nacional era difuso e por isso pagavam pela suspeição culpados e inocentes, os alvos diretos ou aqueles que aparecessem no caminho. Daí aquele ambiente horroroso de insegurança, suspeição, delação e entrega que constitui a nódoa indelével e perene das ditaduras sobre a memória dos que viveram com alguma dignidade esses tristes períodos, infelizmente constantes (ao menos até recentemente) no nosso continente.

O ditador populista

O ditador Emílio Garrastazu Médici era simpático e, de fato, popular. Ele podia dar-se a esse luxo bizarro. De nada queria saber. Além de ouvir seu radinho de pilha (com fascínio semelhante ao que o carteado exerceu sobre seu antecessor, Costa e Silva, o “seu” Arthur do marketing político nascente), o que ele mais queria era lavar a mão daquela sujeira toda nos porões do sistema, que, a custo, mantinha o isolamento, evitando a contaminação dos andares superiores do establishment, pelo qual podia-se caminhar sem ouvir gritos ou deparar com cadáveres.

Médici foi escolhido exatamente por não ser obstáculo àqueles homens – “radicais mas sinceros” – que queriam continuar a fazer a revolução permanente, que, de outra maneira, Trótski quis fazer no mundo inteiro, mas substituindo uma classe por outra.

Como personalidades desse tipo construíram carreiras tão estreladas dentro do Exército é um desafio a ser enfrentado pelos teóricos da formação castrense, empenhados em criar uma corporação à altura das nobres missões que a ordem constitucional lhes incumbe, sem que de sua exação resulte a exceção.

O papel de Geisel

Passarinho tem razão ao atribuir ao que considera como sendo uma corrente italiana do jornalismo brasileiro (tendo Mino Carta e Élio Gaspari como abre-alas), de mãos dadas com o bruxo Golbery do Couto e Silva, a imagem de pacificador do general Ernesto Geisel, de que “naquele governo se combateu a tortura”.

É verdade que os dois jornalistas muito ajudaram a inflar os balões de ensaio que, através deles, eram lançados à opinião pública pelo general Golbery, como se fossem avaliação independente, investigação própria. Como prêmio por seu comportamento, Gaspari herdou os cobiçados arquivos de Golbery, o criador do SNI (criatura que tanto o assustou, a ponto de abjurá-la depois), com os quais, há anos, promete reescrever a história do período – e que sempre tem adiado [os cinco volumes sobre a ditadura já foram publicados].

Ainda assim, a avaliação de Passarinho não é correta., talvez por não ser isenta. Por mais que o ex-senador tente depurar os ranços do passado, não parece conseguir se livrar de certa mágoa em relação aos “castelistas”.

Afinal, foi apenas no mandato de Castelo Branco, mas, sobretudo, no de Geisel, que Passarinho experimentou inicialmente atritos e, depois, animosidade declarada ao longo do ciclo dos generais-presidentes. As diferenças, ao que parece, não foram acertadas até hoje. E talvez não venham a sê-lo nunca. Passarinho se excede tanto na defesa de Médici quanto no ataque a Geisel.

É francamente distorcida a defesa que ele faz do poder do SNI. Passarinho sustenta que o Serviço Nacional de Informações era apenas “um órgão de informação do presidente da República”, que não se envolvia com operações externas, como a guerrilha do Araguaia.

Curió, entretanto, era um homem do SNI, embora, para consumo externo, enquanto esteve na ativa, se apresentasse como integrante do Conselho de Segurança Nacional, apenas para não sofrer o desgaste que certamente a imagem do SNI lhe imporia.

Foi como agente do SNI que Curió assumiu e exerceu o controle do garimpo de Serra Pelada. E foi o SNI que comandou a Capemi no desastrado projeto de exploração florestal do reservatório da hidrelétrica de Tucuruí, que deveria funcionar como fundo de campanha presidencial para o chefe do serviço, general Antônio Medeiros, numa época em que estar à frente do SNI era ter o direito de reivindicar o cargo superior, a presidência da República (como aconteceria com Médici e João Figueiredo).

Quem acompanhava os acontecimentos de então e tinha um olho na história não podia deixar de ver semelhanças com a luta travada nos bastidores do nazismo. Geisel foi o homem do comando central que combater a descontrolada SA, mal comparando (mas comparando) a diferenciação entre os homens de carreira regular nas forças armadas e os que desceram para os porões. Se fez pouco ou fez mal, pelo menos Geisel fez. Médici fez nada. Foi o nosso Pilatos, mal comparando outra vez, mas comparando.

Que é assim, fazendo paralelismo e provocando manifestações, que se consegue escrever uma história sem reduzi=la à versão dos combatentes, vencidos ou vencedores. Como parece ainda ser o estágio da história da guerrilha do Araguaia.

Discussão

2 comentários sobre “A história na chapa quente (59)

  1. Muito bom. É sempre interessante conhecer mais os detalhes nessa época atribulada no Brasil. O que você acha dos livros do Gaspari? Ele fez um bom uso dos arquivos do Golbery?

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    Publicado por Jose Silva | 6 de fevereiro de 2017, 02:05

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