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Imprensa

A história na chapa quente (60)

A moral do jornalismo

(e o jornalismo sem moral)

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 263, de julho de 2001)

Ricardo Boechat foi sumariamente demitido do jornal O Globo e da TV Globo, em pleno domingo, dia 24 de junho, por conduta considerada aética e antiprofissional. A prova do crime aparecera nas páginas da revista Veja: a transcrição da gravação clandestina de uma conversa por telefone entre Boechat e Paulo Marinho, travada três meses antes.

A gravação comprovava três faltas graves. A primeira: o jornalista leu para o interlocutor a íntegra de uma reportagem que escrevera para ser publicada no dia seguinte; ou seja, criou um leitor privilegiado, que se antecipou à circulação do jornal no conhecimento do texto impresso.

Além do seu valor intrínseco incontestável, esse texto tinha um valor utilitário: seria usado por uma parte contra seu oponente, a primeira se antecipando a uma manobra que o segundo faria exatamente no dia da publicação da matéria. O contencioso envolve duas empresas de telefonia com valor de mercado de 2 bilhões de reais. Dois dos sócios a estão disputando num vale-tudo disfarçado de divergência societária.

Por fim, o jornalista revelava informações de economia interna da empresa de comunicação na qual trabalhava; seu interlocutor, além de ser lobista de uma das empresas de telefonia, por meio dela era também informante do principal acionista do Jornal do Brasil, concorrente de O Globo, numa fase de acirramento de disputa.

Ricardo Boechat é uma pessoa querida e admirada (como profissional, amigo e chefe de família, além de parte em divertidas sessões de papo) pelos colegas que já tiveram o prazer de trabalhar ao lado dele. Não tenho nenhuma referência sobre troca de notícias por dinheiro (nosso chen, o jabaculê dos cariocas) por parte dele.

É um dos jornalistas mais bem informados do país. Redige corretamente o que apura. Tem 30 anos de estrada pavimentada por sucessos. Ainda assim, fez por merecer a demissão.

A (i)moralidade coletiva

Os erros que cometeu foram o móvel da iniciativa da empresa? Aí é que reside a dúvida. Boechat alega que, se errou, esse erro é corriqueiro nas redações: repórteres leem suas matérias para fontes, trocam favores com elas, plantam balões de ensaio que elas lhes entregam, servem de instrumento para o que está além (e por trás) das notícias. Pulam o balcão ou derrubam o biombo entre o repórter como testemunha dos fatos e personagem desses mesmos fatos.

A patologia não seria individual, mas coletiva. Pelo que passaria a viger a máxima da Vovó Zulmira, criada pelo também jornalista Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de  Sérgio Porto): ou todos nos locupletemos, ou restaure-se a moral.

Se é verdadeira a observação de Boechat, não são defensáveis essas práticas. Nenhum jornalista deve submeter seus textos a ninguém se não seus chefes imediatos, pelos quais a matéria transitará por contingência funcional, devidamente hierarquizada. Às vezes assuntos complexos, sobretudo ligados à ciência, exigem uma nova checagem.

O jornalista que ainda não é capaz de responder por tudo o que escreve tem uma grave deficiência na apuração das informações. Precisa se adestrar melhor. A solução não é ler o que escreve para a fonte corrigir. Isso, jamais, em situação alguma.

O jornalista não deve se indagar sobre o destino que suas matérias terão, se serão usadas por xis ou ípsilon. As perguntas que lhe competem fazer são: o fato tem importância, é verdadeiro, está exposto da forma mais completa e acabada possível? Preenchidos esses requisitos, está pronto para ser divulgado.

É claro que em muitas situações os fatos são revelados ou levados aos jornalistas por pessoas com envolvimento na história. O jornalista não deve descartá-los só porque têm uma fonte com interesses definidos. Mas deve consultar outras fontes, checar informações e avaliar o significado do fato.

A verdade acima de tudo

São tantas as situações que uma regra geral de como proceder admite inúmeras exceções. Em todas elas, o critério de definição é revelar o máximo do que se apurou. Lembro na época do regime militar. Como correspondente de O Estado de S. Paulo em Belém consegui ter acesso a fontes privilegiadas do establishment.

Para me passar informações, essas fontes exigiam não ser identificadas. Combinei com São Paulo que o crédito dessas matérias seria atribuído a alguma sucursal, de Brasília ou Rio de Janeiro. Não só para desviar o foco como para diluir as responsabilidades (mais jornalistas e muito mais fontes teriam que ser investigadas).

Mas eu sempre situava o setor de atuação da fonte (“uma fonte militar”, “uma fonte bem posicionada no setor de segurança”, por exemplo) para que o leitor capacitado a interpretar aquela informação tivesse um dado a mais para enriquecê-la e pudesse verificar sua validade. Não entregaria a fonte, mas também não a deixaria anônima no éter.

Boechat não seguiu princípios básicos do jornalismo independente – e, como ele, muitos jornalistas se desfizeram de tais normas. Há os que tiram vantagem material dessa renúncia, e não são poucos, infelizmente. Muitos outros apenas estão, ao seu modo, cultivando e preservando boas fontes. Elas é que lhes garantem informação de primeira, acesso aos bastidores do poder ou “furos”, que se transformam em instrumentos de notoriedade e afirmação profissionais.

Constantemente uma relação necessária e mesmo vital começa a perder equilíbrio e a fonte passa a comandar o jornalista, que vai se desfazendo dos princípios para continuar a seguir na linha de frente. O front é integrado por uns poucos que sabem das últimas ou mais quentes informações, mal elas acontecem. São admirados e cultuados por serem “insiders”.

Acabam pagando um alto preço, como ocorreu no caso de Ricardo Boechat. Ele ultrapassou os limites admissíveis na relação jornalista-fonte, que se tornou um elemento de manobra daqueles que lhe davam as informações e chegando à promiscuidade. Talvez não chegasse a ser demitido, e seguramente não seria demitido com humilhação, se essa promiscuidade não significasse uma ameaça aos interesses das Organizações Roberto Marinho.

Havia o boato de que o colunista estava negociando sua transferência para o Jornal do Brasil, antigo líder que O Globo havia conseguido superar no difícil mercado carioca, menos por méritos próprios do que em função da corrosiva crise interna do JB.

A cena nos bastidores

A lenta e continuada decadência do jornal, que sucedeu o Correio da Manhã como o mais influente na capital política (e ainda cultural) do país, poderia agora seguir uma nova tendência, de ascensão, com a chegada de dinheiro de Nelson Tanure,  o segundo principal personagem na novela telefônica grampeada que Veja revelou. A  adesão de jornalistas de prestígio, como Boechat, amigo íntimo de longos anos do empresário, reforçariam o jornal.

É claro que os Marinho não armaram uma rocambolesca armadilha para o seu até então mimoseado colunista. Mas aproveitaram uma circunstância favorável para potencializar seus efeitos positivos. Favoreceram o grande personagem oculto da trama, Daniel Dantas, o ardiloso sócio dos investidores canadenses nas telefônicas (e, quem sabe, a ponta final na origem das fitas, antes da chegada a Veja).

Também mandaram um torpedo na direção de Tanure e do JB, desvalorizando sua futura provável conquista. Nem Janete Clair escreveria roteiro mais maquiavélico. O doutor Roberto não tem rival nessas artes e manhas do poder. Ao menos vivo.

O agradabilíssimo Boechat não deve ter sido um atento leitor das fábulas antigas, aquelas que narram uma história de sadismo ou vilania, recoberta de tintura infantil, ocultando um enredo torto sob uma moral edificante.

Acabou arrastado por essa maré de sujeira da qual se imaginava apenas um cronista distanciado. Enredou-se num dos incontáveis rolos de fitas clandestinas, que não parecem ter fim, e ainda poderão enforcar outros, inclusive os que criam monstros na presunção de poder sempre controlá-los, como afoitos jornalistas.

Ele, assim, poderá acabar sendo com todos os que imaginam manter essa relação incestuosamente para sempre. Só nas lendas de conveniência cabe a eterna felicidade. Eternidade somente para quem tem ao seu alcance um poder: o de contar a versão final.

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (60)

  1. Mesmo depois de todo esse imbroglio as coisas continuaram como sempre. Boechat simplesmente pulou para outra empresa. É quase impossível restaurar a moral na imprensa brasileira, também acostumada com o toma lá, da cá, da nossa famigerada política.

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    Publicado por José Silva | 8 de fevereiro de 2017, 08:32

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