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Política, Sem categoria

A história na chapa quente (61)

Mas só o Barbalho?

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 263, de julho de 2001)

Se o senador Jader Barbalho conseguir resistir à ofensiva da grande imprensa nacional por mais tempo, mas se também os jornais não desistirem de continuar seguindo as pegadas do presidente do Congresso Nacional, é possível que desse confronto resulte mais do que um acerto de contas entre os contendores.

Isso acontecerá se ambos perderem o controle das suas ações: Jader se limitando a defender-se e a imprensa evitando alargar a linha de tiro. Talvez então a sociedade deixe a ver o político paraense como a personificação do mal, detentor do monopólio de transgressão da coisa pública, e a imprensa se livre do rótulo de viúva de Antônio Carlos Magalhães. Um caso individual poderá proporcionar uma profilaxia coletiva.

Um balanço dessa guerra verbal revelará o constante recuo do atacado, mas a pouca eficácia dos golpes dos atacantes, alguns mais profundos, outros mais superficiais, a maioria deles dados a esmo. Na história recente da República, apenas Getúlio Vargas. Juscelino Kubitschek e Fernando Collor de Mello receberam um combate tão sistemático da grande imprensa, embora os dois primeiros, mesmo no auge do tiroteio cerrado, tenham contado com alguns aliados, e o último, tão bombardeado quanto Jader agora, tenha sido, até a véspera, o queridinho dos publishers.

O passado condena

Há uma diferença significativa, porém: Jader Barbalho tem sido fustigado não pelos atos que cometeu como presidente de um dos três poderes constituídos e a terceira autoridade na linha sucessória do presidente da república. Nem teve oportunidade para exercer essas prerrogativas.

A devassa é retrospectiva, alcançando toda a sua vida pública, que já tem 35 anos. O ponto de remissão é o momento em que ele não aceitou a vontade do então presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, que o vetou como seu sucessor. A partir de então a turva biografia de Jader Fontenele Barbalho passou a ser virada de cabeça para baixo.

Esse fato incontestável sugere logo a pergunta: se os dois políticos, ACM e Barbalho, tivessem feito uma composição, a grande imprensa teria se interessado pelo homem que foi duas vezes ministro (ambas na presidência do assemelhado José Sarney), duas vezes governador, líder da câmara alta e presidente de um dos três maiores partidos políticos do país?

Havia duas hipóteses de composição: Jader desistir de assumir a cadeira de ACM e o babalorixá baiano desistir de vetar o seu até então amigável companheiro de legislatura, com o qual trocava publicamente confidências à beira do ouvido.

Certamente se qualquer uma dessas prevalecesse, mesmo a primeira, Jader teria sido poupado das centenas de páginas e dezenas de minutos que a ele foram reservados, numa constância sem igual nos anais da imprensa, por veículos impressos, televisionados e radiofônicos.

Teria sido melhor assim? Para a sociedade brasileira, não. Com atraso e sofrendo certa injustiça, além de servir de impulso para a canonização de figuras nocivas da vida pública brasileira, travestidas de cordeiros na imprensa, na política e na vida empresarial, Jader Barbalho está pagando por ter praticado, induzido, acobertado, estimulado, camuflado, ignorado ou minimizado muita coisa ruim incrustada no seu currículo desde que assumiu o mandato de deputado federal.

O mito do inalcançável

Ele parecia convencido de dispor de um cinto das mil utilidades, capaz de livrá-lo sempre de todo e qualquer embaraço. Apostava também na desmemória do povo. Acreditava que nenhum escândalo, por maior que fosse, resistiria a mais do que algumas semanas, tudo podendo ser recomposto depois.

Embevecido por suas evidentes virtudes de sagacidade e experiência, isolou-se dos seus atos, criado uma crosta de proteção que talvez lhe parecesse legítima, mas aos observadores isentos não passava de um grosseiro cinismo.

Seria ruim para a moralidade pública que Jader Barbalho, epicentro de tantas histórias escabrosas no uso da máquina oficial, seguisse impávido e impoluto até o fim da sua carreira política. Não é correta a condenação açodada que a atual onda de jornalismo investigativo lhe pespega, derivada principalmente de fitas de gravações clandestinas, dossiês entregues de bandeja e boatos tão toscamente apurados. Ainda assim, não se pode ignorar que esses esqueletos foram sendo acumulados no armário de Jader sem que ele se desse ao trabalho de exibi-los à luz do dia, para mostrar que não passariam de ossos descarnados.

Pelo menos um terço de tudo o que diariamente brota nas páginas da imprensa eu já publiquei em O Liberal, em O Estado de S. Paulo e neste Jornal Pessoal. A única queixa que ouvi de Jader (com quem não converso nem pelo telefone há pelo menos dois anos e a quem não vejo pessoalmente há pelo menos uns cinco anos) foi quanto à entrega de dinheiro do jogo do bicho para a Ação Social, comandada por Elcione, no primeiro governo.

Ele negou que fosse verdade. Eu sustentei. Confirmei de novo junto à fonte. Ele preferiu passar a outro assunto. E assim fez com dezenas de casos, no mínimo obscuros, que podiam ter sido esclarecidos, se de fato pudessem ser esclarecidos sem incriminá-lo, direta ou indiretamente.

Fez do silêncio uma técnica de relações públicas e uma tática política. Vinha conseguindo excelentes resultados, até trombar com inimigos muito mais poderosos do que enfrentara até então, em outro círculo do inferno em que costuma se transformar a vida pública.

Não só: acompanhado

Já agora, personagem nacional, Jader Barbalho não pode subir sozinho ao cadafalso. Tomara que a purgação pública dos seus erros arraste a fauna acompanhante dos políticos, aqueles personagens ainda mais sagazes, mais perfumados, mais cosmopolitas, mais bem, vestidos e melhor ainda apresentados que costumam dar o tiro de largada e sumir no ponto de chegada.

Podem ser vistos num fim-de-mundo, representado por uma fazenda pioneira, um garimpo ou uma estrada poeirenta, e depois emergir em Paris ou Nova York, desfrutando dos trunfos de poliglota com os meios de uma conta numerada. Quando também não se tornam políticos, esses personagens de bastidores costumam ser piores do que os políticos, que às vezes criam, frequentemente usam, e, quando necessário, descartam.

Assim, se preservam do tiroteio, voltando aos ambientes acima de qualquer suspeita, em seus clubes, associações profissionais, entidades de classe e as beatificadas empresas.

Há vários deles nas histórias que estão sendo cascavilhadas com avidez por dezenas de jornalistas, postos a trabalhar por pautas dirigidas e promessas de premiação no caso de chegarem a bons troféus. E também por cobranças implacáveis de seus chefes e dos chefes dos seus chefes, nem sempre com o nome no expediente ou na composição acionária da firma.

Soturna e perigosa é essa fauna acompanhante dos TDAs, dos jatinhos emprestados, dos contratos emprenhados, dos aditivos enxertados, da matemática inflacionada, do toma-lá-dá-cá, dessa orgia com o dinheiro que coloca o Brasil do lado de cima do ranking dos mais corruptos dentre 96 países pesquisados.

Personagens ocultos

É preciso arrancar essa gente das asas dos seus bons advogados, dos seus contadores e auditores, dos seus economistas performáticos (viram banqueiros de repente, manipulando dinheiro de fundos de estatais que ajudaram a vender) e detrás dos seus computadores high-tech.

Esta arma se torna letal quando junta informação privilegiada com mente esperta e inescrupulosa, fazendo da crença (ou ingenuidade) da opinião pública o adubo para o plantio de tantas notícias híbridas.

Se a necessária devassa de Jader Barbalho tem que ser feita, e tem que ser, que vá às últimas consequências, sem poupar ninguém, sem enredo preestabelecido, sem vício de origem ou desvio de conveniência.

Tão ruim quanto sua impunidade seria tomá-lo como boi de piranha, esquecendo uma alentada manada que tem pastado sobre a coisa pública e continuará a passar se se desviarem todos os holofotes para a figura um tanto mal esquadrinhada a esta altura do mais importante político que surgiu no Pará após o ciclo dos coronéis e derivados do regime militar. O que diz muito sobre a política, sobre o Pará e sobre a elite que tem feito a política e o Pará nestas quase quatro décadas.

Versão

Numa matéria no Jornal do Brasil de 22 de junho, Maurício Lima escreveu que, ao descobrir o caso amoroso do seu marido com sua sobrinha, Elcione Barbalho “foi vista entrando em casa com um revólver. O segurança de Jader, um major da PM, tomou um susto tão grande que morreu do coração”.

Quando surgiu, quase 10 anos atrás, a história não era bem assim. Uma fonte que se apresentou como serviçal da granja do Icuí entrou em contato comigo para dizer que o major Arruda fora baleado e morto por Elcione, que atirara em Jader e acertara na sua sombra. A pessoa disse ter testemunhado o fato e se desdobrou em detalhes.

O corpo de Arruda ainda estava quente. Não tinha marca de bala. Morrera de ataque cardíaco, problema com tradição familiar, que liquidaria depois um irmão dele. Saíra alegre do Icuí, junto com amigos, depois de ter participado do aniversário de um filho do casal (provavelmente Helder).

Saiu ansioso porque tinha programa melhor e Jader e Elcione demoraram demais a chegar.  O infarto, fulminante, veio menos de uma hora depois, quando já havia se separado dos amigos e partido para o novo programa.

No necrológio que escrevi, desmenti o boato, tomou conta da cidade (o irmão me agradeceu alguns dias depois, durante uma solenidade na Assembleia Legislativa). Era a pura verdade, que repeti para vários colegas quando me procuraram para se informar sobre o episódio. Estavam certos da história do tiro, que foi adaptada no texto do JB para o ataque cardíaco.

Arruda era brincalhão e camarada. Não merecia ser novamente morto, agora de forma inglória, como se fosse segurança de opereta bufa de república banana latino-americana. Ou de jornalismo de boatos.

Discussão

3 comentários sobre “A história na chapa quente (61)

  1. A história é bem interessante. Mesmo depois de toda essa carnificina as coisas continuam como estão. ACM morreu mas deixou uma base sólida para a ascensão do seu modernoso neto. Jader continua com a sua base eleitoral intacta no Pará, fez seu filho ministro e quer fazê-lo governador. A população continua assistindo e apoiando toda essa ópera bufa. Estamos muito mal mesmo de lideranças e liderados.

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    Publicado por José Silva | 8 de fevereiro de 2017, 08:39
  2. Caro Lúcio,
    Quando o major Arruda morreu, de infarto, fui um dos primeiros jornalistas a saber. Imediatamente, contei a história para o fotógrafo João Ramid, oriundo de Veja, em Brasilia. Elcione nos contratou para montar a assessoria de imprensa, onde fui o coordenador, no gabinete da Primeira Dama, com base na sede da Ação Social Integrada do Palácio do Governo, que funcionou inicialmente no palacete da Magalhães Barata e depois em sua sede, em Batista Campos, vizinha da Livraria Jinkings.
    A notícia produzida por voce naquelas tumultuadas 24 horas, foi a correta. Arruda não levou um tiro. Mas esteve perto de receber um, pois acompanhava Jader em todos os seus passos. A exemplo do chamado “sombra”, pelos especialistas em segurança e deslocamento de autoridades.Era o líder da equipe de Pm’s descaraterizados que cuidavam de tudo, no círculo onde o Jader era o centro.
    Depois, vieram as demandas de revistas e jornais. Queriam saber da foto do casamento de Jader e Elcione, onde a sobrinha fora uma das daminhas de honra. Se Elcione poderia receber enviados de CARAS, aquela revista; se tínhamos em mãos o atestado de óbito do Arruda, e quando aconteceria o divórcio, onde Elcione estava, se no Rio de Janeiro, na fazenda, no exterior. Enfim, queriam novidades. Gerenciar a crise, foi a ordem que recebemos naqueles dias.
    Parabéns, pela investigação e pela notícia correta que o caro amigo produziu naqueles dias.
    Agenor Garcia
    jornalista.

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    Publicado por agenor garcia | 8 de fevereiro de 2017, 10:13
    • Obrigado, caro Garcia.
      O Arruda morreu como coronel. Era uma pessoa alegre e divertida. Sem qualquer interesse, se tornou meu amigo e informante. Eu checava algumas informações com ele, que era fonte segura. Nunca o vi perder o humor. Certa vez, logo no início do segundo mandato, Jader foi a uma encenação no pátio do Centur. Lá do fundo vinha alguém vestido de árvore, caminhando na direção do governador, como se dançasse. Quando se aproximou, Jader se virou para o Arruda, que estava à sombra, e perguntou: “O que é isso, Arruda”? O segurança respondeu, sério: “Não sei, chefe. Mas se ele avançar, eu queimo. Já estou com a mão na máquina”, enquanto colocava a mão dentro do paletó. Quem viu a cena e ouviu o diálogo riu. Não sei se o ator. Mas ele se desviou em tempo.
      Queria matar o Arruda? Era só esperá-lo na Júlio Cezar, em Mosqueiro. Lá vinha ele, com a sua turma, cantando a um som etilicamente estimulado. Uma farra lúdica.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 8 de fevereiro de 2017, 11:13

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