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Justiça, Militares, Polícia, Segurança pública

A lei ou o caos

A Polícia Militar do Espírito Santo ganha muito mal. O vencimento inicial de um PM no Estado é de 2,2 mil reais brutos, um dos piores do país. Mas os demais também ganham mal. Mesmo com alguns tetos expressivos, a polícia em geral, civil ou militar, não tem remuneração de acordo com sua importância.

Talvez seja mais importante – ao menos no cotidiano da vida em sociedade – do que a Polícia Federal, o Ministério Público e mesmo o poder judiciário. No entanto, esses três segmentos do poder de polícia estatal foram colocadas num patamar que torna irrisória a posição dos policias, desprezível mesmo. O policial é incompetente, mal treinado, corrupto e violento, por isso ganha tão baixo, alegam muitos grupos de pressão. Assim, o círculo vira quadratura e fica viciado.

A retirada de todo efetivo da PM das ruas das cidades capixabas mostrou o tamanho do prejuízo que a corporação causaria se desaparecesse. O caos que se instalou, com os homicídios se aproximando de 100 em cinco dias e os prejuízos crescendo numa escala espantosa, foi prova suficiente de que é preciso mudar urgente e profundamente o sistema de segurança no Brasil.

Os policiais civis e militares vão todos os dias para a rua como extensão da justiça ou braço armado do governo para garantir a aplicação da lei e a prisão dos transgressores. Com toda corrupção e ineficiência que há, é um trabalho de alto risco, indispensável e valioso. Dispõem, devida ou indevidamente, da vida alheia. Matam e morrem. Deviam estar integrados às carreiras de Estado, na qual os advogados e bacharéis de direito são os privilegiados, como os que mais ganham e de mais vantagens desfrutam.

É verdade que a crise financeira do setor público não lhes permite, neste momento, elevar a remuneração dos policiais até que eles se equiparem aos demais do sistema de segurança. Nem por isso os governantes devem se escorar na realidade limitativa para simplesmente dizer não às reivindicações ou apelos das corporações. É preciso abrir negociação e oferecer vantagens indiretas, compensações por reajustes que serão dados, por compromisso escrito, na medida das possibilidades.

O Estado pode iniciar uma política habitacional específica para os policiais, planos de saúde e educacionais, reforço da ajuda à alimentação, auxílio ao fardamento e outras medidas compensatórias que melhorarão a vida dos profissionais. Uma campanha de valorização do trabalho e melhor qualificação, acrescida de esclarecimentos sobre a profissão junto à opinião pública, inclusive com ouvidorias fáceis de serem contatadas e controle externo combinado com interação social.

Os PMs do Espírito Santo demonstraram o quanto sua ausência é prejudicial à coletividade. Adotaram, porém, uma tática infantil e ridícula ao expor suas famílias, fazendo-a simular os paredões que impediriam a saída dos policiais. Esse pastiche é tão intolerável quanto a relutância em suspender a paralisação diante do agravamento da situação. Essa postura se tornou intolerável, não só no caso capixaba, mas pelo estímulo que pode representar para as PMs de todo país.

O governo do Espírito Santo pediu ajuda federal. O Exército deslocou mil homens, efetivo que representa 10% dos quadros da PM capixaba. Não é a proporção cabível. Independentemente dos entendimentos necessários entre as partes, o governo e os policiais, o Exército devia mobilizar contingente pelo menos igual ao dos PMs, mas com poder de fogo muito maior (incluindo blindados) para encerrar o movimento pela força, se acordo não houver, prendendo, instaurando inquéritos, punindo os responsáveis e restabelecendo a hierarquia e a disciplina.

Ou então, por bons ou maus motivos, será a vigência da lei do mais forte, o caos.

Discussão

6 comentários sobre “A lei ou o caos

  1. Enquanto isso: a trama para azeitar a ditadura da corrupção?

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    Publicado por Luiz Mário | 8 de fevereiro de 2017, 18:06
  2. Na verdade, a greve é motivada muito mais pelo atraso de salários que já dura 4 meses. Ninguém gosta se trabalhar sem receber.

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    Publicado por Fábio reis | 8 de fevereiro de 2017, 23:19
    • Por ser a polícia serviço essencial, os grevistas tinham que garantir 30% do efetivo trabalhando. Não deviam recorrer à ridícula e ofensiva pantomima de expor suas famílias e armar um teatro mambembe para fugir às responsabilidades de uma greve. O salário é péssimo, o atraso é inaceitável, mas o movimento não foi melhor. Depois das mortes, os PMs deviam reconhecer que o espaço para sua manifestação se exaurira.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 9 de fevereiro de 2017, 08:23
  3. Lucio,

    Você tem razão que a PM ganha mal. Precisava mesmo corrigir isso. Ao mesmo tempo, esse movimento colocou a população contra a corporação, aumentando ainda mais a desconfiança que já existia latente na sociedade. Uns coisa é certa: todos perderam e ninguém ganhou. Já estamos acostumados com isso no Brasil, que vive jogando para perder.

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    Publicado por José Silva | 9 de fevereiro de 2017, 01:16
  4. Na cultura da corrupção “tudo vai mal”, como diz a música. Mas parece que é necessário haver algumas “Genis”.

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    Publicado por Luiz Mário | 9 de fevereiro de 2017, 08:36
  5. Aqui temos o esquadrão da morte, atuando diariamente e nada é feito

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    Publicado por Edyr Augusto | 9 de fevereiro de 2017, 13:00

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