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Imprensa, Política

A história na chapa quente (63)

O tribunal especial

da grande imprensa

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 264, de agosto de 2001)

Jader Barbalho se tornou um cachorro morto: ninguém tem mais medo de bater nele. Também virou uma etiqueta gomada: em quem dele se aproxima, ou com ele se relaciona, fica colada a imagem de corrupto ou venal.

Abusando dessas duas condições, a grande imprensa nacional passou a atirar a esmo na direção do presidente licenciado do Congresso Nacional. Sabe que acertará pela regra das probabilidades. Mesmo que erre, não haverá consequência: ninguém teria coragem de remar contra a onda de execução do ex-governador do Pará.

Mesmo que acabe pagando uma conta superfaturada pela adição de denúncias mal apuradas, ou simplesmente destituídas da mais elementar verificação, Jader Barbalho tem culpa no cartório. Achou que a conquista de um promontório de poder, como a cadeira de presidente do Senado, apagaria as sujas marcas do passado. Está começando a quitar a dívida moral e financeira com juros, correção monetária e todos os gravames possíveis e imaginários, devidos ou abusivos.

Assistiu quieto e calado, como bom cabrito, que jamais berra, a onda ir se formando. Começou a reagir tardiamente. Ainda assim, reage calculadamente, sem processar ninguém, sem enfrentar cada um dos acusadores à luz da razão. Não é a imediata, justa e mais cabal indignação porque o terreno diante dele é pantanoso. Não uma reta sólida, com largos horizontes, com a qual conta o homem honrado, ainda quando vítima de armações.

Condenação impressa

Jader tem que avançar com cautela, medindo o terreno. Sem que esses cuidados o isentem de ser surpreendido por uma areia movediça. Que, aliás, ele mesmo permitiu que se formasse em tantos anos de silêncio conivente diante de acusações contínuas sobre malversação de recursos públicos colocados sob sua gestão, supervisão ou responsabilidade direta.

Ainda assim, a grande imprensa está prestando um desserviço à democracia brasileira ao se transformar num tribunal de exceção, que dispensa desde o que é exigência formal até o que é substantivo no processo de apuração da verdade, na instância civil ou política, e o devido processo legal, no âmbito judicial.

Jornais e revistas se investiram nas prerrogativas de Ministério Público, de parte, de julgador, de instância recursal e, por fim, de executor da condenação, que tanto pode ser o carcereiro como o próprio carrasco.

A chamada de capa da revista Veja desta semana diz tudo: “Jader – Agora é só cassar”. No texto, sentencia: “Agora, com a comprovação de que o presidente do Senado mentiu aos colegas, é só abrir o processo e cassar”.

Na verdade, a revista está dizendo que o senador mentiu. A revista julga ter demonstrado que Jader merece ser cassado pelos fatos que arrola. Mas a decisão, ao menos no processo político, é de seus pares. Não que eles devam se julgar metidos numa torre de marfim e ignorar a voz das ruas, de onde veio seus mandatos.

Devem considerar tudo. Mas não podem iniciar um processo que já nasceu decidido pela revista. Veja só reconhece, como papel dos parlamentares, preencher as reticências da oração, à maneira do tristemente famoso vestibular com questões objetivas. É colocar o xis e pronto.

Numa imagem bem popular, seria como se o jogador cobrasse o escanteio, corresse para a pequena área, cabeceasse na direção da trave e admitisse apenas que o goleiro fizesse pose para valorizar o gol. Não é esse o papel da imprensa numa sociedade democrática: cabe-lhe fornecer informações, contextos, interpretações e opiniões para a decisão da sociedade. Não ser o agente formador e a opinião pública ao mesmo tempo.

O maestro e a orquestra

Veja parece já não ter o menor escrúpulo de ser quarto poder, não um poder a mais, simplesmente, mas o poder, o supra-poder. Jader a acusou de se haver transformado num instrumento da vingança do ex-senador Antônio Carlos Magalhães, uma de suas viúvas (como se dizia, em passado recente, dos integrantes da banda de música da UDN, as eternas vivandeiras de quartéis, a clamar por um golpe).

A revista se defende do alto do seu trono, acima dos cidadãos comuns: “Se existe ‘campanha orquestrada’, seu maestro é a opinião pública, que não tolera mais homens públicos com o currículo de Jader, e a orquestra tem exibido uma afinação ímpar”.

Há, é claro, uma saudável reação dos cidadãos à carreira de desmandos e abusos dos homens públicos, tenham ou não mandato político. Talvez a roubalheira nunca tenha sido tão grande quanto chegou agora. Talvez, justamente por isso, ultrapassou o limite da tolerância, da omissão ou da conivência social.

Os malversadores, que julgavam tudo poder, estão se surpreendendo ao ver seus delitos denunciados e começarem a pagar pelo que fizeram. Mas é também evidente que, no caso de Jader Barbalho, a personificação do mal não resultou de uma iniciativa da opinião pública, mas de uma sugestão (para não dizer indução, intensa e sistemática) da imprensa, com destaque para Veja.

A malhação do Judas perdeu os parâmetros técnicos e éticos que um bom trabalho de investigação jornalística exige. Basta lançar as acusações na direção dos imensos costados do político paraense para que o vento se incumba de fixá-los no alvo. Não haverá uma posta-restante para tanto lixo que tem sido colocado na porta de entrada do leitor, um corregedor-geral para deslindar a verdade da meia-verdade, da quase-verdade, da falsidade e da mentira pura e simples.

No deslinde das teias em que se enredam as cadeias dominiais de todos os imóveis rurais do líder do PMDB, Veja deixa de lado as complicações intrínsecas e as aderências típicas da grilagem para apresentar explicações prontas e acabadas, mas de pé quebrado e rima pra lá de pobre.

É um bom ponto de partida supor que o poderoso político paraense tenha sido beneficiado, por portas e travessas, laranjas e testas-de-ferro, por alguns dos atos que realizou ou patrocinou em instâncias oficiais. Mas é preciso apurar cada um dos elos dessa teia, evitando generalizações incorretas.

O patrimônio de Jader

Segundo o julgamento de Veja, a fazenda Rio Branco foi passada de presente ao senador em uma operação triangular, na qual Osmar Borges foi intermediário na transferência da propriedade da Estacon para o ex-governador. Era a retribuição da empresa “pelas duas maiores obras no Ministério da Previdência Social na gestão de Jader, no fim da década de 80”, que teriam custado 15 milhões de dólares, superfaturados. Nenhuma dessas obras teria sido concluída: “A mais cara, erguida em Belém. Sofreu implosão. Era tão malfeita que não compensava sequer tentar recuperá-la”, afirma a revista.

Uma coisa é fato incontestável: ainda não houve uma única implosão em Belém. O fato poderia ser checado por telefone junto ao Crea, o sindicato de engenharia, as secretarias de obras, estadual e municipal, uma construtora ou um jornalista local. Logo, todo o enunciado da revista está contaminado por esse detalhe, absolutamente falso.

Como faltam outros dados relevantes (qual a outra grande obra, a data de sua execução, o valor unitário, comparação entre as obras da Estacon e as outras do ministério), o que podia ser uma pista segura para desvendar uma alegada tramoia de toma-lá-dá-cá entre empreiteiro e autoridade pública, com o uso de um biombo alaranjado, para fraudar o erário, acaba parecendo uma reconstituição inverossímil, mesmo que esteja na direção certa.

Já a Istoé desta semana, a partir de mais uma gravação clandestina, feita três anos atrás, revela a rede de cinco operadores responsáveis pelas atividades subterrâneas de Jader Barbalho. Não consegue grafar corretamente o nome completo de um deles, Antônio José Guimarães. Quatro desses alegados operadores podem ser incluídos no rol porque sempre estiveram na ilharga do ex-governador.

Mas como agregar a esses apparatchicks ao tucupi uma pessoa como Maria Eugênia Barros, que atuou no Incra, na época em que Jader foi o ministro da reforma agrária, exatamente na mão oposta de gente como Henrique Santiago, que a revista garante ter sido parceiro dela na divisão de cadastro e tributação do órgão. Qualquer pessoa bem informada sabe ela era o seu contrário.

Para dar força à denúncia, Istoé diz que Maria Eugênia está “hoje no departamento financeiro das empresas de Jader”. Uma informação tão falsa quanto afirmar que Joercio Barbalho, outro operador, é o “irmão caçula de Jader”.

A verdade: um detalhe

A revista pode alegar que tudo isso é detalhe. Talvez. Não é a hierarquia do fato que está em jogo, entretanto: é a circunstância de serem fatos elementares, que podiam ser checados na mais primária das apurações, num trabalho de jornalismo e não de caça à bruxa, ainda que a perseguida seja, de fato, bruxa.

Se esses detalhes não influem na essência das irregularidades e ilicitudes em que se acha mergulhado o presidente licenciado do Senado, podem servir de sentença condenatória contra pessoas que poderiam ser classificados como raia miúda, mas que podem ser pessoas honradas e honestas, enfiadas de cambulhada num saco sem fundo antes de serem ouvidas e poder se defender.

Saco do qual talvez não consigam mais sair porque os juízes do tribunal especial da imprensa não estão nem aí para essas coisas, esses “detalhes”. Ainda mais porque todos os indigitados são do Norte, terra de bugres e selvagens, de gente ruim como Jader Barbalho. Neste particular, ele está fazendo por seu povo, o povo humilde que lhe deu votos na presunção de que “rouba, mas faz”, um desserviço do tamanho do que a grande imprensa presta à democracia.

Do enredo pode-se chegar à triste moral de que, nessa história, só há um ausente: o mocinho.

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (63)

  1. O banquete servido na chapa tem demonstrado como é tecida, ainda que falte alguns fios, a rede da ditadura da corrupção.

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    Publicado por Luiz Mário | 9 de fevereiro de 2017, 11:06

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