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Educação

A saída para a educação

A maioria dos estudantes que chegam às instituições particulares de ensino superior tem um perfil triste: é “um aluno malformado em escolas públicas, com graves deficiências de aprendizado e falta de domínio da Língua Portuguesa e de Matemática. Também não pode pagar as mensalidades e depende de programas sociais do Governo”.

O diagnóstico, com base nos dados do Censo da Educação Superior, na sua última versão, de 2015, é do mestre e doutor em direito Janguiê Diniz, em artigo publicado hoje em O Liberal. Ele próprio aponta a solução, já na condição de reitor da Uninassau, de Pernambuco, e da Unama, do Pará, além de presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional: financiar os estudantes para que eles possam frequentar alguma das mais de duas mil faculdades, centros universitários e universidades da iniciativa privada, é claro.

Graças aos empresários da educação, a população universitária representa 4% da população do país. Antes do golpe militar de 1964, o Centro Popular de Cultura da Une criou e montou o Auto dos 99%, para lamentar que os universitários fossem apenas 1% da população nacional. Em mais de meio século, com o concurso das instituições da iniciativa privada, financiada pelo poder público, através dos seus alunos apoiados por bolsas, a população universitária cresceu 400%. Dá para se alegrar e comemorar?

Se não fosse empresário do segmento educacional, o mestre e doutor em direito talvez concluísse do seu diagnóstico que o melhor para a nação seria bons investimentos do ensino fundamental e médio. Fazer com que, dentro de escolas públicas, a criança e o adolescente dispusessem dos melhores recursos pedagógicos e educacionais para concorrer ao ensino gratuito, hoje reservado aos mais abonados.

Eles seguem caminho inverso. Estudam em escolas particulares, que se tornaram ainda melhores (porque com maior demanda por parte de famílias com maior poder aquisitivo) do que a decadente escola pública, vítima de má gestão, demagogia, politicagem e abandono dos critérios de qualidade.

Por isso, os filhos dos mais ricos ocupam a maioria dos lugares nas escolas públicas, enquanto os mais pobres têm que se pendurar em dívidas para frequentar escolas particulares, cuja qualidade, descontada as constantes greves dos professores, servidores e mesmo de alunos (por iniciativa própria ou como adesão), é muito inferior.

Continuará assim se a solução do mestre e doutor Janguiê Diniz for a adotada. Ou melhor: voltar a ser adotada, como já foi sob os dois governos do PT, que, por sua incompetência até nesse métier, afundou quando os recursos escassearam e a inadimplência.

O mestre e doutor não está atrás de uma saída para o sofrido e mal formado Brasil, mas para ele mesmo e sua empresa.

Discussão

7 comentários sobre “A saída para a educação

  1. Realmente a solução está em uma educação fundamental e média com qualidade mínima na área de linguagem (Português, Redação, Literatura, leitura oral, etc), Matemática, Ciências ( Física, Química, Biologia), Geografia, História e atividade física. Qualquer coisa além disto é gastar tempo que faz falta na real formação dos alunos. É massacrar com excesso de conteúdo que tem como resultado final o pouco conhecimento de muitos assuntos.

    E no caso do ensino médio a única forma que vejo para ser atraente é poder chegar ao final com uma profissão. Pois as pessoas ficam mais realizadas por terem uma profissão.

    Inclusive quem estiver interessado em fazer curso superior terá condições não somente de entrar, mas de cursar, pois quantos começam e abandonam ou levam muito mais tempo para terminar porque não tem condições financeiras e tem que trabalhar. E pior, fazem trabalho desqualificado porque não tem profissão.

    Ensino superior nunca foi a solução para educação. Ensino fundamental de qualidade e ensino médio com o necessário e com uma profissão é um caminho muito melhor para os estudantes serem cidadãos participativos e contribuintes para a sociedade. Com capacidade de ler o mundo.

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    Publicado por Fausto Bezerra | 16 de fevereiro de 2017, 13:10
    • O objetividade é de relevância cada vez mais determinante para atitudes que realmente façam ação nos problemas. Impossível ficar fazendo discurso sem compromisso com a rotina educacional. Mais uma vez precisa-se observar o que faz a diferença concretamente e não no “imaginário” e no “revolucionário”. Informação do censo escolar (site Veja.com – 16/02/2017):
      “600 000 alunos de 4 e 5 anos ainda estão fora da sala de aula. Já está comprovado que quem entra na escola bem cedo, e recebe estímulos apropriados, se beneficiará disso por toda a vida escolar. Na outra ponta, 1,6 milhão de jovens entre 15 e 17 anos – a idade esperada para o ensino médio – não estão estudando.”

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      Publicado por Fausto Bezerra | 16 de fevereiro de 2017, 15:32
    • Você tem toda razão.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 16 de fevereiro de 2017, 19:13
  2. O Auto dos 99% do Vianinha e do Armando Costa é um referencial que atravessa o tempo para nos mostrar que a verdadeira resolução, aquela que poderia ser de inclusão do grosso da população nas universidades públicas, não foi explorada porque não é interessante para o processo de mercantilização da educação superior pós-ditadura.
    Dei aula de artes em uma escola caríssima aqui em São Paulo, os meninos tinham lido Foucault aos quatorze anos (o que achei também muito esquisito, pela densidade do material que me parece muito adiantado pra essa fase da vida); em contraponto, nas escolas públicas onde também lecionei, aos quatorze anos muitos meninos não sabiam nem escrever o próprio nome. Nas duas instituições esses jovens tinham sonhos, muita vida, muita criatividade, mas a estrutura da primeira era fundamental para que seus estudantes pudessem visualizar materialmente um futuro universitário numa USP, Unesp, Unifesp da vida… Na escola pública os meninos nem sabiam que podiam prestar vestibular para uma universidade onde não precisariam pagar nada… É um problema crônica, e a interdição já se naturalizou no imaginário das populações precarizadas.
    Abs
    Paloma

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    Publicado por Paloma Franca Amorim | 16 de fevereiro de 2017, 13:39
    • Fui homenageado, uns quatro anos atrás, por duas turmas do ensino médio de uma escola pública na Pedreira. Levei minha filha mais nova, a Mariana. Queria que ela partilhasse a minha alegria e honra. Assistimos às apresentações, parte originada de entrevista comigo, parte de consulta ao onipresente Google. Nem eu nem minha filha entendemos o que aqueles meninos e meninas diziam. Provavelmente, nem eles. Não sabiam juntar uma frase à outra. O amontoado de períodos não tinha sequência lógica nem qualquer valor heurístico. Do que eles falavam nada se podia aproveitar. Bati palmas, agradeci e saí. Minha filha e eu ficamos um bom tempo perplexos, chocados e indignados com uma escola que forma analfabetos funcionais, dando-lhes a ilusão de estarem sendo preparados para ir além.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 16 de fevereiro de 2017, 19:18
  3. Lúcio,

    Concordo com você.

    O nosso ensino básico e médio é uma bela porcaria. Todos os indicadores mostram que a qualidade caiu muito nos últimos anos e que a tal pátria educadora era uma mentira. As escolas estão caindo aos pedaços e os professores mal-treinados e desmotivados. Basta ver os vídeos circulando na internet com brigas de alunos dentro de sala de aula, com colegas gravando e a professora paralisada de medo. O caos da sociedade virou o normal na sala de aula.

    Como sempre nesse país, há centros de excelência. Há escolas públicas bem geridas e motivadas que formam excelentes alunos, mesmo em lugares carentes, tal como o interior do Piauí, mas essas são exceções a regra. Lula teve a chance de trasformar a educação brasileira, mas demitiu o Cristovam Buarque logo do início do governo e jogou todas as esperanças no lixo.

    A grande maioria das universidades, centros universiários, etc, privados espalhados pelo Brasil não deveriam sequer ser chamadas de ensino superior. São, no máximo, arremedos de escolas de ensino médio melhoradas. Não há qualquer compromisso com a qualidade, com a pesquisa e com a sociedade. É um setor que sobreviveu nos últimos anos com grandes subsídios do governo. Primeiro com emprestimos facilitados do BNDES. Depois com a troca das dívidas por bolsas para estudantes, em mais uma estratégia populista do Lula-lá. Como parece que as mordomias estão terminando, os tais empresários da educação estão desesperados para manter a mamata visando distribuir mais dividendos pra os seus acionistas.

    Meu conselho para os tais empresários é a seguinte: Parem de parasitar o dinheiro público e passem a construir universidades decentes com estrutura adequada. Contratem os melhores professores disponíveis em tempo integral. Passem a exigir do seu corpo docente performance cientifica fenomenal e inovação constante na sala de aula. Almejem ser globais, inovem nas metodologias de ensino, e desenvolvam ações de extensão de impacto junto a sociedade. Quem sabe assim suas instituições passem a ser mais respeitadas pela sociedade, cansada que está de um setor que ganha muito e entrega muito pouco.

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    Publicado por Jose Silva | 16 de fevereiro de 2017, 16:41
  4. “O mestre e doutor não está atrás de uma saída para o sofrido e mal formado Brasil, mas para ele mesmo e sua empresa.” : isso lembra o conto de João e Maria….

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    Publicado por Luiz Mário | 16 de fevereiro de 2017, 17:58

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