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Política

A história na chapa quente (67)

 

A síndrome do vice

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 267, de setembro de 2001)

O maior adversário do provável candidato do governador Almir Gabriel à sua sucessão, o secretário especial Simão Jatene, do PSDB, poderá ser o vice-governador Hildegardo Nunes, do PTB. Se isso ocorrer, será o fim da vitoriosa coligação União pelo Pará e mais um ataque da síndrome do vice, uma das mais traumáticas características da vida política nacional, com ênfase aguda no Pará. O rompimento entre o governador e seu vice parece ser uma questão de tempo e de oportunidade. Informalmente e nos bastidores, eles já deixaram de ser aliados.

Almir eviveu no primeiro mandato a desastrosa experiência com Hélio Gueiros Junior, uma companhia quase tão incômoda quanto o aneurisma que sofreu. Passado o episódio, ele parecia ter encontrado em Hildegardo, um modelo do que popularmente se definiu como “Mauricinho”, o companheiro certo para o segundo mandato. Tudo teria continuado em harmonia se o vice tivesse acatado a voz de comando do titular.

Enquanto a opção sucessória do governador permaneceu difusa, admitindo tanto a possibilidade de Hildegardo quanto a de Manoel Pioneiro, o prefeito tucano de Ananindeua, a acomodação foi possível. Mas quando todas as fichas da máquina oficial começaram a ser deslocadas na direção do neófito Simão Jatene, Hildegardo começou a reagir.

Excluído da postulação ao governo, parece decidido a abrir mão das compensações (o Senado ou a Câmara Federal) e enfrentar o secretário da produção nas ruas e nas urnas. Antes, batendo de frente com o governador.

A todos os interlocutores mais próximos, o vice tem reafirmado a disposição de manter sua candidatura, qualquer que seja o preço a pagar por essa ousadia. Nega que vá agir como se especula em relação ao deputado estadual Duciomar Costa, do PDS. O candidato derrotado à prefeitura de Belém no ano passado se apresenta também como candidato ao governo, mas parece interessado mesmo é em pular um degrau, subindo a deputado federal.

Um abrigo partidário

O primeiro passo na estratégia de consolidação da candidatura de Hildegardo foram os contatos com a direção nacional do PTB, interessada em ter nome próprio para a principal disputa majoritária no Estado no próximo ano, aumentando o cacife na disputa para a presidência da república.

Se tentassem aplicar uma rasteira no filho do ex-governador Alacid Nunes, os Kayath (o pai, Henry, e o filho, Carlos), donos da máquina estadual petebista, seriam afastados da direção partidária. Se houve algum dia essa possibilidade, ela já parece remota ou descartada. Um indicador é o tratamento frio ou mesmo hostil dado no círculo almirista ao secretário de administração, Carlos Kayath, nos últimos tempos.

O segundo passo do vice-governador foi costurar alianças possíveis, que lhe garantam uma estrutura eleitoral própria, independentemente do que fizer o governador. O contato mais importante tem sido feito com o PMDB. Hildegardo Nunes e Jader Barbalho já se encontraram várias vezes, algumas por mera formalidade social e outras para conversas especificamente políticas.

A última teria sido no apartamento do suplente de senador Fernando Ribeiro, no bairro do Reduto, em Belém, em junho. Fernando nega, mas admite ter havido uma infeliz coincidência: Jader o visitou pela manhã e Hildegardo esteve em seu apartamento à tarde. Lembra que o vice é afilhado de seu pai e a mulher dele, Zinda, é sua prima.

As fazendas das duas famílias são vizinhas em Soure, na ilha do Marajó. “E se tivesse que haver um encontro reservado, não seria no meu apartamento, é claro, porque é visado. Seria uma mancada”, argumenta o suplente de senador peemedebista.

O papel de Jader

Na última estada simultânea em Santarém, o vice-governador e o líder do PMDB sentaram à mesma mesa para jantar. E, como noticiou este jornal, sem ser desmentido, um dos primeiros contatos foi feito no ano passado, no Rio de Janeiro. Munição, portanto, não falta para os adeptos da candidatura Jatene usarem como pretexto para acusar Hildegardo de trair Almir.

Mas não faltariam razões ao vice para retrucar não ter praticado nenhuma discrepância, já que o governador também se encontrou com Jader, que seus contatos sempre foram sociais e que, se ainda assim quiserem lhe cobrar uma prestação de contas, só a deve ao povo paraense. Foi o que fez questão de sublinhar na carta que enviou a O Liberal, desmentindo nota plantada no jornal por almiristas sobre suas reuniões secretas com o presidente licenciado do Senado.

Como só falta a formalização da candidatura de Jatene pela coligação situacionista e a de Hildegardo permanece em plena articulação, o rompimento aberto depende tão somente de uma gota d’água. Quanto mais ela demorar, maior será o estrago do envenenamento que os assessores e áulicos dos dois lados estão fazendo, espalhando balões de ensaio e enterrando minas explosivas sobre o futuro campo de batalha.

Dando luz ao poste

Será uma guerra cruenta, sabem os observadores mais sagazes. Toda a máquina oficial será utilizada para fazer a pesada nau de Simão Jatene desatracar. Essa tática talvez venha a expor os flancos governamentais e seus derivados e satélites, mas é a única forma de levar o candidato a uma posição de destaque quando as pesquisas de opinião começarem a ser divulgadas.

Diante de tal aparato, não é suficiente a imagem limpa do vice, nem ele poderá continuar a contar com os amplos benefícios do cargo que ocupa, o principal dos quais é a facilidade de deslocamento num Estado com tão extenso território.

O primeiro míssil disparado contra seus arraiais foi a drástica redução, de quase 50%, da verba do seu gabinete para o próximo ano, golpe que ele mostrou sentir durante entrevista no programa Argumento, da TV RBA (emissora de Jader Barbalho).

O PMDB é o único aliado em potencial que pode lhe oferecer um aparato de expressão fora da trincheira oficial. É claro que há o desgaste de Jader Barbalho. No Estado, porém, as perdas do senador peemedebista foram pequenas até agora, bem abaixo do que se podia imaginar a partir da ofensiva de ataques que tem sofrido da imprensa nacional. Na pior das hipóteses, ele ainda tem um quarto do eleitorado do Pará e uma engrenagem de poder alternativa à do governo estadual. Mas Jader apoiaria Hildegardo?

Jader se salva?

Certamente seria sua única alternativa. Com uma condição: se ele próprio não for candidato ao governo, pela quarta vez (com duas vitórias e uma derrota no currículo). Os jaderistas asseguram que seu líder só considera duas hipóteses: ser novamente candidato ao Senado (com ou sem renúncia) ou simplesmente não disputar a próxima eleição. Mas esse é um argumento desinformado ou de despistamento.

Não há mais qualquer futuro para Jader na política nacional, ao menos a médio prazo. Se ele voltar ao Senado ou decidir ir para a Câmara Federal, no primeiro dia de sessão estará sujeito a alguma proposição de CPI, a um discurso de ataque ou a matérias de denúncia na grande imprensa. Na melhor das hipóteses, ao constrangimento de se ver apontado como réprobo.

Embora continue resistindo mais do que ACM e Arruda, está mais manchado do que eles. Ambos renunciaram por um crime considerado bem menor, a manipulação da votação no Senado, do que os atribuídos ao político paraense, de corrupção, enriquecimento ilícito e tráfico de influência.

Mesmo perdendo a imunidade parlamentar, cujo valor será cada vez mais relativo, ao voltar à política estadual Jader sairá dos refletores nacionais e readquirirá um poder efetivo, com possibilidades – conforme o estado da memória e do interesse da mídia e dos maiores grupos de pressão – de retomar depois o caminho senatorial. Nesse caso, ele será mais uma vez candidato a governador. Como compor, então, com Hildegardo Nunes?

Há, portanto, algumas variantes ainda imponderáveis no jogo político para a próxima eleição no Pará. Sua definição não depende – nem totalmente e nem parcialmente, em certas circunstâncias – da vontade dos atores locais. Eles vão ter que engolir suas raivas e ressentimentos e evitar, por enquanto, se expor publicamente.

Essa tática não impedirá, muito pelo contrário, que a disputa prossiga como uma guerra de guerrilha nos bastidores, onde a temperatura continuará a subir rapidamente. Até a explosão anunciada.

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