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Imprensa, Violência

Violência: protesto e silêncio

Na sua rotina de sensacionalismo, aproveitando-se do noticiário policial para manter ou conquistar leitores, o Diário do Pará ocupou dois espaços da sua capa com as fotos de mais duas vítimas da assustadora violência cotidiana em Belém. Numa, o corpo do soldado Moisés Jesus, mais uma vítima da Polícia Militar, morto pela manhã durante um assalto.

Na outra foto, a jornalista Dandara de Almeida, esfaqueada à noite pelo ex-marido, Roberto Baima. Ele a procurou na casa dela, no bairro do Una. Houve uma discussão e ele a golpeou na garganta com uma faca. A jornalista conseguiu fugir. Roberto teria tentado se matar em seguida, sendo contido por familiares dela e vizinhos, alguns dos quais o agrediram. Ambos estão internados no Hospital Metropolitano, ele já algemado, sob vigilância policial, preso por tentativa de homicídio e violência doméstica. Ela sob tratamento médico.

Protestos e declarações sobre o segundo episódio passaram a circular pelas redes sociais, culminando com uma nota do sindicato dos jornalistas. Para o Sinjor, “não foi uma violência qualquer, foi uma tentativa de feminicídio, uma agressão de natureza doméstica e familiar e de gênero”. Mais um episódio “do sexismo e do machismo em nosso País”., com “a revitimização em manchetes da imprensa”.

“Substituir o rosto do agressor pelo da vítima em capa de jornal para estampar que ela é repórter do jornal concorrente, expondo seu nome e sobrenome, fez com que a profissão e o emprego dela ganhassem mais importância do que o crime ocorrido. Da mesma forma, expor a imagem da vítima em portal de notícias, mesmo que ao lado do criminoso, mas fazendo o uso da tarja preta não passa de ‘ética de açougue.’ A tarja não esconde nada e, historicamente, foi usada para supostamente preservar a imagem de adolescentes em conflito com a lei. Afinal, que crime a vítima cometeu, nesse caso? O de ser mulher? Ser jornalista?”

O sindicato lamenta que os jornalistas, “empregados de grupos de comunicação que se digladiam no cotidiano, somos instrumento dessa disputa no trabalho e até quando somos vítimas. É necessário reavaliar a nossa conduta de trabalho, focar a ética na profissão, o coleguismo e a autopreservação de uma categoria já massacrada por assédio, injustiças e precarização”.

Lembra que, em situação anterior, “em que a vítima de tentativa de feminicídio foi repórter do grupo adversário, o mesmo que estampou agora o rosto da nova vítima, a postura dos colegas de imprensa foi completamente distinta. O nome e a imagem da jornalista foram preservados, causando surpresa a reação adversa, agora, o que só contribui para o desentendimento entre a classe. Da mesma forma, postagens em redes sociais que expõem a vítima também só contribuem para reafirmar a falta de ética e de solidariedade. Felizmente, nem todos os jornalistas partilham da mesma opinião e, pautados na ética e na defesa dos Direitos Humanos, se manifestam publicamente em repúdio à situação colocada”.

O sindicato diz que já vinha acompanhando a jornalista, “devido a perseguições que estava sofrendo, prometendo continuar atento “às posturas de veículos e jornalistas sobre o episódio, não estando descartadas providências jurídicas futuras, bem como estamos empenhados que o criminoso seja punido e a segurança da jornalista seja garantida”. Convoca os interessados pela questão a participarem de uma reunião na quarta-feira, 22, para integrarem a sua Comissão de Direitos Humanos.

De fato, é lamentável e condenável a agressão à jornalista, vítima de violência por ser mulher e estar sujeita a esse tipo de violência, qualquer que tenha sido o pretexto do seu ex-marido. Foi também indigna a forma adotada pelo Diário do Pará na divulgação dos fatos, usando o noticiário no âmbito da sua guerra com o jornal dos Maioranas.

Mas se Dandara não fosse jornalista e se não houvesse a rivalidade selvagem entre os dois grupos de comunicação, o sindicato e os participantes da discussão do caso pelas redes sociais teriam saído das suas tocas para se manifestar? O que fizeram no curso de tanto sensacionalismo de lado a lado, ano após ano, que massacra diariamente pessoas anônimas, pobres, humildes, de bairros periféricos, sem relações com o mundo do poder, suas extensões e aderências?

Quem se interessou pelo soldado, que morreu no mesmo dia, mais uma vítima de uma violência já sem padrões ou limites, como no dia a dia de sangue, silêncio, omissão ou conivência?

Discussão

4 comentários sobre “Violência: protesto e silêncio

  1. Lucio,

    O sindicato está certo. Ele foi criado para defender os jornalistas e não o jornalismo. Eles estão fazendo o que é esoerado deles.

    A pergunta que resta é quem então defende o bom jornalismo como um bem social de grande importancia?

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    Publicado por José Silva | 18 de fevereiro de 2017, 23:48
    • Quem?
      Será que os jornalistas não se interessam pela resposta? Não se manifestam nos debates que envolvem essas questões.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 19 de fevereiro de 2017, 07:14
      • Não seria pedir muito para uma categoria que está perdendo rapidamente a auto-estima e a credibilidade pública? Por outro lado, se a categoria não defender o seu papel na sociedade, daqui a pouco não necessitaremos mais de jornalistas. A velha pergunta existencial na pauta novamente: ser ou não ser, eis a questão?

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        Publicado por José Silva | 19 de fevereiro de 2017, 10:30
      • Os jornalistas precisam retomar a disposição para a crítica, a reação, o desafio e os riscos da profissão. O exercício da profissão está muito burocratico e acomodado. Jornalismo exige disposição e dedicação integral. Ou não é jornalismo.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 19 de fevereiro de 2017, 13:59

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