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Justiça, Política

Crime em família

A investigação sobre o escândalo de Watergate nos anos 1970, que levou à renúncia do até então todo poderoso presidente Richard Nixon, num caso único na história dos Estados Unidos, tornou famosa a sua diretriz: seguir o rastro do dinheiro. Doações feitas pelo caixa 2 da campanha de reeleição de Nixon, que impôs a McGovern, do Partido Democrático, a maior lavagem de todos os tempos, seguiram por caminhos tortuosos, mas acabaram provando a participação do presidente nas tramas criminosas que iam de escuta ilegal a sabotagem.

Os franceses, mais sutis e espirituosos, fundaram seu método numa frase não menos famosa: o segredo estava em seguir a mulher do investigado, ou as mulheres: cherchez la femme.

No patriarcado ou patrimonialismo machista brasileiro, essas possíveis diretrizes não eram seguidas. O recôndito do lar era respeitado, quase sagrado, mesmo quando o investigado era um consumado canalha, que, fiel ao modelo de dominação, costumava preservar os seus entes queridos. Mulher e filhos eram poupados do ônus sem deixar de se beneficiar do bônus, para usar um parâmetro já gasto do linguajar yuppie.

Essa era acabou. Mulheres e parentes dos criminosos, acusados, suspeitos ou indiciados pela Operação Lava-Jato estão seguindo o chefe, patriarca ou provedor (em alguns casos, parceiro) . Às vezes, também presos, por se terem tornados cúmplices do autor direto dos delitos apurados.

O caso mais recente e dos mais graves, para ele, é o de Eike Batista. Preso por múltiplas denúncias de corrupção, ele também responde a uma ação na justiça americana. É acusado de desviar 572 milhões de dólares das suas empresas para uso pessoal. A revista Veja diz que seu filho Thor é cúmplice no processo. Ele teria movimentado US$ 100 milhões nas Bahamas.

O ditado – adaptado e atualizado – que agora está em cheque entre nós é se a família que rouba unida permanece unida.

Discussão

7 comentários sobre “Crime em família

  1. Pelo que se aprendeu com o Cunha, Lula e Cabral, parece que a família é essencial para que possa implementar as estratégias necessárias para desviar e usar os recursos públicos.

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    Publicado por José Silva | 19 de fevereiro de 2017, 10:24
  2. É a tradicional família brasileira e seus bons costumes expressando o que é a cultura da corrupção.

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    Publicado por Luiz Mário | 19 de fevereiro de 2017, 11:22
  3. Com certeza. No Brasil ,a família politico-partidária e a família empresarial , ambas, nas suas respectivas esferas de atuação , roubam unidas . Há estudos e provas testemunhais que remontam ao século XIX. Os(as) historiadores(as) que se ocupam da matéria sabem disso melhor do que ninguém.

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    Publicado por Marly Silva | 19 de fevereiro de 2017, 20:58
  4. Pois é, Lúcio: porque somente agora vem à tona tanta roubalheira?
    Onde estava a imprensa investigativa?
    Onde estavam os tribunais de contas (em minúsculas)?
    Onde estavam os procuradores (também), ministério público?
    Onde estavam as empresas de auditoria externa na Petrobrás, Eletrobrás, etc?

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    Publicado por Osório Jr | 19 de fevereiro de 2017, 23:28
  5. Prática corriqueira combinada no almoço do fim de semana da F. T. B.

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    Publicado por Luiz Mário | 20 de fevereiro de 2017, 17:52
  6. O poder sempre foi algo fechado, ou que se pretende manter assim, e que se intenta manter como algo hereditário ou mais próximos pelos detentores dele. Antes era era a partir de nobres e burgueses que mantinham matrimônios, e demais relações, com membros da mesma família ou de famílias poderosas de modo a perpetuar a influencia, por vezes também com instituições religiosas ou militares.
    Hoje podemos ver isso mais evidente através da politica e do meio empresarial. Na politica o poder de influencia de nomes e sobrenomes com parentes que se sucedem nos cargos. No empresariado um pouco diferente, com empresas familiares e tradicionais, mas que diferente dos anteriores, estão no âmbito particular.
    Somos um povo cordial segundo Sergio Buarque, e nos preocupamos com nossa família, nossa relação social primeva. Tanto que quando votado impeachment da presidente petista no ano passado muitos justificavam ser feito pela família.
    O filme Poderoso Chefão de Copola deixa mais evidente que mais do que as relações de sangue devem estar presentes a confiança e o compromisso. Já nos fatos reais, e em situação oposta, a historia de Pablo Escobar a frente do cartel de Medellin na Colômbia mostrava um lado cruel e astuto de um chefe, enquanto de um outro lado era um pai atencioso e preocupado, sempre interessado em afastar a família de qualquer relação com os negócios.
    Exemplos temos vários nesta vida, mas deixo evidente o do depoimento em uma matéria do JP a partir da delação de Paulo Roberto Costa remindo seus pecados justificando a aproximação das investigações em sua filha, devendo este deixar separado as relações familiares.
    Do mesmo modo Nestor Cerveró negociando com a policia deixava o filho gravar a conversa que o salvaria e colocaria um senador petista na cadeia.
    Já Eduardo Cunha já não levava em conta que deixando sua mulher como controladora de uma conta acabaria legando ela e a filha como ré em investigação, levando as justificativas de renuncia a lagrimas.
    O ultimo exemplo é o de Sergio Cabral, que envolvendo seu governo com o escritório de advocacia da mulher as tratativas por trás levariam ambos a cadeia. A prole do casal seria ainda noticiada por duas razões. A primeira, e mais noticiada é o fato da primeira dama ter ido a liberdade condicional pra cuidar dos filhos, levantando um polemica questão jurídica. Já outro filho de Cabral, mais velho, e com mandado parlamentar de vareador carioca não teria tantos motivos para sentir saudades do pai, uma vez que visitaria reiteradas vezes o pai na prisão utilizando o argumento de fins parlamentares, ao menos duas dezenas de vezes ao mês, e ai de quem reclamar.
    Foram mais exemplos políticos. Mas esse é um pedaço da família brasileira.

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    Publicado por Fabrício | 31 de março de 2017, 17:57

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