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Política

A história na chapa quente (68)

O dia depois do fim

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 268, de outubro de 2001)

Jader Fontenele Barbalho quis passar à história como um raro político do tão discriminado Norte a assumir a presidência do poder legislativo no Brasil, vencendo o homem mais influente no país naquele momento, o senador Antônio Carlos Magalhães, que até então conseguia intimidar até o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso.

Caprichosa, porém, a história registrará que o paraense sequer conseguiu tomar posse de fato na presidência, na qual permaneceu por conturbados sete meses, cedendo, afinal, às pressões para se tornar o primeiro presidente do Senado a renunciar ao cargo, em quase 180 anos de história. O ex-governador bem que merecerá o título de Jader, o Breve.

Já são poucos os que apostam na possibilidade de ele ainda conseguir salvar o seu mandato, a um ano de se submeter a uma eleição para renová-lo e a 15 meses de encerrá-lo. Mesmo os que estão empenhados em fazê-lo seguir o destino de ACM e José Roberto Arruda, que abriram mão dos mandatos para não serem cassados, o que os tornaria inelegíveis por oito anos, admitem, entretanto, que a resistência de Jader é inigualável.

Quando um político comum já teria entregado os pontos e aceitado os sinais negativos dos seus pares, o ex-presidente do Senado aparece com novo ânimo, ajudado ainda por acontecimentos de grande impacto (como o sequestro na família de Silvio Santos e o atentado ao World Trade Center), que desviam a atenção da opinião pública (mas não o bastante para a grande imprensa ignorá-lo). A estrela de Jader é brilhante, mas a boa sorte não basta para tudo.

Político que em 35 anos realizou uma carreira quase completa, de vereador a senador, sendo ainda governador e ministro duas vezes, Jader conquistou por merecimento o título de o profissional mais competente em matéria de política que já houve no Pará republicano.

Excesso de confiança

Mas se deixou levar pelos louros dessa fama, subestimando os percalços da sua biografia, com suas fraturas visivelmente expostas, quando aceitou o desafio de impor sua candidatura à presidência do Senado a quem exercia plenipotenciariamente esse cargo, o baiano ACM.

Confiante na sua notória habilidade para contornar problemas e superar desafios através da negociação de pé de ouvido ou da retórica de palanque, Jader pagou para ver. O preço veio através da mais feroz campanha de denúncias que um político brasileiro já sofreu da imprensa.

Jader podia travar o combate como um boxeador ágil e inteligente, que se esquivava com rapidez para não ser atingido. Mas cada vez que um golpe o apanhava, era a um ponto sensível, que o fazia sangrar e acusar a dor. Quando subiu à tribuna do Senado, no dia 18, ele já não tinha mais o rosto limpo, nem a disposição de antes. Era um derrotado, independentemente do resultado da luta.

Pode até conseguir, por manobras de bastidores, urdidas à sombra do Palácio do Planalto, o que já é considerado quase impossível: salvar o seu mandato. Mas não conseguirá recompor a imagem de vitorioso, que ostentou quando bateu boca com ACM e, em seguida, o derrotou na votação para presidente da casa.

Os estigmas da corrupção e do enriquecimento ilícito estarão definitivamente associados a Jader Barbalho, mesmo que, em um e outro caso, ou em vários, ele possa demonstrar que foi injustiçado ou que a pecha lhe foi pespegada sem a admissão de algo elementar: o seu direito de defesa. E que ele foi escolhido para boi de piranha, enquanto uma manada de políticos corruptos, alguns que até ocuparam também a presidência do Senado, atravessou incólume a avenida do poder sem provocar a menor atenção da combativa grande imprensa.

Mesmo que consiga reverter a tendência dominante e preservar o mandato que lhe resta, Jader não conseguirá voltar a ser um político de primeira linha no cenário nacional. O proscênio do poder brasileiro lhe foi definitivamente vedado. Ficará então irrelevante o momento seguinte ao da renúncia ao comando do legislativo federal.

O que resta salvar

Ainda que lhe restem alguns elementos de esperança, ele poderia optar por renunciar também ao mandato sem sofrer mais sequelas do que as que já lhe foram causadas. Sua tarefa prioritária será a de retomar o patrimônio político que ainda possui no Pará, a fatia maior com que conta um político individualmente no Estado, independentemente do poder institucional que eventualmente possuir.

Arrematar a primeira renúncia com a segunda poderia até ser mais interessante para Jader Barbalho, se ele conseguir voltar à sua terra com um tom convincente no discurso que deverá adotar a partir de agora: de que foi punido por ter tido a audácia de aspirar a um cargo tão importante, sendo ele apenas “um caboclo do Pará”.

Os pecados se tornarão secundários em relação à figura do pecador, punido por não ser da “panelinha”, por não ser um branco, como os poderosos de mãos finas que acabam decidindo o que interessa para valer no país, mas um rústico caboclo de cor parda.

É evidente que Jader vai empunhar essa bandeira, caso decida disputar outra vez o governo do Estado no próximo ano. Mas esse tom prevalecerá sobre a ênfase que seus adversários certamente darão ao seu envolvimento com corrupção?

O estigma que a imprensa lhe aplicou não o impedirá de reunir fontes para o financiamento de uma campanha à altura dos recursos que serão colocados à disposição do candidato oficial?

Até que a poeira sente (em quanto tempo isso ocorrerá?), Jader não será equivalente a um leproso de antigamente, do qual se buscará distância para evitar a contaminação? Tudo o que foi construído com os poderes de presidente do Senado e seus satélites de infiltração, como a Sudam, não será varrido pela máquina oficial do Estado, mobilizada em favor do adversário?

De concreto, o que se pode dizer agora, no momento mais desfavorável para o senador do PMDB, é que se sua situação em seu reduto eleitoral não é tão tranquila quanto a de ACM na Bahia, é imensamente melhor do que a de Arruda em Minas Gerais. Se não tiver seus direitos políticos suspensos por causa da cassação do seu mandato, ou se renunciar antes de deflagrado o processo de punição, Jader ainda terá opções à sua escolha.

No futuro, a queda

Seus assessores declaram que a definição da candidatura ao governo é a menor provável. Apostam que Jader irá mesmo tentar reconquistar seu lugar no Senado. Alguns já admitem o que consideram ser a mais desfavorável das hipóteses: o ex-governador disputar uma vaga de deputado federal, descarregando votos na legenda para montar uma forte bancada federal do PMDB paraense.

Qualquer que seja a decisão do ex-presidente do Senado, ela vai ter repercussão direta e importante sobre a arrumação do jogo eleitoral no Pará. Se cabeça de chapa ao governo, Jader irá liderar uma coligação reunindo alguns segmentos dissidentes (mais por fisiologismo do que por qualquer ideia) do governo e certas áreas ditas oposicionistas.

Ddividirá esse terreno com o PT e com Hildegardo Nunes, se o vice-governador mantiver a diretriz de disputar de qualquer maneira o governo em 2002 (perspectiva que sofrerá, contudo, uma drástica alteração com uma candidatura Barbalho).

Se concorrer novamente ao Senado, Jader dará à disputa dessa vaga um caráter plebiscitário, sujeitando-se a um desgaste equivalente ao da eleição para o governo e com um grau de risco, se não igual, talvez até maior, por enfrentar uma concorrência ainda mais dura no reduto situacionista.

O que aconteceria se Jader trocasse uma eleição majoritária por um pleito proporcional? Nem seus mais empedernidos inimigos seriam capazes de negar que ele se elegeria deputado federal. Não só tranquilamente, mas provavelmente com a mais expressiva de todas as votações para a Câmara Federal. Jader conseguiria essa vitória sem precisar recorrer a maiores fundos de financiamento, nem mesmo a outros compromissos políticos.

Essa condição talvez lhe permitisse recomeçar sua vida política, podendo pagar pelos erros cometidos, responder aos processos judiciais (todos – ou praticamente todos – prescritos) e usufruir um privilégio que poucos tiveram e raros levaram a bom termo: escrever uma nova biografia, não negando todos os erros do passado, mas não mais os repetindo, porque teriam realmente passado.

Arthur Bernardes, em outro contexto, conseguiu redimir os erros do autoritarismo praticado na presidência da República, sob permanente estado de sítio, tornando-se um senador defensor de ideias (embora nem sempre certas ou equilibradas). Já Ademar de Barros, Orestes Quércia e Paulo Maluf mantiveram coerência com o passado, apostando na desmemória dos homens e na lentidão ou vício das instituições para realizar uma vida bem sucedida, apesar de pontilhada de ilícitos na função pública, muito denunciados, mas não desfeitos.

Como será o day after de Jader Fontenele Barbalho?

Discussão

3 comentários sobre “A história na chapa quente (68)

  1. À década de 80 o PT considerou Jader Barbalho o politico mais corrupto de Brasil, …

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    Publicado por Erick Matheus | 21 de fevereiro de 2017, 11:01
  2. E pensar que algumas “otoridades” são o que são pelas mãos dele…..

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    Publicado por Luiz Mário | 21 de fevereiro de 2017, 17:51
  3. Pois é…não teve day after. Ao contrário, a criatura continua viva e vivíssima. Se ele escapar do escândalo Belo Monte, então nada mais o pegará.

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    Publicado por José Silva | 21 de fevereiro de 2017, 20:56

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