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Cultura

O som do silêncio

Parece que as pessoas estão se desligando dos blogs. Estão se transferindo completamente para os meios de comunicação mais ágeis e leves.  Não querem debates mais aprofundados nem se incomodar com os temas que exigem maior esforço de informação, atualização e compreensão. Querem dar recados, trocar interjeições e adjetivações. Ver imagens. Fazer selfies.

Certamente essa diáspora atinge mais profundamente um blog tão árido visualmente e tão exigente da leitura quanto este. Mas há a sensação de que atinge a todos no éter internético, ou seja lá qual nome se lhe dê.

Parece que, empenhados em cultivar o mínimo eu, numa sociedade cada vez mais narcisista e egoísta, as pessoas não querem ser perturbadas por dúvidas, inquirições e cobranças. Querem encontrar do outro lado da interlocução um espelho mágico, que só reflete imagens de felicidade, reconhecimento de beleza e louvores mil.

Mesmo os que exigem mais de si e dos outros evitam se expor através de debates, como os intelectuais, que um dia foram agentes públicos e hoje querem apenas uma carreira lustrosa e o circuito da academia dos imaginariamente melhores.

Na maioria das vezes, disparam um míssil condenatório ou de absolvição – e somem, escapando à reação. Quando estão em causa questões mais complexas, que mexem com a consciência e o dever, a fuga é imediata.Melhor o currículo (Lattes) do que a biografia no plano social. Mesmo se o seu universo seja sustentado pela contribuição tributária do Zé Mané.

Daí o silêncio incômodo sobre temas tão candentes, como o futuro da antiga Companhia Vale do Rio Doce ou decidir se deve-se ou não liberar uma mineração de ouro tão intensa e de curto fôlego como a da Belo Sun no Xingu.

Apenas alguns abnegados vão à liça ou entram na rinha, sabendo que podem haver escoriações generalizadas no embate – arriscado, mas necessário. Ou então, mais uma vez, a história será um trem lotado que não estanca para nos deixar embarcar – como os terríveis ônibus de Santa Maria de Belém do Grão Pará, queimando paradas.

No nosso caso, quem a história queima somos nós, naquilo que Dante descreveu na Divina Comédia como o purgatório, reservado ao mais inócuo dos seres humanos: os indiferentes. Aqueles que sabiam e podiam fazer, mas cruzaram os braços, taparam os ouvidos e fecharam a boca.

Discussão

30 comentários sobre “O som do silêncio

  1. É a cultura da corrupção sendo revelada?

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    Publicado por Luiz Mário | 22 de fevereiro de 2017, 10:34
  2. Lúcio,

    As pessoas não estão apenas se desligando dos blogs. Elas estão se desligando completamente da realidade nacional. A situação caótica política e econômica fez mal a alma do brasileiro. Creio que estão se sentindo incapazes de mudar a realidade e, como tal, preferem a calmaria das coisas irrelevantes, expressas nos milhões de selfies e discussões superficiais que hoje dominam o cyberespaço. Em resumo: deixaram de ser protagonistas dos seus destinos.

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    Publicado por Jose Silva | 22 de fevereiro de 2017, 11:16
  3. Vcs tem razão. O q nos assombra em tempos de pós-verdades e manipulações, será qual o porvir dessa tamanha e pavorosa alienação ?!

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    Publicado por Amélia Oliveira | 22 de fevereiro de 2017, 12:23
  4. Acho que a grande maioria já está fortemente anestesiada, pois muito se reclama, muito se denuncia e muito pouca coisa é efetivamente punida, corrigida ou resolvida. A configuração política em todas as esferas, o judiciário cooptado e a imprensa cada vez mais fraca e também cooptada potencializam essa anestesia. Pelo menos é o que vejo há tempos na cara das pessoas todas as vezes que eu pego um ônibus aqui em Ananindeua.

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    Publicado por Nilson | 22 de fevereiro de 2017, 12:45
  5. O encanto, conforme Leandro Karnal, das “coleiras eletrônicas” sobre a personalidade humana é hipnótico. Os sentidos, assim anestesiados com a fluidez de imagens, sons e superficialidades do entretenimento, reduzem a “galinhas”, seres, que têm a missão de serem águias.

    Na conformidade da zona de conforto que adormece nosso assombro e discernimento nos impedindo de acionar gatilhos de contestação e manifestação reacionária diante da entropia diuturna, seguimos, dotados de amnésia causal, fragilizados emocionalmente sem ânimo para a minima reação.

    Assim, complementando a máxima do discípulo do Poeta de Mântua, “Somos cobrados sim pelo mal que ocasionamos, mas também somos cobrados pelo bem que poderíamos ter realizado, mas não o realizamos”.

    A indiferença, nos isenta momentaneamente, mas é apenas um válvula de escape, não quita o débito de nossas responsabilidades, antes, adia para o inevitável circulo vicioso, aonde seremos irremediavelmente para nosso próprio bem, provados pela indiferença dos semelhantes.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 22 de fevereiro de 2017, 12:45
  6. Uma parcela da sociedade desfruta de uma zona de conforto forjada sob as asas dos bandidos políticos profissionais, outra, vive de migalhas. A primeira tem informações suficientes para entender o que ocorre, a segunda, se encontra num estado de prostração, sem forças, por falta de nutrientes. A primeira, adora dizer que o povo não sabe votar, a segunda, troca o voto por migalhas…

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    Publicado por Luiz Mário | 22 de fevereiro de 2017, 12:52
  7. Tecer teorias é fácil, mas na prática, o que fazer prá melhorar este cenário ?

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    Publicado por Nilson | 22 de fevereiro de 2017, 13:55
  8. Estava agora conversando sobre isso com um amigo.
    O que nossa geração tem feito é absurdamente criminoso, mas somos levados a isso, a culpa não é inteiramente nossa. Relações de troca e interesse hoje se dão por número de likes e comentários em fotos autorreferenciadas. O puxa-saquismo de antes agora se converteu em uma versão muito piorada na qual o diálogo se dá tão somente pelas redes sociais e seus afluentes. É angustiante lidar nessa chave de existência, sobretudo para quem se importa com a condição material e física do humano, da natureza, das questões sociais – mas o que fazer? Como fazer? Já tentei escapar dessa cilada mas me vejo, de quando em quando, recorrendo às redes sociais para afirmar meus pontos de vista, para compartilhar minhas crônicas – se não fosse pelo facebook elas não teriam chegado ao público de São Paulo -, meus trabalhos como ilustradora..

    A internet é uma ferramenta política muito eficaz, talvez bizarramente mais eficaz que a realidade. E quanto mais colorido ou chamativo for o espaço melhor, quanto mais bonitas forem as fotos melhor, quanto mais contatos você tiver no facebook melhor… É um jeito muito especial e triste de encobrir a amargura dessa vida real que temos vivido de forma tão passiva – e quanto aos blogs, quanto mais eles forem parecidos com a vida real, quanto mais tocarem nela enquanto tema, menos serão procurados… É mais fácil lidar com a pós-verdade, com o fragmento, com o tweet, do que tratar das coisas como elas de fato são. Será de fato a morte decretada do jornalismo? E da literatura?
    Abs.

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    Publicado por Paloma Franca Amorim | 22 de fevereiro de 2017, 14:16
    • As provocações da Paloma sao muito boas. Quem mais entra na roda?

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 22 de fevereiro de 2017, 14:40
      • Esse não é o primeiro passo para substituir a realidade pela virtualidade, tal como já previam alguns autores de ficção cientifica? O mundo está andando rápido demais, o fluxo de informação é enorme e as pessoas não tem capacidade e nem tempo de separar o joio do trigo. Em circunstâncias normais, esse seria o papel do jornalismo sério. Entretanto, as pessoas têm também dificuldades de identificar o que é o jornalismo sério, pois houve a opção da imprensa por um nivelamento por baixo devido a razões políticas e comerciais.

        Talvez esse artigo da Wired ajude um pouco a explicar a luta que os jornais consolidados estão passando para se manter viáveis em mundo digital (https://www.wired.com/2017/02/new-york-times-digital-journalism/).

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        Publicado por Jose Silva | 22 de fevereiro de 2017, 17:24
    • Olha só a Paloma descreveu exatamente o perfil dela no Facebook.

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      Publicado por Caçador de comunista | 23 de fevereiro de 2017, 21:51
      • Pode vasculhar. Perfil de facebook é público, você acha quem quiser. Ficou mais fácil caçar comunista agora que o Mark Zuckeberg faz isso pra você, né?
        Passam-se as décadas e os covardes continuam protegidos pelo mesmo véu de covardia, burrice e ignorância. Não tenho medo da sua mediocridade.

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        Publicado por Paloma Franca Amorim | 24 de fevereiro de 2017, 08:49
      • Paloma é uma pessoa maravilhosa e uma intelectual de grande valor. Lamento que seja vítima de um cidadão inquisitorial, infenso ao contrário, avesso à democracia. Tive a honra de ler e prefaciar os manuscritos de um livro que ela escreveu. Espero que saia logo para todos confirmarem o que digo.
        Este blog não é lugar para caçador de ideias. É um espaço aberto à divergência e ao contrário. Espero que essa diretriz seja respeitada por todos que aqui se manifestarem.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 24 de fevereiro de 2017, 10:15
      • Obrigada, Lúcio.
        Minha editora está com problemas – o mercado está recessivo e houve toda a quela questão no ano passado – mas conversei com meu editor essa semana e faremos de tudo para que o lançamento não passe de março aqui em São Paulo.
        Que seja uma obra da liberdade e não do aprisionamento.
        Abs

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        Publicado por Paloma Franca Amorim | 24 de fevereiro de 2017, 13:26
      • O lançamento em março, em São Paulo, já é uma boa notícia. Em Belém será mais fácil. Tenho certeza que a Débora, da Fox, apoiará.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 24 de fevereiro de 2017, 16:06
  9. Acredito que atualmente ocorre uma transição entre os meios tradicionais de jornalismo – com os blogs – e a maturação da internet em facilitar a expansão do próprio jornalismo.

    No entanto, os valores individuais da sociedade emancipada ou invisibilizada em sua alienação é que tornam a tecnologia obsoleta para afunda-la no ostracismo intelectual e a perda da percepção da realidade, mas é a mesma que estabiliza a navegação para captação da informação fidedigna ao cotidiano.

    Semelhante a Fênix da mitologia, o jornalismo bem como a literatura, sempre reascendem das cinzas dos períodos históricos obscuros da humanidade.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 22 de fevereiro de 2017, 15:15
  10. Pela democracia direta: Abstenção Já!

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    Publicado por Luiz Mário | 22 de fevereiro de 2017, 17:41
  11. POLÍTICA é a palavra chave. Ao invés da politicagem (“mão invisível” da corrupção), que há muito mantém o status quo.

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    Publicado por Luiz Mário | 22 de fevereiro de 2017, 17:44
  12. Vivemos sempre correndo, cada vez mais apressados.Atualmente temos ilusão de que estamos sempre atrasados para o compromisso mais importante da nossa vida, mesmo quando não temos nada para fazer;tanto é verdade que os textos que são usados para se comunicar nas redes sociais (um dos meios de comunicação mais usados atualmente)são todos incompletos. E um bom dia? Quem ainda é capaz de dizer ou responder a esse cumprimento tão usual? E no trânsito?…

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    Publicado por Antonio da Silva | 22 de fevereiro de 2017, 22:21
  13. Lúcio,

    Talvez sem querer, mas pela necessidade de então e em função das barreiras que lhe foram impostas na época, você tenha sido o precursor daquilo que hoje está dominando a comunicação: Jornal Pessoal. Sim, agora, com o mundo digital, cada cidadão é “dono” do seu jornal e tem, com isso, a possibilidade de se comunicar e se posicionar das maneiras mais diversas. Claro que isso é bom, mas também é preocupante devido muita gente ainda não ter o preparo para o uso correto dessa ferramenta, o que é, convenhamos, até normal pelas circunstâncias e velocidade com que essas mudanças estão acontecendo.
    Na verdade, quem se atreve a dizer qual é a melhor forma , ou a forma correta de usar essa mídia digital em todos os seus aspectos? Passamos por um momento delicado, de grandes transformações, quando quem mais sabe, vai ver daqui a pouco que não sabe de quase sada.
    É preciso ficar atento para que o Jornal Pessoal lá de trás, o blog de ainda pouco, o face de agora e a nova ferramenta que surgirá logo ali, resistam sempre para valorizar , cada vez mais, a discussão e o embate de ideias, evitando com isso que a sociedade seja anestesiada e se encante, tão somente, pelos fascínios das novas tecnologias.
    Sem o pensar, não teremos o fazer.
    Um forte abraço,

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    Publicado por Orly Bezerra | 23 de fevereiro de 2017, 09:15
  14. Este blog talvez poderia refundar a POLÍTICA, sabotada há muito pelos bandidos políticos profissionais e seus asseclas.

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    Publicado por Luiz Mário | 23 de fevereiro de 2017, 10:54
  15. Eu concordo com as manifestações acima que falam como a vida está corrida e que há pouco tempo para leituras mais demoradas e reflexões mais profundas. As redes sociais são tão coloridas e sedutoras que as pessoas esperam que as reflexões ja cheguem mastigadas por lá, esperando apenas um resumo das principais correntes de opinião, para concordar, discordar ou trolar/avacalhar. Os blogs serão moradas dos intelectuais, e estes serão como sempre foram os propagadores da cultura para o mundo de senso comum das redes sociais. Precisamos que os intelectuais não desistam e continuem a discutir idéias, mastigar, regurgitar para que os fazedores de memes as difundem no mundo real.

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    Publicado por lucasalbertosantos | 23 de fevereiro de 2017, 17:49

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