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Política

A história na chapa quente (71)

Jader Barbalho acabou?

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 269, de outubro de 2001)

Nenhum político resistiu por tanto tempo no Brasil a uma campanha tão ampla e hostil quanto Jader Fontenele Barbalho. O todo-poderoso Antônio Carlos Magalhães entregou os pontos mais rapidamente, numa situação muito mais confortável do que a do ex-governador do Pará.

Jader foi cedendo posições gradualmente, enquanto usava sua invejável habilidade para contornar os ataques ferozes e negociar um acordo, capaz de salvar algo que pudesse servir de base para o seu retorno, ao nível federal da política ou, pelo menos, ao território estadual.

Depois da presidência do Senado, ele renunciou ao mandato de senador na esperança de aplacar a ofensiva e respirar. Mas tudo indica que não conseguirá conter a ampla frente de adversários que se formou contra ele, das “viúvas” de ACM a membros do Ministério Público, do judiciário e da polícia, dispostos a ir às últimas consequências na apuração dos fatos.

Mesmo nos momentos mais críticos da via crucis descedente parecia que Jader Barbalho ainda mantinha, em algum grau, o controle da situação. Mas já começa a se tornar mais nítida a impressão de que ele pode ter iniciado um caminho sem volta para o ocaso.

Parece que a desgraça só quer começo, como filosofava o vereador Gonçalo Duarte. Homiziado em suas fazendas na área da Belém-Brasília, depois de ter mandado para Brasília a carta manuscrita de renúncia, o ex-senador foi alcançado por mais um lance de truculência de agentes de segurança.

Um deles estourou a tiros dois pneus do carro da reportagem da TV Liberal, que fazia ponto dentro da propriedade, atrás de um flagrante do casal Barbalho. Um incidente tão condenável quanto atribuir a Jader responsabilidade pela iniciativa. Entre seus defeitos nunca se incluiu o de maltratar a imprensa, exceto pela forma sutil de sonegar-lhe informações. Agredir repórteres é algo mais afim com o currículo de ACM na satrapia baiana do que na paraense.

Caminho de pedras

Qualquer movimentação que faça acarreta problemas e inconvenientes para o ex-senador, aprofundando o buraco no qual vai enterrando uma carreira política bem-sucedida até o momento em que decidiu enfrentar o establishment político, personificado em ACM.

Certamente seu primeiro suplente, o próprio pai, Laércio Barbalho, não assumirá a vaga. Com um bom álibi: a precária saúde, debilitada aos 81 anos. O segundo suplente, Fernando de Castro Ribeiro, garante que irá ocupar o lugar.

A decisão, entretanto, cabe ao senador afastado. Nele é que respingará (se é que não lhe será lançada diretamente) a lama que colegas, como a inefável Heloísa Helena, já ameaçam lançar por antecipação no ainda suplente, esperando assim inibi-lo de dar o passo à frente.

Fernando também poderá sofrer a extensão dos ataques originários do MP, da justiça e da imprensa, feitos contra o ex-titular da cadeira, em função de enriquecimento ilícito, formação de quadrilha, sonegação e outras pérolas negras do Código Penal.

Isto significará que o defunto só será declarado morto quando definitivamente enterrado, com atestado de óbito passado em cartório, ou seus restos salgados e espalhados pelo caminho de Belém do Pará, como faziam questão de reafirmar no fim de semana as três revistas de informação, em coro uníssono. Repetido por outros órgãos da grande imprensa nacional.

Deixar que Fernando Ribeiro assumisse o lugar para percorrer essa trilha de desgaste até uma cassação poderia ser até interessante. Ele é menos estigmatizado, tem um envolvimento apenas lateral nos episódios em que foi associado ao chefe e não tem qualquer aspiração política para o futuro, ao menos declarada.

Pode submeter-se a um processo de cassação disposto a ir até o fim, tornando-se o porta-voz do seu líder, realizando que ele acabou não fazendo pela convicção de que, independentemente do conteúdo do processo, sua sentença de cassação já estava escrita.

Enveredar por essa trilha significaria manter o nome Barbalho na agenda das acusações e voltar a expor seus crimes, reais ou atribuídos, sujeitos à mesma devassa de antes. De qualquer maneira, não é isso mesmo o que vai continuar a acontecer?

Pode-se imaginar para Jader nos próximos meses um enredo semelhante ao que tem definido a trajetória recente de Luiz Estevão? Alguns meses atrás era Jader quem negociava no Palácio do Planalto uma trégua em favor do ex-senador do Distrito Federal, seu correligionário do PMDB, fiado na sua condição de interlocutor necessário do presidente Fernando Henrique Cardoso. Agora, Jader está sendo colocado no mesmo lugar de Luiz Estevão e Renan Calheiros é quem participa de entendimentos na cúpula federal.

Se, nessa função, os resultados do armistício pró-Luiz Estevão foram pífios ou nenhum, melhor consequência haverá para Jader? O fracasso seria resultante do fato de FHC querer distância de políticos carimbados pelo selo da campanha anticorrupção, ou porque a frente de combate já é tão ampla que escapa ao poder de controle ou até de interferência do presidente da república?

Em busca da invisibilidade

De uma resposta satisfatória podem surgir outras respostas para a atitude que Jader Barbalho vai tomar em relação à política nacional: se tentará a volta por cima através do seu suplente ou se aceitará sumir de circulação, na expectativa de que o esqueçam. Protelaria a definição sobre a suplência pelo tempo necessário para esgotar o prazo de realização de nova eleição para o preenchimento da vaga que abriu com sua renúncia.

Qualquer que seja a hipótese vencedora, há uma outra questão cobrando elucidação: ele continuará a contar com algum beneplácito da administração federal? Mesmo que por interposta pessoa (como o senador Calheiros), vai ser ouvido e receber retornos do Planalto?

Vai manter o melhor cargo federal com que conta no Pará, entregue ao ex-deputado Manoel Ribeiro, à frente das rodovias federais no Estado, com verbas para asfaltamento e melhoria de estradas, que podem render votos?

Esse é um dos esteios com que Jader deve contar para uma campanha majoritária. Se ele pretende reaver ao menos uma parte do poder que está perdendo, por etapas, sim, mas rapidamente, em escala sucessiva e cumulativa, terá que disputar eleição majoritária.

Talvez voltar ao Senado seja mais fácil da perspectiva dos votos a conquistar, mas seria uma temeridade do ponto de vista estratégico. Ele se sujeitaria à retomada dos ataques que tem sofrido, não com a mesma abundância, mas em condições de desgastá-lo intensamente.

A hipótese mais provável parece ser a disputa do governo pela quarta vez, exceto se Jader Barbalho optar por uma tática beirando o suicídio político: não participar das eleições do próximo ano. Nesse caso, ele podia compor coligações no mais amplo espectro possível de alianças no Pará.

Uma delas podia ser com Hildegardo Nunes, garantindo estrutura partidária, reduto eleitoral e suporte financeiro para o vice-governador ser um candidato autônomo e romper com Almir Gabriel numa posição de força. Seria formada uma coligação oposicionista encabeçado por PMDB e PTB, com mais força do que as sempre desunidas esquerdas.

Sem Jader na cabeça da chapa, não haveria a polarização que o tema anticorrupção acarretaria. O líder do PMDB podia manejar nos bastidores para eleger uma bancada federal forte e conquistar maioria na Assembleia Legislativa. Mas ele resistiria a pelo menos dois anos de ostracismo, sujeito a súbitos mandados de prisão ou a seguidos depoimentos na justiça ou na polícia?

O grande teste

Quando deixou o governo, em 1987, e se arrastou por alguns meses antes de ser chamado ao  ministério de José Sarney, Jader experimentou desse fel. Seu aliado, o governador Hélio Gueiros, combinava declarações públicas de fidelidade com uma guerra de bastidores para desgastar o patrimônio político do antecessor e correligionário. Os compromissos da campanha política costumam ser esquecidos pelo vencedor já no dia da posse. Suportaria esse teste de fogo?

Para voltar por cima na sua terra Jader vai empunhar o estandarte do caboclismo. Um ensaio dessa campanha saiu na imprensa na semana passada. Osvaldo e Valéria Silva, donos de hotel e motel, patrocinaram um anúncio, “juntamente com seus 150 funcionários”, para manifestar “irrestrita solidariedade” ao ainda (então) senador, “que enfrenta com a coragem de que são dotados os verdadeiros paraenses dessa campanha fanática e vingativa em represália a sua atitude de desafiar e vencer aqueles que se julgando donos do poder não aceitam a presença do nosso aguerrido Pará no ponto mais brilhante do Legislativo Nacional”. A mensagem terminava com um compromisso: “Conte conosco para o próximo pleito”.

De fato, como presidente do Senado e terceiro na lista de sucessão do presidente da República, Jader podia multiplicar a capacidade, que já havia demonstrado, de conseguir verbas federais para o Estado e ser intermediário de interesses estaduais junto ao poder central.

O corte e costura de bastidores, ele o fez com uma eficiência que só o senador Jarbas Passarinho superou. Mas essa participação – efetiva, mas não olímpica – foi justamente um dos elementos que o arrastaram para escândalos, como a troca de incentivos fiscais da extinta Sudam por apoio político, fundos de campanha e comissões de corretagem.

Marcas comprometedoras

Não foi propriamente por defender teses e ideias em favor do Pará que ele se notabilizou, a causa da idiossincrasia da elite nacional ao seu nome. Do político de programa, que se filiou à ala dos “autênticos” do MDB na metade da década de 70, numa posição de centro-esquerda, Jader se transformou no canal de convergência indistinta de interesses públicos e privados.

Essa promiscuidade haveria de deixar pistas de ilicitude para os que rastreassem sua trajetória. Suas muitas virtudes como político se enquadraram no esquema de negócios que ele foi montando à medida que progredia na carreira, o político financiando o empresário – e o sufocando.

O homem que chegou ao mais alto nível de poder que um político do Norte já alcançou na república está deixando, na reversão dessa progressão, um acervo de constrangimentos e feitos negativamente inéditos na história. A queda está sendo mais fulminante do que a ascensão e o coice mais forte do que o suficiente, ou até merecido.

O Pará, depois de dar o primeiro político que renunciou à presidência do Senado, pode se tornar o primeiro Estado brasileiro a não poder dispor das três cadeiras asseguradas pela Constituição a cada unidade federativa, caso a indefinição sobre a substituição de Jader perdure além de 15 meses do fim do seu mandato. Senatorialmente falando, o Pará será então um Estado menos igual do que os outros.

Culpa só de Jader Barbalho? Seus inimigos bem que gostariam de que assim fosse, mas assim não é. Nem foi ainda apagado o nome do ex-governador paraense da rotina da câmara alta e já o foco dos investigadores se concentra em mais um senador paraense, Luiz Otávio Campos, integrante da banda da política que se diz sadia, em contraste com a banda podre do clã Barbalho.

Nada assegura que o “senador do governador”, de volta ao PPB, oferecerá a menor capacidade de resistir à apuração de sua participação num empréstimo do Banco do Brasil à firma do seu sogro para a construção de balsas invisíveis. Poderá ser a segunda cabeça paraense a rolar na assepsia que o Senado se viu obrigado a fazer, afastando até agora quatro dessas cabeças, algumas coroadas de poder.

Essa revisão de hábitos e correção de costumes ficará restrita a Brasília? O Pará continuará a ser um corpo estranho, fecundo, como outros úteros federativos, à má política e às péssimas elites, que dela fazem um instrumento de negócio para seus interesses?

Quem centralizar a resposta em Jader Fontenele Barbalho, condenando-o ou o absolvendo, estará servindo ao jogo dos que usam o boi de piranha para fazer a manada passar pelo rio da vida pública no Estado. O buraco é mais em cima e a culpa é muito mais ampla. Mas se é custoso remi-la, não é impossível dar o primeiro passo. A hora é esta.

Discussão

2 comentários sobre “A história na chapa quente (71)

  1. No tempo da contenda o maquiavel FHC certamente sorria em profusão….

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    Publicado por Luiz Mário | 23 de fevereiro de 2017, 11:05
  2. Não à toa, o mundo observa a biodiversidade amazônica….

    Curtir

    Publicado por Luiz Mário | 23 de fevereiro de 2017, 18:21

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