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Imprensa, Política

A história na chapa quente (72)

Imprensa invertebrada

(Textos publicados no Jornal Pessoal 268, de outubro de 2001)

Na semana passada, a Eletronorte promoveu um encontro em Belém entre alguns dos seus principais técnicos e dirigentes e a imprensa local. No início da sessão havia uma relação mais ou menos equilibrada numericamente entre o pessoal da empresa estatal e os jornalistas.

No final, a Eletronorte tinha sete técnicos no auditório da Fiepa [a federação das indústrias] contra um único jornalista. Os poucos repórteres enviados ao local foram saindo à medida que a exposição avançava. A maioria permaneceu ali apenas uns poucos minutos, o suficiente para levar uma declaração dos personagens visados.

Há pouca gente nas redações da grande imprensa paraense. Cada jornalista vai para a rua com uma pauta carregada. Para cumpri-la, os repórteres pousam em cada evento como beija-flores apressados. Voltam com as informações que essa sôfrega excursão permite coletar no rápido contato com o tema. Não podem garantir que hajam recolhido as pérolas disponíveis. Nem mesmo que entenderam o assunto sobre o qual farão relatos burocráticos.

A culpa maior por essa superficialidade, ou mesmo impropriedade documental, que se espalha como praga pelas páginas dos jornais, mais desinformando do que informando os leitores, não é dos repórteres. Eles, porém, não estão isentos de culpa.

Com o tempo apertado para tantos itens na pauta que carregam na missão, certamente não podem aprofundar as questões. Mas teriam que se obrigar a criar uma combinação de rapidez com acuidade para dar conta do desafio. O que já não se preocupam em fazer. Submetem-se docilmente a essa mecânica da irresponsabilidade.

Quanto às empresas, descuram completamente das suas responsabilidades para com a opinião pública. O Pará é o quinto maior produtor e o terceiro maior exportador de energia do Brasil. Sua importância nesse setor deverá crescer ainda mais nos próximos anos.

Logo, o tema é crucial para os interesses do Estado. A principal empresa energética, a Eletronorte, tem sede em Brasília (é a única do sistema Eletrobrás a nascer e se manter nessa anomalia: ter sua matriz fora dos limites da sua jurisdição). Não dá ao Pará a importância que ele tem para si e para o país.

Excepcionalmente, porém, a Eletronorte decidiu sediar em Belém um encontro específico com a imprensa. Trouxe para cá profissionais de alta competência, em condições de responder a todas as perguntas que lhes fossem feitas (se satisfatoriamente, é outro aspecto).

A imprensa não podia considerar esse fato como prosaico ou irrelevante, embora sem render anúncios ou coquetéis. Tinha que mandar gente com alguma qualificação e tempo suficiente não só para repassar ao leitor tudo de importante que fosse dito no encontro, mas também para instruir a si própria.

Se o setor energético é e será cada vez mais vital ao Pará, desenvolvendo-o ou consolidando-o como província energética (nacional e mundial), a imprensa precisa ter profissionais capazes nessa área.

O que se viu, porém, foi um espetáculo melancólico: apenas dois repórteres acompanharam toda a exposição dos técnicos da Eletronorte, com um time bem maior (no palco da exposição ou no banco de reserva) do que o da imprensa, para cuja informação aquela sessão fora organizada.

Na fase dos debates, o grande auditório tinha apenas um jornalista, cercado de técnicos da empresa por todos os lados. Momento excepcional para esse solitário repórter, que teve ao alcance de suas dúvidas tantos profissionais de uma estatal normalmente claudicante no trato com a imprensa, mas triste para a dignidade do jornalismo.

Se a imprensa paraense não pode investir nessas ocasiões um dos seus profissionais, com a agenda inteiramente dedicada ao assunto, não merece o respeito dos cidadãos que habitam esta fantástica fronteira. Eles fazem patéticos esforços para escrever sua história, evitando o destino colonial para o qual conspira a incúria e o despreparo dos que têm poder decisório em uma das principais trincheiras da formação da opinião pública: as redações da imprensa.

Ou elas se reduziram a meras quitandas de negócio?

Sem interlocução

Diga-se em favor da Eletronorte: se desta vez a opinião pública paraense se mantiver desinformada sobre mais um grande projeto, a culpa não será da estatal, reincidente em autoritarismo em vários episódios anteriores.

Nos últimos dias a empresa fez exposições sobre a hidrelétrica de Belo Monte para engenheiros, arquitetos, jornalistas e advogados. Dispôs-se a responder perguntas pelo tempo que fosse necessário e atender todos os que se manifestassem. Teve que se circunscrever ao espaço limitado do auditório e a uma agenda com graves lacunas.

Preso à vocação colonial que lhe impuseram, o Pará não está habilitado a enfrentar com competência os temas mais importantes da sua história imediata, mal vislumbrada nas névoas do cotidiano. Questões da amplitude da biodiversidade, da extração de minérios, do melhor processo de transformação das matérias primas, do uso inteligente da energia, do circuito internacional de mercadorias e alguns outros ainda são tratados de forma acanhada.

São vistos numa perspectiva provinciana, sem conexão com seus elos mais profundos e mais distantes, que, nem por isso, são invisíveis (embora só visualizáveis quando encarados por prismas adequados). A rota do dia-a-dia do Estado segue em paralelo, por baixo, rasteiramente, à linha das grandes decisões sobre o aproveitamento dos seus recursos.

Lembro quando, no auge da discussão sobre a localização da metalurgia de alumínio, toda a diretoria da Salobo Metais desceu do Rio de Janeiro em Marabá. Estava disposta a enfrentar todos os questionamentos do lugar que disputava a instalação da indústria, na época com investimento previsto de dois bilhões de dólares. Os presentes não foram capazes de fazer a única pergunta que iria colocar em pratos limpos as alternativas locacionais da fábrica.

Nem sempre é suficiente estar cheio de indignação, proclamar-se o intérprete da história ou buscar inspiração na boa causa: é preciso armar-se das informações necessárias, em amplitude, profundidade e atualidade.

Como ter essas informações à mão, a tempo e a hora, se o Pará não tem consciência de sua posição como Estado minerador, província energética e supridor de matérias primas? Se tem muitos minérios no subsolo, mas não a cultura da mineração? Se de seus rios sairá cada vez mais energia, mas a energia é tema doméstico nas suas preocupações?

Será impossível conciliar a agenda do Estado com o da sua história? Tomando como base a reconstituição da continuidade da tradição colonial das fronteiras mundiais, a resposta talvez seja sim. Mas pelo menos se nos impõe o dever de tentar o contrário.

Pior do que o que se calou, como diz Drummond num dos seus poemas, é aquele que nunca falou. Quantos no Pará já falaram? Quantos parecem ter nascido calados e assim se mantêm sempre? Somos um pouco de surdos, mudos e eunucos?

Lapso

O Liberal publicou no último dia 2 matéria sobre a reabertura oficial do Colégio Estadual Paes de Carvalho, depois de uma ampla reforma do prédio. Durante o ato de entrega, o governador Almir Gabriel “recebeu os cumprimentos do ex-governador Aloísio Chaves. ‘Depois de mim, ninguém havia posto nem um prego aqui’, afirmou Chaves a Gabriel, numa crítica aos governos anteriores”, registrou a notícia do jornal.

Três dias depois a família de Aloysio da Costa Chaves publicou anúncio fúnebre no mesmo O Liberal, convidando parentes e amigos para a missa  em memória do ex-governador, que morreu há sete anos, como é público e notório.

Não me lembro de ter lido antes uma matéria com essa “barriga”: um jornalista entrevistar um morto, ou atribuir a um entrevistado vivo a identidade de um morto, ou colocar na boca de um morto as declarações de um vivo. Qualquer repórter pode se vacinar contra esse erro desconcertante perguntando pelo nome das pessoas, entrevistadas ou referidas, consultando uma segunda fonte quando em dúvida e tendo o cuidado de grafar corretamente o nome fornecido.

Mais do que rir, deve-se chorar diante deste novo feito conseguido por O Liberal: publicar uma matéria psicografada. Outro Guiness para a folha dos Maioranas. Sem a intenção de consegui-lo, nem direito a comemorá-lo.

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