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Cidades

Belém nua

O cotidiano da cidade já não ajuda, mas na temporada de chuvas a visão se torna ainda mais tendenciosa: as mangueiras não são a arborização recomendável para Belém. Elas são pesadas altas, de copas frondosas. Sujam as ruas, prejudicam a fiação de energia, bloqueiam ou dificultam a saída de carros das moradias, seus frutos atingem pessoas e veículos, causando prejuízos e ferimentos – e todos os anos desabam. Melhor exterminá-las. E elas são sistematicamente exterminadas. É uma guerra silenciosa, mas efetiva.

Mesmo pessoas capacitadas e inteligentes acabam se deixando levar por essa perspectiva comodista, de curto prazo e viciada pelo bitolamento da questão urbana. Como o engenheiro agrônomo Jonas Veiga, por quem tenho apreço e admiração.

Ele escreveu no meu Face:

A prefeitura de Belém tem que urgentemente fazer um serviço sério de abate de todas as mangueiras que ameaçam a população, principalmente na estação chuvosa que este ano está sendo muito rigorosa. A médio-longo prazo, tem que fazer um esforço amplo pra substituir a arborização da cidade usando outro tipo de árvore, de porte mais apropriado à infraestrutura urbana moderna.

A fama de Belém de ser a cidade das mangueiras poderia ser preservado, mantendo essa arborização em alguns poucos logradouros no centro de Belém, com um constante trabalho de controle e manutenção”.

Extermínio silencioso

O quadrilátero das mangueiras não aumenta há muitos anos. Para mim, Belém ficará ainda mais insuportável do que já está sem elas. O que precisamos é fazer alguma adaptação da nossa vida predatória às maravilhosas árvores, que nos dão clorofila, sombra, temperatura mais agradável, cor, odor e frutos o ano inteiro.

Não basta podá-las de vez em quando, combater parasitas e predadores de vez em quando, eliminar as que estão condenadas (nunca esquecendo o replantio necessário) se suas raízes não são protegidas, seu espaço vital preservado e seu monitoramento se tornado constante, através de um serviço florestal específico.

Já sugeri um projeto a respeito inúmeras vezes, repetindo a proposta nesta temporada de inverno com oito quedas de árvores. Nenhuma resposta. A tática oficial é, pelo silêncio, ir ponto abaixo as indesejáveis árvores. Para essa manobra contribui a conivência, a omissão e a visão míope dos belenenses.

Uma cidade que ficou conhecida pela sua exuberante e típica vegetação e dispensa esse patrimônio merece mesmo é ficar exposta completamente ao sol e à selvageria disfarçada de esperteza da vida urbana.

Discussão

10 comentários sobre “Belém nua

  1. Perfeito, Lucio! Dizer que as árvores sujam as ruas e ameaçam carros e pedestres… Argumento tosco para não aprender a conviver com a beleza e seus frutos. É como disse Raul Seixas numa entrevista depois de seu carro ser parcialmente destruido pela ressaca do mar: “a onda tá certa; nós é que avançamos mar adentro”.
    Em Araruama, no estado do Rio, a rua principal foi completamente replantada com coqueiros que dão frutos, a 200, 300 metros da praia. É só colher, abrir e comer e berber. Onde foram parar todas as árvores frutíferas das cidades? Nunca mais vi um pé de carambola, antes tão tradicional no Brasil. Jambeiras, abacateiros, laranjeiras… Haja feira pra comprar, por 5 ou 10 Reais, um quilo de fruta que antes era de graça…
    Monitoramento, cuidado e preservação de nosso patrimônio.

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    Publicado por Epictetos | 28 de fevereiro de 2017, 13:04
    • As mangueiras têm contra elas a Celpa, a Cosanpa, os terceirizados dos serviços públicos essenciais, as construtoras imobiliárias e o poder público, dentre outros.
      Sou favorável, por exemplo, a manter o largo canteiro central da antiga 25 de Setembro (agora Romulo Maiorana). Mas também defendo a criação de uma associação de moradores da avenida para cuidar do jardim e criar nele um verdadeiro bosque. A prefeitura prepararia todo processo de criação da associação, desde o cadastro de todos os moradores até a regularização jurídica da entidade. Depois, lhe imporia um contrato de gestão, com controle externo, para que ela cumprisse suas obrigações como contrapartida ao privilégio de ter uma via pública diferenciada no conjunto de uma cidade árida, monopolizada pelo carro. Se não cumprisse o contrato, a prefeitura extinguiria tudo e aumentaria a faixa de circulação de carros, tão amplamente defendida por quem não tem esse necessário privilégio.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 28 de fevereiro de 2017, 15:40
  2. Dentre os beneficios proporcionados pelas mangueiras, seus frutos poderiam ser colhidos e “processados”, convertendo em polpas naturais, ou mesmo, por meio, de projetos com cooperativa urbana para aproveitar a polpa como doces em compotas.

    Afinal, todo ano a safra das frutas excede a demanda, ou mesmo está caindo no desinteresse da população. Diante da riqueza natural, as mangueiras fixas como testemunhas nas calçadas, observam os transeuntes alheios ao beneficio mutuo da convivência na floresta de rocha, ferro e aço.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 28 de fevereiro de 2017, 13:22
  3. Ha tantos tipos de mangueiras que eu não tenho dívida alguma que deve existir uma variedade adequada para substituir as nossas árvores centenárias a medida que elas forem morrendo. A grande questão será saber se os periquitos gostarão do sabor do fruto da nova variedade.,.Temos que combinar com eles.

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    Publicado por José Silva | 1 de março de 2017, 01:24
  4. Em parte, as birras contra as mangueiras vem do fato que muitos estabelecimentos comerciais fazem das ruas estacionamentos.

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    Publicado por Luiz Mário | 1 de março de 2017, 09:32
  5. Em meu tempo de menino, fiz minha parte. Comia todas as mangas que podia na rua. E ainda chegava em casa com um saco cheio pros meus irmãos.

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    Publicado por Pedro Pinto | 1 de março de 2017, 12:36
  6. o bom do blog(e do seu Face) é a permissão da diversidade de opiniões. Cito no caso, um dos grandes incentivadores da reposição das mangueiras em nossa cidade, o religioso marista Ir. Afonso Haus, com saudosa passagem por aqui. Um dos amantes de nossa cidade e certamente grande interessado na presença marcante da natureza no meio urbano, marcou com brilho sua permanência em Belém. Com certeza, comigo junto, estariamos prontos para esganar o primeiro aventureiro que se atrevesse a cortar nossas belas árvores.

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    Publicado por ARLINDO OCTÁVIO DE CARVALHO NETO | 1 de março de 2017, 13:23

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