//
você está lendo...
Índios, Cultura

Oa índios do Xingu na folia

Reproduzo a carta que o sociólogo paraense Orlando Sampaio Silva, há muitos anos residindo em São Paulo, enviou ao filho e à nora, a propósito da homenagem da  Imperatriz Leopoldinense aos índios do Xingu. Orlando agradeceu em nosso nome pela iniciativa da escola de samba carioca.

Meus queridos filho Márcio e nora Ariani,

Considero que a Imperatriz Leopoldinense e todos vocês que participaram desse projeto majestoso prestaram a mais simbólica homenagem aos povos indígenas que já se concretizou em nosso país.

Inteligente, artística, criativa, extremamente significativa, de grande beleza, deslumbrante. O desfile carnavalesco do sambódromo carioca (minha homenagem ao idealizador e concretizador desta obra, Darcy Ribeiro) é um megaevento que integra uma festa, que já foi dominante e originariamente popular, mas que, com o passar do tempo, se tornou quase um inacreditável por ser grandioso espetáculo capitalista, que está voltado para o Mundo, como um instrumento de atração turística, de interesse de empresas financiadoras, de hotéis, de companhias de aviação, da imprensa principalmente a televisiva.

Trata-se de uma festa báquica [referência a Baco, o deus grego, aqui no sentido de orgia, festa]  antiga, que é praticada por muitos povos em culturas diversas. Apesar do caráter comercial e da indústria do carnaval, a centralidade temática do desfile da Escola de Samba “Imperatriz Leopoldinense”, com a presença de numerosos representantes indígenas de diferentes grupos étnicos, inclusive com a figura mítica do tuxaua-pajé Rauni e outros líderes, participantes com efetivado destaque na apresentação, é de grande significado humanístico, político e antropológico.

A entidade carnavalesca adotou a posição de solidariedade com as causas indígenas, dos ribeirinhos, da Amazônia e do povo brasileiro, que testemunham o avanço do agronegócio sobre as terras do interior do país, destruindo ecossistemas, inclusive a floresta amazônica.

Concomitantemente, o projeto desenvolvimentista dos governos promove ao primeiro plano das prioridades nacionais a produção de energia elétrica, com a construção de dezenas de barragens-usinas, sem levar em conta a mal que está causando às sociedades particulares, indígenas e não indígenas, que são destroçadas de roldão com o avanço das obras.

A exploração das riquezas naturais vegetais e minerais por empresas nacionais e estrangeiras, estruturadas ou marginais à lei, vai transformando a Amazônia, com seu manto florestal e hídrico, no Saara Amazônia. Isto eu tenho dito em diferentes oportunidades e imagino que, em cinquenta anos, se não houver mudança de rumo, o Brasil, o mundo e o povo brasileiro entristecido constatarão a concretização desta antevisão, que não é pessimista, é realista, objetiva. O progresso-desenvolvimento capitalista não tem ética, não projeta tendo em vista as realidades concretas do povo e suas necessidades prementes; apenas, o interesse no lucro desvairado.

Pois bem, a Imperatriz Leopoldinense é um agrupamento musical, de expressão carnavalesca, originariamente da região da Leopoldina, subúrbio carioca. Sua origem é popular. O povo permanece nela, muito embora a grandiosidade do espetáculo exija a participação dos patrocinadores, dos que financiam. Não importa. A entidade se engajou em uma ação de enfrentamento com os inimigos dos povos indígenas e do povo brasileiro como um todo.

Parabéns à Imperatriz Leopoldinense, a você, Ariani, e a ti, meu filho Márcio, que têm participado, tão valentemente e com grande idealismo pleno de sentimento humanista e de solidariedade, dessa jornada épica do povo brasileiro contra seus inimigos.

Beijos do pai e sogro

Orlando

Discussão

7 comentários sobre “Oa índios do Xingu na folia

  1. Parabéns mesmo. Um respiro em meio a toda a barbárie das celebridades e da mercantilização do carnaval.
    Amanhã a quarta-feira é de cinzas mas, como sempre, valeu à pena.
    Abs

    Curtir

    Publicado por Paloma Franca Amorim | 28 de fevereiro de 2017, 20:24
  2. A homenagem foi merecida e a mensagem bem clara. Creio que os Dilmistas de plantão devem ter se enterrado de vergonha pelas consequências nefastas da obra maluca concebida pela nossa ex-presidenta.

    Curtir

    Publicado por José Silva | 1 de março de 2017, 01:19
    • Ela já pegou o prato feito. Na verdade, o desenho final de Belo Monte é um produto da democracia brasileira. O projeto original é um dos últimos suspiros da ditadura, semelhante ao de Tucuruí, a última obra inaugurada pelo derradeiro general-presidente, João Figueiredo. As mudanças a partir daí foram feitas para contornar as críticas aos impactos sociais e ecológicos da barragem. Belo Monte virou um Frankenstein, que funciona, graças à engenharia, mas a um custo elevado (custo agravado pela corrupção, em investigação pela Operação Lava-Jato.

      Curtir

      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 1 de março de 2017, 06:55
      • O prato estava feito, mas ninguém queria servir por causa dos conflitos com as populações indígenas, etc. Por isso o plano nunca tinha saído do papel. Se não fosse a Dilma gerentona, o elefante branco nunca teria sido construído, pois foi ela que puxou a agenda dentro do governo Lula junto com a máfia maranhense. A expectativa seria que o setor privado pagaria tudo. Entretanto, nenhuma empresa topou. O único jeito de continuar a maluquice foi jogar dinheiro do BNDES na obra para proteger as empresas do risco de prejuízo. Associe a essa história o alto nível de corrupção, incluindo as ações do Delfim Neto, e temos uma das maiores maracutaias da história desse país.

        Curtir

        Publicado por José Silva | 1 de março de 2017, 08:56
      • Tudo está certo. Mas é preciso acompanhar a ginástica da engenharia para reduzir o reservatório principal, criar outro reservatório complementar, fazer os imensos canais de concreto, colocar a casa de força a 100 quilômetros do vertedouro, etc. Tudo a um custo elevado, tornando a usina antieconômica.

        Curtir

        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 1 de março de 2017, 12:07
  3. O Pará precisa repensar o turismo. Focar na cultura indígena, na fauna/flora é preciso. Uma aldeia indígena em Belém similar a que visitei na Nova Zelândia ( maoris). Núcleo para um intercambio internacional dos povos indígenas do mundo (artesanato, jogos, medicina, …).

    Curtir

    Publicado por valdemiro | 1 de março de 2017, 07:08
  4. Ler o livro de André Nunes, a batalha do riozinho do Anfrisio, é preciso …

    Curtir

    Publicado por valdemiro | 1 de março de 2017, 07:11

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: