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Colonização, Estradas

A impertinente chuva

(Artigo publicado hoje no site Amazônia Real)

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte do governo federal espera restabelecer o tráfego na rodovia Cuiabá-Santarém na sexta-feira, 3. Embora garanta que suas equipes trabalham a pleno vapor no local, condiciona o cumprimento da promessa a um fator superveniente: a chuva.

Chuva intensa é presença certa em grande parte do território amazônico entre os meses de novembro e abril, ou mesmo maio. Pode ser que de um ano para outro chova ainda mais do que o normal nesse típico inverno tropical. Todos, porém, se preparam para o semestre intensamente molhado. Menos as autoridades.

Mais uma vez elas são surpreendidas pelas rodovias federais intransitáveis. Chocantemente intransitáveis, como mostraram as imagens das emissoras de televisão. O cenário parece ser o de uma abertura pioneira, não de uma obra que já tem 40 anos. Exibem centenas de caminhões paralisados porque há imensos atoleiros formados pela ação de chuvas pesadas sobre areia ou argila, sem outro revestimento.

É uma imagem comum desde os anos 1960, com maior frequência na década seguinte, quando Brasília mandou rasgar trilhas na floresta densa para integrar por terra a Amazônia ao Brasil (e não entrega-la à cobiça internacional, no acréscimo ufanista da ditadura militar supostamente nacionalista), ou torná-la o local da transformação do deserdado homem do campo de outras regiões (especialmente do Nordeste) em classe média rural, nos fracassados projetos de colonização do Incra.

Brasília ignorou solenemente que a maior bacia hidrográfica do planeta, com 20 mil quilômetros de vias navegáveis, é a amazônica. Uma extensão de dimensão equivalente de estradas de rodagem surgiu nos espinhaços de terras mais altas da Amazônia. Por elas se imnfiltrou o maior desmatamento de toda história da humanidade, os maiores conflitos de terras do país, legiões de pistoleiros, sofridos fluxos migratórios e os mais profundos efeitos da ação humana numa fronteira nacional.

O mais lógico e racional seria “desinventar” as estradas. Mas é impossível aplicar a lógica ficcional de Alice no país das maravilhas ao Brasil surreal, absurdo, incivilizado, onde o evidente de torna, no mínimo, duvidoso. Já que o mal está feito, por que não dar melhores condições aos que dele se beneficiam decentemente, honestamente, operativamente, como motoristas de caminhão, donos de estabelecimentos comerciais, moradores de aglomerações precariamente urbanas e todo espectro humano multiplicado por essas paragens de um Brasil esquecido e abandonado?

A força dos pragmáticos é posta em questão quando desabam os torós amazônicos e tudo para nas pistas substituídas por lama espessa, pântanos artificiais. Nem por isso as utopias das organizações sociais e seus aliados no mundo oficial se materializaram. A BR-163 sustentável é prosopopeia. Um ou outro empreendimento de curta duração e precária capacidade de servir de extensão. Não uma mudança significativa.

Que luz da razão pode sobreviver a uma semana ou mais de paralisação num ambiente hostil, dentro de carros, ônibus e caminhões congelados pela aleatória intempérie. A carga que se deteriora ou logo se perde, os negócios prejudicados ou arruinados, a paciência eliminada, a paz no fim, o desespero e a revolta no ponto de explosão.

No comunicado que emitiu, pressionado pelas imagens da televisão e a repercussão pelas redes sociais, o DNIT informou que a chegada do Exército e da Polícia Rodoviária Federal ao cenário em vias de convulsão “está permitindo a execução dos serviços de manutenção da rodovia pelas equipes” do departamento.

Elas mantêm “a ordem”. Embora tenham chegado para atender as milhares de pessoas retidas na estrada, sob condições totalmente desfavoráveis, não são recebidas com boa vontade. A situação se repete quase todos os anos, com as mesmas providências de emergência e iguais promessas.

A promessa da safra deste ano é asfaltar mais 60 quilômetros a partir do fim das chuvas e em 2018 os 20 quilômetros que ainda faltam para completar os 1.006 quilômetros entre a divisa com Mato Grosso e Santarém, no Pará, percurso equivalente ao trecho mato-grossense.

Aí estaria completada a rodovia da soja, que escoa do planalto central até os portos de embarque para o exterior, no norte do país, o segundo principal produto de exportação do Brasil e o que mais conflitos sociais e ambientais está provocando na área de expansão do cultivo na Amazônia. Isto é, se os trechos já asfaltados estiverem em condições de funcionar melhor, em função do desgaste que já sofreram pelos elementos naturais e a desídia dos homens.

Se não chover tanto e se as previsões forem confirmadas, o diretor geral do DNIT, Valter Casimiro Silveira, irá à BR-163 nesta sexta-feira. Se não, permanecerá em Brasília, à espera de meteorologia melhor. Como sempre.

Discussão

4 comentários sobre “A impertinente chuva

  1. Os rios, as nossas estradas naturais, não geram dinheiro para o caixa dois das campanhas. Por isso a navegação fluvial nunca teve muito incentivo do governo federal. O projeto da BR-163 sustentável foi assassinado pela Dilminha, com todo a raiva que ela sentia pela Marina. O plano era bonitinho, mas a gerentona de aluguel não gostava nada que tivesse sido pensado ou articulado pela companheira do Acre. Deu no que deu. A Dilma foi a pior coisa que aconteceu para a Amazônia nos últimos 30 anos.

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    Publicado por José Silva | 1 de março de 2017, 22:44
  2. Apenas os Batalhões de Engenharia de Construção, detém o know-how para recuperação, terraplanagem e pavimentação das rodovias amazônicas. Além da BR163, a BR319 (Porto Velho/Manaus) e a BR364, de Rio Branco até o municipio de Cruzeiro do Sul no Acre, ambas as três tornaram-se verdadeiras vicinais.

    Realmente, as precipitações pluviais neste “inverno amazônico”, estão seguindo um ciclo diversificado do apresentado no mesmo período em 2016.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 1 de março de 2017, 23:13
  3. Tragédia anualmente anunciada, como tantas outras, para exercitar a politicagem (“mão invisível” da corrupção)

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    Publicado por Luiz Mário | 3 de março de 2017, 08:53
  4. Além de chuvas, o que não é pouco, pequenos sismos detectados no Pará complementam o cenário nostálgico que na Amazônia ganha contornos de normalidade.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 3 de março de 2017, 21:49

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