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Cidades, Política

A história na chapa quente (75)

Duplicidade

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 270, de novembro de 2001)

O prefeito Edmilson Rodrigues usou o excepcional espaço que lhe foi concedido no programa Bom dia, Pará, da TV Liberal, nas vésperas do Círio, para “foguetear” as obras que iria inaugurar antes da passagem da fenomenal massa de romeiros atrás da berlinda de Nossa Senhora de Nazaré, um dos maiores auditórios do mundo.

Como, não propriamente por acaso, a prefeitura presenteara os veículos das Organizações Romulo Maiorana com generosa publicidade oficial, a entrevistadora do alcaide deve ter-se inibido de fazer as observações pertinentes às declarações do entrevistado. Deixou-o se expandir em seu eterno discurso de palanque, no estilo que mais o agrada: o monólogo.

Em outras circunstâncias, a entrevistadora poderia perguntar: por que inaugurar uma obra ainda inconclusa, como o elevado Paulo Foneteles, parte de uma obra mais geral, o complexo viário da Bandeira Branca (indevidamente batizado de Carlos Marighella), sobre cuja realização ninguém pode adiantar nada a sério neste momento?

A situação criada por esse açodamento é surrealista: festa num dia, no dia seguinte, volta a obra à sua realidade, de trabalho em andamento; polêmico andamento, aliás.

Na segunda visita que fiz a Santos, 32 anos atrás, me chamou a atenção um viaduto (viaduto mesmo, não apenas elevado) à margem da estrada de acesso à capital da baixada santista. Não havia estrada alguma de contato com a obra de arte, inacessível, como se fora um monumento ao irracional. No caso, ao cinismo obreirista (e “comissionado”) de Ademar de Barros.

O elevado do prefeito de Belém não chega a tanto. À parte essa sofreguidão publicitária e esse aproveitamento descaradamente eleitoreiro, que insulta a inteligência dos munícipes, o que impressiona é a pouca utilidade atual da obra e sua quase nenhuma serventia no futuro.

Ao observar o elevado, ninguém precisa de olho clínico para concluir que em pouco tempo o fluxo de veículos provocará congestionamento tanto na entrada quanto na saída da via. Ela ocupa uma das pistas de uma avenida que, mesmo com todas as quatro faixas, não dá conta do recado. Justamente para desafogá-la é que foi concebido o tal elevado, que, assim, se anula pela má concepção de origem.

As razões do sucesso serão também as do fracasso do elevado: se ele atrair a opção dos motoristas, deixará de ser uma alternativa para o cruzamento de duas das principais artérias da cidade. Não dará conta do fluxo da Doutor Freitas e sobrecarregará a Almirante Barroso. Teremos então mais engarrafamento, inclusive no alto da obra, de bitola estreita(só permite um carro de cada vez) e curva fechada, um fator de redução de velocidade e de elevação do risco de acidente para motoristas mais impetuosos ou desatentos.

Estas objeções, feitas com os melhores propósitos, só têm razão de ser porque a realidade teima em não se encaixar no discurso do alcaide. Ele diz uma coisa. Os fatos são outra coisa.

Discussão

4 comentários sobre “A história na chapa quente (75)

  1. LPP, qual a sua avaliação do elevado depois de vários anos? Suas predições se confirmaram?

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    Publicado por Jose Silva | 2 de março de 2017, 20:04

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