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Política

A história na chapa quente (76)

O governador do governador

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 272, de dezembro de 2001)

Um candidato já está em plena campanha pela disputa do cargo de governador na eleição do próximo ano: é o secretário especial da produção, o economista Simão Robson Jatene, o nome oficioso do PSDB. Suas andanças pelo interior do Estado se tornaram completamente desenvoltas nas últimas semanas, contando com todos os benefícios da máquina oficial, em função do apoio do governador Almir Gabriel.

O governador não apenas manifesta simpatia cada vez mais explícita pelo seu favorito. Também afasta ou hostiliza todos os concorrentes, declarados ou insinuados. Já tirou do seu palanque o vice-governador Hildegardo Nunes, do PTB, com quem se incompatibilizou, e colocou para escanteio o prefeito de Ananindeua, Manoel Pioneiro, do PSDB.

Jatene deixou de ser carregado pela administração estadual como uma mera opção de candidatura: já agora é o nome da coligação oficial para 2002. Só não estará na cabeça da chapa se não quiser, se desistir até abril ou se algum daqueles bem conhecidos – mas sempre evitados – acidentes de percurso interromper sua trajetória. A hipótese é tão remota que as alternativas nem estão sendo cogitadas.

Sua candidatura deixou de ser um ensaio, sujeito ao teste de consistência e ao veredicto das pesquisas de opinião, ou ao referendo dos seus pares da situação. A ordem do governador é para encorpar politicamente o nome do seu escolhido, fazendo-o “pegar”, nem que seja à força dos empurrões da engrenagem pública estadual.

Ao mando do chefe

Jatene “é o homem”. Para a vitória, acredita o médico Almir Gabriel. Mesmo com o fiasco da candidatura de Zenaldo Coutinho à prefeitura de Belém, ele está convencido de ter respaldo popular, além de recursos financeiros, para tirar Jatene da posição de aspirante sem expressão à sua sucessão.

O “novo Pará”, produto de obras já realizadas, em andamento ou projetadas, não é mera retórica na mente do governador. Incensado por uma corte perfeitamente advertida para o tom monocórdio e monoglota do chefe, o doutor Almir já não tem dúvida de que o Pará dos dias atuais pode ter uma nova referência demarcadora: AA e DA. Ou seja: Antes de Almir e Depois de Almir.

Da mesma maneira, credita a Jatene, teórico do “modelo” e vanguarda da retaguarda administrativa, parte considerável desse imaginado sucesso, com inequívocas manifestações em sua reeleição contra o poderoso Jader Barbalho e na sagração de Luiz Otávio Campos como senador, deixando o ex-governador Hélio Gueiros comendo poeira no terceiro lugar, atrás da petista Ana Júlia Carepa.

O governador quebrou unilateralmente o compromisso verbal que assumiu com os pretendentes à indicação, de deixar espaço em aberto até abril para a livre disputa dentro da coligação que o apoiou. Ao desequilibrar esse jogo em favor de Jatene, Almir Gabriel fez uma clara escolha pela continuidade do seu governo, com o máximo de identificação entre o chefe que sai e o que vai entrar.

Depois de oito anos de mandato, Almir só foi superado nesta fase republicana por Alacid Nunes (que ocupou o cargo por nove anos), e igualado a Jader (também com oito anos). Mas com uma vantagem sobre ambos, a de ter ocupado a chefia do executivo em períodos sucessivos e não alternados.

A tentativa do “almirismo”

Com esse capital, Almir Gabriel pretende passar o cetro a alguém de absoluta confiança, em 2003. Talvez imagine estar assim consolidando um novo neologismo na política paraense: o almirismo.

Simão Jatene foi preparado e favorecido – e, se tudo der certo, virá a ser escolhido –, por ser o guardião dessa continuidade, talvez para a perpetração de uma façanha: a volta de Almir Gabriel ao governo, em 2006, antecedida pela entronização de um tucano (ele próprio?) na prefeitura de Belém, em 2004. Para essas intenções se materializarem, a eleição do próximo ano é o momento chave.

Se o que interessasse fosse apenas ganhar, certamente o governador escolheria alguém com um perfil mais ajustado ao jogo político, com maior densidade eleitoral e menos incompatibilidades prévias. Jatene, marinheiro de primeira viagem eleitoral, está acostumado a não sair do passadiço dos oficiais.

É de lá que dá  ordens ou faz baixar éditos e proibições, indiferente às reações da marujada. Daí não se ajustar ao molde político. Qualquer outro nome, no entanto, discreparia do objetivo principal do governador: deixar à frente do governo um clone seu (ou vice-versa, não se consegue definir com absoluta precisão).

Políticos dotados de bons marqueteiros, cofres em alguma medida abonados e uma corte empenhada em mostrar serviço têm costumado se considerar capazes de eleger um poste. Nestes termos, a eleição de Jatene deixa de ser tão impossível quanto seus adversários, extra e intrapalacianos, consideram. Poste, ele não é.

Colocando-o nas ruas mais cedo do que todos os outros e com meios incomparavelmente superiores, o governador quer ao menos diminuir o fosso que ainda o separa das alternativas eleitoralmente mais expressivas. Se conseguir acabar com esse fosso até abril, aposta na eficiência da máquina pública no desafio alquímico de transformar obras em votos e em fundo de campanha para passar à frente dos concorrentes.

No momento, a boa equação ainda depende de duas incógnitas: a resposta popular na hora da chegada e os nomes com os quais o governador do governador vai precisar se entestar, ainda em tímidas evoluções ou em articulação de bastidores. Simão Jatene já deixou a marca da largada. Mas o ponto de chegada ainda está muito longe.

Discussão

4 comentários sobre “A história na chapa quente (76)

  1. E a sua hipótese do Almirismo? Podemos dizer que a corrente vingou? Possivelmente não, porque o Almir perdeu a eleição para a Ana Júlia e ainda culpou o Jatene pelo fracasso. Teremos o Jatenismo como nova corrente?

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    Publicado por José Silva | 4 de março de 2017, 00:42
  2. Faltou acrescentar que são todos seguidores e praticantes fieis do nazareno, inclusive com as mãos furadas…

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    Publicado por Luiz Mário | 7 de março de 2017, 09:52

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