//
você está lendo...
Imprensa

A história na chapa quente (77)

Qual jornal?

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 273, de dezembro de 2002)

O Liberal tirou uma edição especial de 82 páginas no feriado de 15 de novembro para assinalar seus 55 anos de vida. A parte propriamente comemorativa ocupou 24 páginas em dois cadernos. Talvez tenha sido uma das menores edições de aniversário em muitos anos. Nem assim o jornal perde a pose: anunciando em primeira página “uma história de sucesso”, garante, com base no Ibope, ser lido por “uma média diária de 600 mil leitores”. Será?

Costuma-se calcular que um exemplar de jornal é lido, em média, por cinco pessoas. Nesse caso, a tiragem média diária de O Liberal seria de 120 mil exemplares, equivalente à do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro. Na verdade, o jornal jamais chegou a esse patamar em época alguma da sua história.

Chegou até a anunciar a façanha em uns poucos domingos, anos atrás, mas a marca deve ter gravitado em torno de 100 mil exemplares (não de venda, mas de tiragem, inchada pela circunstância de a empresa não aceitar sobras de jornaleiros).

Aos domingos, a tiragem esteve entre 60 e 65 mil exemplares. O Liberal está naquele tipo padrão de jornal, que tira no domingo o dobro ou um pouco menos do dobro da tiragem média nos demais dias da semana, que fica entre 35 e 40 mil exemplares.

Logo, para ter 600 mil leitores, cada exemplar de O Liberal teria que ser lido por 12 pessoas, uma situação inteiramente atípica em termos mundiais. Como 90% da tiragem ficam na região metropolitana de Belém, significaria que um em cada três habitantes da grande Belém lê a folha da família Maiorana, nessa relação incluídas crianças, analfabetos, pessoas sem o menor poder aquisitivo, inválidos, etc.

Talvez embalado por essa “história de sucesso”, o principal executivo da empresa, Romulo Maiorana Júnior assinou um editorial hiperbólico sob seu retrato, em forma de broche, ainda na primeira página do jornal.

Com lucidez, admite, pouco modesto, que “de nada adiantaria o verniz tecnológico de que se reveste todo o processamento industrial do jornal, pouco efeito o visual refinado, nenhuma consequência, enfim, teria qualquer procedimento”, se o jornal, “em algum momento, se mostrasse rompido com seus objetivos maiores: de bem informar, de ser plural, de ser presente, de jamais duvidar quando as circunstâncias o obrigam a se posicionar claramente, mesmo  que disso decorram incompreensões e, não raro, críticas desprovidas de qualquer sentido”.

Como proposta, trata-se de uma bela declaração de intenções. Mas não serve como retrato de O Liberal, que tem sido exatamente o oposto. Para chegar a essa constatação basta colocar uma interrogação em cada parte da oração.

É mesmo objetivo de O Liberal bem informar? Suas páginas o revelam como um órgão plural, abrigando e respeitando várias opiniões, representativas do espectro social? Suas posições editoriais são claras, não dependendo dos seus interesses comerciais e de várias outras interferências, nada jornalísticas? Ele realmente se submete aos fatos? Divulga tudo o que de relevante acontece na sua área de cobertura, sem sonegar ou manipular informações?

A julgar pelas informações que presta ao público sobre índices de leitura, as palavras juntadas sob a assinatura de Romulo Maiorana Júnior ou são ditas em tese ou estão tratando de outro jornal. Infelizmente.

Discussão

6 comentários sobre “A história na chapa quente (77)

  1. Pois é. E nessa época a crise da imprensa ainda não tinha estourado. Qual a situação agora? 20 mil exemplares, lidos por 10 mil pessoas diariamente? Acho que as pessoas usam mais o G1 do que o site do Liberal. Competição entre irmãos.

    Curtir

    Publicado por José Silva | 4 de março de 2017, 15:03
    • Os sites locais são muito ruins. Produto do baixo investimento em pessoal.

      Curtir

      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 4 de março de 2017, 15:47
      • Qual a sua estimativa de tiragem e de leitores para os jornais de Belém?

        Curtir

        Publicado por Jose Silva | 4 de março de 2017, 19:23
      • Acho que todos os três jornais diários estão abaixo de 25 mil exemplares. Em escala decrescente: Diário do Pará, O Liberal e Amazônia.

        Curtir

        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 4 de março de 2017, 19:32
      • Então temos ao redor de 50 mil exemplares de jornais diários circulando. Destes, uns 10 mil não são vendidos ou lidos. Se duas pessoas lerem os 40 mil restantes, teremos um público leitor de 80 mil. Como a região metropolitana tem 2.4 milhões de habitantes, os jornais influenciam ao redor de 3.3% da população. Confere? Eles podem fazer alguma diferença?

        Curtir

        Publicado por Jose Silva | 4 de março de 2017, 23:53
      • Com a média de cinco leitores por jornal, dá 200 mil. É pouco, mas é uma influência direta. Menos emocional, com menor capacidade de provocar reações imediatas, mas de efeito mais duradouro. Ainda influencia, sim. Com muito menor poder do que antes. Poderia até ser maior se os donos dos jornais se dispusessem a ofrecer uma alternativa real à internet, sem deixar de usá-la.

        Curtir

        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 5 de março de 2017, 09:16

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: