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Política

A história na chapa quente (78)

O maior eleitor

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 273, de dezembro de 2001)

Jader Barbalho teria mais possibilidades de vitória disputando o governo do Estado do que a volta ao senado. Segundo os dados de uma pesquisa que o Ibope concluiu em outubro, a pedido da direção nacional do PSB (Partido Socialista Brasileiro), Jader teria 32% dos votos se a eleição fosse agora. Ademir Andrade, do PSB, ficaria a pequena distância dele, com 28%.

Se preferisse, porém, reconquistar o cargo ao qual renunciou dois meses atrás, envolvido no escândalo de desvio de recursos do Banco do Estado, ficaria em terceiro lugar – e, portanto, de fora, já que estarão em disputa no próximo ano duas das três vagas (Luiz Otávio Campos, do PPB, ainda terá mais quatro anos de mandato).

Em uma das simulações feitas pelo Ibope, o primeiro lugar seria de Ademir Andrade, com 32%, vindo logo em seguida o governador Almir Gabriel e a petista Ana Júlia Carepa, com os mesmos 31%. Bem mais atrás, Jader Barbalho teria 24% (e Hélio Gueiros em quarto, com 19%). Excluído o governador, a fila passa a ser: Ademir, 41%; Ana Júlia, 35%; Jader, 26%, e Gueiros, 21%.

Chamados a opinar sobre a atuação de Jader como senador, 38% dos entrevistados pelo Ibope a aprovaram e 54% a desaprovaram. Foi o maior índice de desaprovação entre os senadores então com mandato: o de Ademir Andrade foi de 18% (muito abaixo da aprovação, de 62%) e o de Luiz Otávio foi de 41% (para uma aprovação deficitária, de 23%).

Em compensação, o índice de indiferença em relação a Jader foi o menor de todos, 8%, contra 19% de Ademir e 36% do “senador do governador”, ilustre desconhecido para um terço do eleitorado paraense. A favor ou contra, poucos conseguem deixar de se posicionar em relação ao ex-governador.

Jader é o político com o maior índice de rejeição, de 44%, seguido a razoável distância por seu parceiro Hélio Gueiros, com 25% (logo depois, dois petistas: Paulo Rocha, com 23%, e Valdir Ganzer, com 22%). Mantém a liderança negativa da antipatia, com 38%, corpos à frente do segundo mais antipático, Hélio Gueiros, com 23%. Mas seu índice de simpatia, de 33%, é igual ao de Ana Júlia, empatados os dois num terceiro lugar (abaixo dos 46% de Ademir e 37% de Almir).

As simulações feitas pelo Ibope têm valor restrito. Um candidato bem cotado, como o senador Ademir Andrade, pode ter boa posição por estar preservado da fuzilaria disparada contra outros personagens mais notáveis. Se entrar no foco, é capaz de não resistir. Feitas todas as ressalvas, porém, a pesquisa do Ibope parece servir de elemento a uma análise com maior proveito do que as especulações estatísticas em curso.

O preço da fama

Esses números mostram, de qualquer maneira, que, se participar da eleição do próximo ano, o político mais influente e famoso do Pará enfrentará enormes dificuldades para vencer, qualquer que venha a ser o cargo que decidir disputar. Menores serão as dificuldades se concorrer, pela quarta vez, ao governo do Estado do que, pela terceira vez, ao senado da República.

Parece que o eleitor considerou perdido o voto que deu (foram 550 mil no total) para o senador, obrigado, sucessivamente, a renunciar à presidência do Senado e ao próprio cargo, frustrando uma carreira que parecia destinada a ser brilhante e ascendente, rendendo muitos ganhos ao Pará. Sobretudo no interior, o eleitor não gosta de desperdiçar o seu voto. Pune quem lhe causa essa desfeita.

Esse eleitor pode vir a dar uma nova oportunidade a Jader Barbalho, mas se ele, desta vez, concorrer ao governo. No entanto, ele terá que reconquistar apoios e desfazer uma imagem predominantemente negativa.

Individualmente, é o político que mais tem votos no Pará. Um terço dos eleitores votou, vota e votará nele por mera simpatia, em resposta ao seu carisma. Não é um voto que dependa do que ele realizar, de bom ou ruim. É cativo.

Nenhum outro adversário dispõe de um capital desse tamanho, pessoal e intransferível. Mas não é mais o bastante para assegurar a vitória de Jader numa eleição majoritária – e menos ainda para o Senado. Está praticamente fora do seu alcance a possibilidade de definir a eleição em primeiro turno, quaisquer que venham a ser seus concorrentes ao governo.

Se não desfizer a imagem negativa que o acompanha, estará exposto a uma surpresa no segundo turno, caso a polarização em torno do seu nome se torne terreno fértil no qual poderá brotar uma frente anti-Jader (ou, tematicamente falando, anticorrupção).

Se optar por ficar de fora da disputa eleitoral do próximo ano, Jader Barbalho se tornará o grande eleitor. Principalmente se agir mais nos bastidores do que ostensivamente. Nesta última hipótese, a pesquisa do Ibope sugere que ele poderia colocar o senador Ademir Andrade a um passo de se eleger governador do Estado já no primeiro turno, com 49%, enfrentando apenas Hildegardo Nunes (11%), Paulo Rocha (7%) e Simão Jatene (4%). Entre indecisos e tendências de voto negativas, ainda haveria, porém, um potencial de votos de 30%, ao alcance de uma campanha mais agressiva dos outros candidatos.

A constância do vice-governador Hildegardo Nunes na faixa de 11/12% indica que ele só ocupará uma posição relevante no ranking se tiver recursos para popularizar sua campanha, que ainda circula com desenvoltura apenas nas camadas mais altas da população. Ou então se o candidato da sua coligação, Ciro Gomes, for aceito como o oposicionista típico pelos eleitores para a presidência da república.

O peso da máquina

O grande mote de campanha do candidato do PTB seria a sua autonomia, que custará caro quando precisar ser difundida num Estado de dimensões continentais como o Pará. Ele praticamente não se beneficia das transferências de terceiros, aliados ou ex-adversários que se metamorfosearem em correligionários nos próximos meses.

Como fazer Simão Jatene sair da faixa vegetativa de 3 a 5%? Este é o grande desafio posto diante da máquina oficial pelo governador Almir Gabriel, convencido de poder tirar leite da pedra e popularizar qualquer poste, graças aos saldos que tem acumulado e à disposição de comandar a engrenagem pública durante a eleição, colocando-se como o eixo central de poder.

Para colocar seu secretário especial numa zona com potencial de passagem para o segundo turno, o governador terá que se expor a um jogo perigoso, fronteiriço à legalidade e à moralidade. Como, aliás, já está fazendo, beneficiando-se da inércia dos órgãos encarregados de impedir que a propaganda eleitoral chegue às ruas antes do tempo ou extrapole os limites legais. Por enquanto, a única coisa que parece envergonhar é a possibilidade de derrota.

Neste período pré-eleitoral, a confiabilidade das pesquisas é bastante relativa. Mesmo quando sérias e honestas, elas refletem um determinado momento, naturalmente mutável.

Discussão

3 comentários sobre “A história na chapa quente (78)

  1. Pois é. O poste do Almir se elegeu e a história continua. Há uma coisa interessante também. Não foi esse período que começou a queda do Ademir Andrade? Chegou a ser candidato a governador, mas não aguentou a derrota. Qual teria sido a causa? O escândalo da CDP? O que aconteceu após todas as denúncias? Não me recordo mais..

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    Publicado por José Silva | 6 de março de 2017, 09:48

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