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Cidades, Política

Lixo: governo espera por morte?

Foi uma maldade sem tamanho o que fizeram com Marituba.

Querendo se livrar de 1.500 toneladas de lixo descartado todos os dias e de centenas de toneladas já depositadas, Belém e Ananindeua,  os municípios mais poderosos da região metropolitana da capital paraense, transferiram o grave problema para o município seguinte com menos população, menos renda e menos poder. Seus moradores que tratassem de lidar com a batata quente. Ou a bomba fétida, melhor dizendo.

É impossível não chegar a esta conclusão vendo a imagem área do aterro sanitário criado em Marituba para substituir o lixão do Aurá, o depósito a céu aberto e sem controle do lixo da região. A fotografia é de julho de 2015, de menos de 17 meses atrás. Mesmo sendo uma imagem restrita, ela revela o absurdo da localização do novo lixão metropolitano, com quase dois anos de funcionamento.

Ele provocou a destruição da mata secundária. Faz limite com o refúgio de vida silvestre da antiga plantação de seringueira da Pirelli. Está cercado por habitações humanas. Está assentado sobre drenagens naturais e fez o rio Uriboquinha ser desviado. É uma incompatibilidade tal que não há saída: o aterro tem que ser fechado.

Para onde será transferido? É esta a decisão que as autoridades públicas precisam adotar. Não há como melhorar, corrigir ou substituir o atual depósito de lixo de Marituba. O erro é primário. Ele não devia estar ali, mesmo que o projeto no qual se fundamentou fosse perfeito.

Aliás, se fosse perfeito, ou pelo menos satisfatório, o local nem poderia ser cogitado – e cinco foram as alternativas examinadas dentro de Marituba. Um erro tão crasso não pode ser admitido.

A partir do pecado original, outros se sucederam. A secretaria de meio ambiente do Estado se defende alegando que o projeto era bom, apenas a Revita não o executou. Nem foi obrigada, já que a secretaria não a fiscalizou, ou ao menos não como devia, inclusive por dificuldade de acesso ao local.

Muito menos se posicionou em defesa dos milhares de cidadãos cuja vida foi perturbada e está sendo ainda mais dificultada pelo funcionamento do lixão. Eles suportaram o quanto puderam o mau cheiro e seus problemas acompanhantes.

Agora perderam a tolerância. Se o fedor não for reduzido a níveis suportáveis, a situação ficará explosiva. Se o governo não providenciar o fechamento do lixão, ficará ainda pior.

Já é hora, portanto, de instaurar um inquérito policial, antes que ele se torne inevitável por conflitos, choques e, quem sabe, uma ou mais mortes. É por este previsível desfecho sangrento que este insensível e abúlico governo Simão Jatene está esperando?

Discussão

16 comentários sobre “Lixo: governo espera por morte?

  1. É o resultado de governos que não enfrentam (e resolvem) os problemas apenas empurram com a barriga.

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    Publicado por Rosa Carmina Couto | 9 de março de 2017, 17:31
  2. Peço licença ao professor de historia da ufpa Márcio Couto Henrique para colocar seu texto em que faz uma reflexão sobre este caso do lixo de Belém.
    “Crônicas coutianas – Belém e seu lixo mais fedorento: o lixo político
    O acúmulo de lixo nas ruas de Belém pode ser visto sob vários pontos de vista. Além das justas críticas que podemos fazer ao poder público, ao nebuloso contrato com a Revita/Guamá/Solvi, empresa que, segundo Úrsula Vidal, foi doadora de centenas de milhares de reais para a campanha de reeleição do Governador do Estado (PSDB), precisamos refletir sobre uma questão: o lixo que nós produzimos parece só nos incomodar quando ele deixa de ser recolhido. Enquanto o recolhimento do lixo é feito da frente de nossas residências, tudo está bem. Não nos interessa saber para onde esse lixo vai nem o que é feito dele.
    Até o início do século XX, quando o lixo não era um problema maior, fazíamos buraco nos quintais e enterrávamos o lixo ou então o queimávamos. Com o crescimento da população, começamos a depositar nosso lixo no Lixão do Aurá, em Ananindeua e depois do fechamento deste, em Marituba. Agora que a população de Marituba se revoltou e, com toda razão, fechou o acesso ao lixão, nós, habitantes de Belém, nos damos conta de que produzimos muito lixo e que, quando ele não é retirado da porta de nossas casas e despejado em lixões que ficam na portas dos outros, temos um grande problema. Passaremos a despejar nosso lixo em Benevides? Ou Santa Isabel, Castanhal… ou na última cidade da fronteira com o Maranhão? É o mesmo que fizemos com o tratamento da “lepra” (Hanseníase), primeiro isolando e excluindo os “leprosos” (Hansenianos) no Tucunduba, depois em Marituba e Maracanã. Ou que fazemos com os presídios, de novo, em Marituba e em Americano, que em troca, recebem nada do Governo do Estado.
    Naturalizamos a ideia de que nosso lixo deve ser jogado em outros municípios porque, em Belém, a prefeitura nada faz para resolver esse problema, com a conivência e omissão do Governo do Estado e do Ministério Público. E quando faz em outros municípios, faz errado, prejudicando o meio ambiente, os moradores ou mesmo os catadores de lá, como vimos no caso do Aurá e, agora, em Marituba. Do total de lixo domiciliar coletado em Belém, 30% é de material reciclável, mas a separação desse material, que poderia gerar renda e diminuir o impacto ambiental do lixo, alcança menos de 1% do volume que chega ao aterro. Na última campanha eleitoral o prefeito cassado e mesmo assim empossado Zenaldo Coutinho mostrava a coleta seletiva do lixo em sua propaganda, mas na prática isso não existe em Belém.
    E que tal refletirmos sobre o lixo que elegemos para a prefeitura de Belém com nosso voto? E o lixo que despejamos na Câmara dos Vereadores? E que tal a gente sujar menos nossa cidade com lixo nas ruas? Parece que o raciocínio é o mesmo: só nos incomoda quando começa a feder ou quando nos ameaça! Mas, mesmo na hora do fedor existe distinção social. A gente quase não vê lixo acumulado em frente às casas dos moradores das “áreas nobres” de Belém ou em frente ao condomínios de luxo. Mas, eles continuam produzindo lixo, que está sendo despejado em algum lugar das periferias.
    O maior e mais fétido lixo de Belém é o lixo político! Essa é a maior assepsia que podemos fazer por nossa cidade: limpar Belém do lixo político que se alimenta do nosso atraso! Fora Temer! Fora Jatene! Fora Zenaldo, o Prefeito Pitiú! Fora PSDB!”

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    Publicado por Fabrício | 9 de março de 2017, 18:01
    • Obrigado, Fabrício, e ao professor Mário Couto Henrique. Uma excelente contribuição para o debate.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 9 de março de 2017, 20:28
    • Concordo que o lixo político é o pior de todos. Entretanto, a cada nova eleição sempre produzimos mais lixo político, tanto de esquerda como de direita. O pior é que não dá nem para exportar esse lixo para outros lugares, pois ninguém quer. a solução é produzir menos lixo político na esperança de que teremos um melhor sistema de tratamento para o nosso lixo doméstico. Até lá…resta tapar o nariz e enfrentar a nossa sujeira, causada pelas nossas próprias decisões. Eta povo sujão.

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      Publicado por José Silva | 9 de março de 2017, 21:47
  3. Certamente este é mais um dos nefandos acontecimentos, atingindo somente o povo mais humilde que, somado aos ocorridos desde o início do ano, servirá como mecanismo de amortecimento social contra os bandidos políticos profissionais. É a politicagem (a “mão invisível” da corrupção), esfregando excrementos na cara do povo.

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    Publicado por Luiz Mário | 9 de março de 2017, 18:16
  4. COLUNA DESTA SEXTA (10/3/17)

    RIOS DE LIXO
    Aprendemos com Ruy Barata (em parceria com o filho, Paulo André) que os rios da Amazônia são nossas ruas – minha e tua, mururé.

    Com João Cabral de Melo Neto aprendemos que “a cidade é passada pelo rio como uma rua é passada por um cachorro”.

    Mas também descobrimos que há um rio, o Doce, que jaz afogado em lama, contaminado pelas impurezas da ação do homem em seu afã de explorar, sem freio, a natureza.

    Há rios e rios que atravessam a literatura. Como o Almonda, de José Saramago, que logo mais à frente se encontra com o Tejo de Camões e Fernando Pessoa. O Tejo que se fez de trampolim para a língua portuguesa lançar-se ao oceano das descobertas.

    Temos o não menos maravilhoso Arataca, de Gabriel García Márquez, que foi o primeiro a atravessá-lo. O Liffey, que tem sua foz em Dublin, mas que irrigou a infinita odisseia narrativa de James Joyce. E seria imperdoável esquecer do Avon de Shakespeare, mais conhecido como sobrenome, Stratford-upon-Avon.

    E por falar em esquecer, que nos venha banhar a memória o mítico Lete, o rio do esquecimento. Logo nós, que erguemos a taça para beber ao esquecimento.

    E o caudaloso rio de raivas com que Haroldo Maranhão nos tragou, revelando-nos o lodo – à esquerda e à direita das margens políticas – de uma sociedade arrivista que só fez se encorpar feito uma pororoca de dejetos antiéticos?

    O Tietê, à margem do qual meditou o poeta Mário de Andrade. Esse Tietê que, diferentemente da maioria dos rios, em vez de correr para o mar, corre para o interior.

    Quem foi mesmo que à margem do Rio Piedra sentou e chorou? E quem pediu que seu coração fosse enterrado na curva do rio? As voltas do rio, às voltas com o rio, a Volta Grande do Xingu que se represa, da qual se quer fazer as vezes de Midas, todo curso de vida em ouro brilhar. Faremos, mais uma vez, o papel de tolos desse ouro?

    Rios que carregamos desde sempre, desde a infância, rios de placenta. Mas quem melhor o carrega, em poesia, rios de poesia, é o estuário pernambucano do mundo chamado João Cabral de Melo Neto. Os rios que eu encontro vão seguindo comigo. Rios são de água pouca, em que a água sempre está por um fio, cortados no verão que faz secar todos os rios. Rios todos com nome e que abraço como a amigos. Uns com nome de gente, outros com nome de bicho, uns com nome de santo, muitos só com apelido. Mas todos como a gente que por aqui tenho visto: a gente cuja vida se interrompe quando os rios. Desculpe, João, se lhe dreno o verso, a métrica, em riocorrente de prosa.

    Tapajós, Araguaia, Tocantins, Xingu, Amazonas, Doce, São Francisco, Vaza-Barris, Tietê, Uriboca, Carioca, Guamá, Capim, Pará, de toda monta, a jusante, a montante.

    Os rios europeus, rios de primeiro mundo, rios que também se turvaram, foram maltratados, de um turvo espesso e sujo, poluído, mas que souberam tratar, cuidar, limpar, oxigenar e retomar o curso da vida.

    Os nossos, cão sem dono, cão de rua, cão sem plumas, mas ainda navegados de algum orgulho, de algum rito de passagem, mas alcançados de lodo e ferrugem, de dejetos, de lama assassina, defuntos da lama, do que lhes atiram de denso fedor. A miséria estagnada que lhes estrangula, restos fatais da gula exploratória.

    E agora, se eles foram nossas ruas, estradas, como nos cantou o poeta do Tapajós, hoje, em Belém, por perversa inversão, as ruas são rios de lixo. A cidade que, invertebrada, se vertera inundada de desmandos de um prefeito náufrago de si, de si à deriva, de um governador em abulia profunda, que nos converte a todos em passageiros desse rio de lixo em que a cidade se traduz à semelhança de seus poderes municipais, de que não se poderia esperar melhor tradução que a do lixo, do lodo, do limo, do estagnado. A cidade-lixo, a prefeitura-lixo, o governo-lixo. Que se lixe a cidade. Belém. Ananindeua. E Marituba, arca de lixo. Que se lixem os rios. As ruas.

    Rios de lixo.

    Lixo é luxo. Para os ratos de sempre.

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    Publicado por Elias Ribeiro Pinto | 10 de março de 2017, 08:51
  5. Não foi apenas uma maldade, foi uma monstruosidade !
    Foi o exercício cínico, arbitrário e autoritário do poder do mais forte contra o mais fraco politicamente falando .Foi uma humilhação politica e não apenas social .

    Os moradores tem todo o direito politico de rejeitar essa monstruosidade, repudiar radicalmente o ato de força do poder metropolitano que detém a hegemonia nas decisões que afetam a Região metropolitana de Belém .

    Força e solidadriedade a todos que estão à frente desta luta .
    Como dizia a líder comunista basca , Isadora Dolores Ibárruri Gomez , a passionária , ” os fascistas não passarão”
    Logo, as lideranças do município de Marituba também já gritaram e permanecerão gritando e alto e bom som
    :
    O lixão não passara!!!

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    Publicado por Marly Silva | 10 de março de 2017, 08:52
  6. Eu sinto um imenso ódio desse Zenaldo Coutinho.

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    Publicado por Nalú Rodrigues | 15 de março de 2017, 00:25

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