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Economia, Justiça, Política

Lula, o grande

A defesa do ex-presidente Lula divulgou mais uma nota. Desta vez, para destacar o depoimento prestado hoje, perante o juiz Sérgio Moro, da  13ª vara federal criminal de Curitiba, por dois ministros do governo Lula, “de pastas de relevância, como o Banco Central e o Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio”.

Henrique Meirelles e Luís Fernando Furlan, “com trajetórias igualmente reconhecidas em outros segmentos políticos, declararam não ter nunca presenciado uma ação ilegal ou não republicana por parte do ex- Presidente Luiz Inácio Lula da Silva na vigência de seu governo. Meirelles foi um ministro longevo tendo permanecido do início de 2003 a 1/1/2011”, informou a nota dos advogados.

Na reconstituição que faz dos relatos das duas testemunhas, destaca que Meirelles “salientou sua independência na presidência do BC, sempre respeitada por Lula, e Furlan que toda as missões empresariais foram concebidas dentro da estratégia de promover o Brasil como destinatário de investimentos e abrir espaço ao comércio com novos países. Nos encontros que Furlan promoveu com empresários, na presença da Lula, os temas foram do interesse do País, jamais pessoais ou partidários”.

A defesa diz que se surpreendeu “pelo juiz ter indeferido uma questão, sob a alegação de que a testemunha deveria se ater a fatos e não opiniões”. A questão era relacionada a um trecho da denúncia contra Lula, que diz  (“de forma fantasiosa”) que o ex-presidente “focou as ações de seu governo em torno de uma estrutura criminosa para beneficiar os que estavam no poder”.

A defesa formulou a pergunta “para que Meirelles esclarecesse se a política macroeconômica empregada, aliada à estratégia de transferência de renda e aquecimento interno da economia resultaram em benefícios para o Brasil”. E observa: “Com a aquiescência de Meirelles, o juiz interrompeu a arguição”.

Acrescenta a nota que “a contraposição da realidade exposta pela testemunha à tese central da acusação levou o juiz a cair em contradição com posições que manteve anteriormente. Neste caso, Meirelles estava depondo sobre fatos, mas o juiz invocou o artigo 213 do Código de Processo Penal – a testemunha não pode dar impressões pessoais – para impedir que se materializasse um argumento favorável à defesa, vindo de uma figura pública que ainda ocupa posição de notoriedade. Essa limitação legal sempre foi cobrada pela defesa ao longo das oitivas das 68 testemunhas anteriores, sendo sempre rechaçada”.

Para a defesa de Lula, “houve claro objetivo de interromper uma arguição pertinente e favorável, num notório desrespeito ao trabalho da defesa. Há uma clara opção de ofuscar os sólidos argumentos que a defesa leva ao processo com incidentes periféricos gerados pelo juiz”.

Mesmo que Moro tivesse permitido que a pergunta fosse feita, nada acrescentaria ao testemunho de Meireles (nem ao de Furlan) em matéria de prova. Ambos podiam declarar com firmeza e convicção que Lula foi um estadista como presidente da república e jamais se desviou das políticas públicas formuladas e aplicadas ao longo dos seus oito anos como chefe do poder executivo federal.

Não podiam era garantir que, em entendimentos de bastidores, em transações tanto confidenciais como ilícitas, alguém tirasse vantagem indevida, se beneficiasse de ter acesso a informação privilegiada ou pagasse propina para tirar adulterar licitações (como a da hidrelétrica de Belo Monte, obra de 33 bilhões de reais) e seus subsequentes contratos de obras (como as do pré-sal da Petrobrás).

Este é o divisor de águas entre o PT na oposição e o PT no governo, o PT de bandeiras e o PT de oportunidades, mutação demarcada pelo ano de 2002. Começou com a morte do prefeito de Santo André, Celso Daniel, que deveria ser o tesoureiro da campanha de Lula, e culminou com a criação do “Lululinha paz & amor” pelo marqueteiro (que fora de Paulo Maluf) Duda Mendonça, regiamente pago pela armação (com dinheiro ilícito depositado em conta secreta no exterior).

Foi quando o velho caixa dois engrossou, os pontos de captação de dinheiro se multiplicaram e o recurso que era recolhido para manter o PT como o principal partido do país, mesmo na oposição, passou também a irrigar bolsos petistas. O PT caiu na esquizofrenia. Daí a irrelevância do que Meirelles e Furlan disseram para fazer prova nos autos do processo.

No entanto, a biografia do ex-presidente mundial do Banco Boston é elucidativa da transformação de médico a monstro do PT. De fato, Lula não deve ter dado a menor perturbação ao seu presidente do Banco Central.

Além de ser a poderosa autoridade monetária, Meirelles foi o ministro da fazenda efetivo. Sua missão era garantir a drenagem de dinheiro para Lula empenhar e gastar. Foi o que ele fez, justamente por ter agido com inteira liberdade.

Depois de oito anos dando as cartas na economia brasileira, a sucessora de Lula o demitiu no dia da sua posse como presidente da república. Não é detalhe gracioso. Aliás, nada continuou gracioso nesta história incrível – à espera de um grande autor.

Discussão

12 comentários sobre “Lula, o grande

  1. Meireles deixou um salário de 200 mil dólares no Banco Boston pra ganhar 4.500 reais como Ministro. À época um petista me disse que “quem já tem muito dinheiro se conforma em ganhar menos”. Porém, Meireles foi condenado por crime de Sonegação Fiscal.
    Sobre o Lula, ele não fala nada sobre Celso Daniel. Duda Mendonça está preso graças ao juiz Moro. A prisão de Lula será salutar para a história, assim como a revelação de quem mandou matar Celso Daniel, …
    .

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    Publicado por Erick Matheus Vieira | 11 de março de 2017, 21:12
  2. Só faltou dizer que o PT inventou a corrupção o caixa dois e a locupletagem…..visto que o PSDB nem tesoureiro tem….o Aécio , Serra , Alckimim , Aloísio e o FHC se encarregam de arrecadar.

    O que acho mais interessante é fazer uma lavajato pra pegar o Lula e a Dilma,….e quem aparece é o Aécio…Temer…Cunha…Serra….Angorá. …Maia…..Alckimim. ….Jáder. …Renan. ….Jucá. ..Sarney….e caterva …. isso que mais irrita os golpistas.
    Mas a moda é malhar Lula……afinal ele é o mais forte candidato a presidente se eleição tiver. …..e da ibope.

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    Publicado por Sergio | 12 de março de 2017, 21:31
    • Resumindo seu comentário: deixa como estava, que tava bom.

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      Publicado por Tiago | 13 de março de 2017, 15:19
      • Tá achando melhor agora?…..olha que a maioria que apoiou o golpe já percebeu que apoiou a destruição dos direitos trabalhistas….a extinção da aposentadoria. …a terceirização. ..a venda do pré sal e das estatais….e a absolvição dos golpistas. ……mas não demora muito vc também percebe.

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        Publicado por Sergio | 13 de março de 2017, 23:13
      • Não apoiei Dilma, não apoiei Temer, sou crítico de ambos, considero Dilma uma tragédia, o Temer não é o estadista da hora, etc. E quanto ao pré-sal, leia o que escrevi na semana passada sobre a atitude do Ibama e, na semana anterior, sobre a ameaça que paira sobre a Petrobrás.
        Peço aos meus críticos que, antes de me condenar pelo que não disse, leiam o que realmente eu disse para me ajudarem de fato (e não por mera retórica preconceituosa) a corrigir os meus erros e falhas, que não são poucas. Mas ignorar o que eu escrevo para me sapecar uma sentena pronta é se tornar personagem involuntário da famosa frase de Oswald de Andrade: não li e não gostei.famosa

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 14 de março de 2017, 08:17
    • Pelo teor da sua resposta, permeada pelo determinismo (desenhando: ou é ou não é), percebe-se cartesianamente que se a Dilma foi um horror como chefe do executivo, qq pessoa que tenha apoiado o impedimento automaticamente é simpático ao mordomo, atual presidente. Ledo engano, prezado Sérgio. Vale enfatizar que essa tática esquerdóide de desfalcar qq coisa (desabilitar, desdenhar, des-tanto faz), fez com que a “esquerda” brasileira esteja no patamar do descrédito político à qual se encontra. E,tenha ciência, você ajuda para isso com esse discurso pronto cremogema.

      Não apoio maimaids o PT desde o momento que a ficha caiu pro tava acontecendo no segundo mandato do Lula.

      Sua solução é manter o status quo. Além de não perceber o autoengodo de sua retórica. Ou autossabotagem. Dá no mesmo.

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      Publicado por Tiago | 15 de março de 2017, 12:51
  3. Isso é que se pode dizer do excremento com cheiro do chocolate sendo esfregado na cara do povo, pela corrupta elite e seus capachos os bandidos políticos profissionais….

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    Publicado por Luiz Mário | 13 de março de 2017, 10:52
    • Pro Luiz Mário, não existe pobre corrupto, capacho ou bandido. Provável justificativa: são todos vulneráveis, pois tudo é relativo. Só concordo em uma coisa: tem muito – mas muito! – “chocolate” fabricado no Brasil que realmente não vale o que o gato enterra.

      Trocando em miúdos: deixa como estava, pq tava ótimo, né, Seo Luiz?

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      Publicado por Tiago | 13 de março de 2017, 15:26
  4. A meia-verdade é sempre uma absoluta mentira. Aliás, chutar cachorro morto garante os delírio$ dos bons-moços, praticantes dos bons costumes e filhos da tradicional família brasileira, meu caro Tiago.

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    Publicado por Luiz Mário | 13 de março de 2017, 18:15
    • Amigo Luiz, até onde sabemos, existem instituições – órgãos (ou poderes, se preferir) – que analisam e julgam casos. No caso específico, é o Poder Judiciário, que tem a operação Lava-Jato julgando, a PF investigando e o STF corroborando para que o povo não fique mais desacreditado do que está, para que o Estado não entre em falência completa e não haja um conflito civil promovido por forças político-partidárias com anuência e investimentos de capitais privados por medo de irem pro buraco conjuntamente, perdendo assim seus rico dinheiro, mas este não é o caso. Desculpe, fugi do tema.

      De fato, fiquei muito curioso em saber pelo senhor – após todo esse preâmbulo que fiz acerca da tentativa de descoberta da verdade pelo Judiciário: afinal, qual é a verdade integral?

      É o que todos queremos profundamente e genuinamente saber. Garanto.

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      Publicado por Tiago | 13 de março de 2017, 21:08
  5. Meu caro Tiago, que tal a tentativa para descobrir o que procuramos se a Lava Jato se dispusesse a investigar o que disse o falecido Paulo Francis, afinal, tudo tem início, meio e fim e também está nas leis, as quais foram feitas pelos bandidos políticos profissionais? Aliás, uma CERPA bem gelada poderia colaborar, em parte, para tentar elucidar como se formou o tal buraco, além do que o gelado líquido aveludaria o gogó?
    PS: não esqueça do Judiciário, o garantidor das Leis….

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    Publicado por Luiz Mário | 14 de março de 2017, 10:47

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