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Política

A história na chapa quente (83)

A voz do trono

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 285, de janeiro de 2002)

O médico Almir José de Oliveira Gabriel não gosta de jornalistas. Ou, para ser mais exato: não gosta de jornalistas independentes; só de chapas brancas. É um direito dele. Se pessoal, torna-se direito absoluto. Mas um político é um homem público. Um jornalista também o é.

Como uma das principais matérias primas do trabalho de ambos é a informação, ela os aproxima, ou os distancia, conforme o caso. Ganha a sociedade quando políticos e jornalistas trocam informações de relevância para o interesse coletivo.

Elas podem embasar boas decisões e, ao mesmo tempo, manter a sociedade atenta aos movimentos e atos do governo, quando ele tenta sonegar à sociedade o direito de saber o que os governantes estão fazendo. É o melhor alimento da democracia.

O governador Almir Gabriel é daqueles políticos que aprecia receber, mas não dar. Ouve com atenção, mas sempre sob franciscano silêncio. Isso, em contatos reservados, ou off-the-record, conforme o jargão anglicizado da imprensa. Em entrevistas coletivas costuma ser expansivo, desde que lhe façam as perguntas que quer ouvir e calem sobre as respostas que quiser dizer.

Mas, como observou Jules Feiffer numa época em que Richard Nixon blefava à vontade nas coletivas na Casa Branca, se você quiser uma mentira vá a uma entrevista coletiva; se quiser a verdade, roube-a (o governo Nixon entrou na curva descendente quando o New York Times começou a publicar os documentos secretos do Pentágono sobre a guerra no sudeste asiático, vazados por Daniel Ellsberg, um dos autores da papelada).

Ouvir tudo, falar nada

Digo isso a partir de três conversas informais com o doutor Almir. Saí dos encontros com todas as algibeiras vazias: deixei o que tinha e não trouxe uma só pataca de informação do interlocutor. Quando um intermediário me propôs um novo contato, agradeci a lembrança e recusei.

De nada vale a um jornalista se encontrar com um político se daí não resultam informações relevantes para seu próprio juízo ou para retransmitir à opinião pública. É triste quando um profissional da área transforma essas oportunidades em instrumento de benefício pessoal, permite que o usem como lançador de balões de ensaio ou se reduza a um supridor de inside information, a tal da informação privilegiada.

Não estou dizendo que esta é a relação que o governador Almir Gabriel cultiva com a imprensa paraense. Preocupa-me, porém, ver que um dos traços marcantes nesse relacionamento é o poder de iniciativa, controle e manipulação que o governo exerce sobre a mídia. Mesmo quando ela o fustiga, quase sempre por motivação nada relevante, o silêncio tem um preço, negociado por debaixo dos panos. Nada tem a ver com projeto de governo ou linha editorial.

Colegas com melhor trânsito pelo poder são incapazes de se referir a um encontro maduro com o governador, no qual tenham podido dialogar com ele numa posição de equilíbrio, sem se sujeitarem aos estouros de paciência de sua excelência, sempre latentes, e podendo cobrar-lhe, com os bons modos protocolares, o que em outros lugares a imprensa exige, por ser de seu direito, sedimentado em legitimidade social – conferida e constantemente sujeita a renovação.

Infelizmente, o governador foi mal acostumado nas suas relações externas. Foi induzido a considerá-la sinônimo de relações públicas. A mídia tem que ser um reflexo do que ele quer, pensa ou espera, como, aliás, ultimamente, a própria sociedade, na ótica de sua excelência.

Só assim, supostamente imunizado contra situações como na célebre fábula sobre o rei nu, o governador Almir Gabriel pôde se permitir o desempenho que teve na entrevista coletiva concedida à TV Cultura no início do mês, sob perguntas monocórdias e consensuais de jornalistas convidados para o programa Sem Censura.

As falas do trono

Falando sobre a questão da sua sucessão, mas podendo aplicar a acrimônia a todos os assuntos, o governador-médico receitou aos divergentes ou adversários “uma boa quantidade de chá de bom senso”, naturalmente, produto fabricado com exclusividade nos laboratórios do Palácio dos Despachos (ah, nome sugestivo!) ou na  Granja do Icuí.

Com a calma que tinham os monarcas de origem divina, na época do absolutismo, sua excelência sagrou como seu candidato – e o candidato do bom senso – o secretário especial Simão Jatene, não admitindo titubeios, vacilações, contestações e muito menos oposição. Se houvesse coroa e não houvesse voto, El-Jatene já teria sido sagrado delfim, com toda a pompa e circunstância.

Ao agir dessa maneira, o governador não o faz por teimosia ou capricho,  prepotência ou arrogância, conforme ressalvou, mas por “firmeza de posição”. É – para usar uma imagem recorrente em tais situações – o timoneiro seguro, como o foram o camarada Mao, o papá Stálin ou o führer Adolfo (e o príncipe Fernando?), em passado mais recente, nem indo para a esquerda, nem para a direita, “mas para frente”.

Isso porque sua excelência é dono de um projeto coletivo, o melhor a que qualquer paraense pode aspirar, que não é pessoal, de grupo ou familiar, como também fez questão de sublinhar, na prática recorrente de lançar pedras indiscriminadas a um passado nivelado por baixo, na generalização, embora a mulher seja secretária e duas filhas, assessoras especiais (sem esgotar, ou sequer protagonizar, o principal do possível nepotismo).

Continuidade no novo mandato

O governador tem uma obra realizada e outra por realizar. Não pode ficar a meio caminho, mesmo que esse “meio” represente oito anos. Precisa do factótum Jatene para dar “continuidade sem continuísmo” ao que já fez, servindo de ponte para outro tucano daqui a dois anos na prefeitura de Belém (Almir Gabriel?) e, dois anos depois, no governo do Estado (Almir Gabriel?), e assim, sucessivamente, na ampliada família de sociais-democratas, nem tão crua quanto cozida (pouco democrata e menos ainda social).

O doutor Almir é um excelente guarda-livros. Como já demonstrou, seja na PMB quanto no governo, suas contas fecham e os que dependem dos seus pagamentos recebem. Isso é bom, mas não o bastante, inclusive porque alguns pagam imposto demais e outros, de menos. E quem é isentado, ninguém fica sabendo do motivo, adotado em gabinete fechado, sem publicidade nem prestação de contas.

Mas ele também tem feito obras, e várias são boas. Mas ou porque são insuficientes, ou porque são caudatárias dos “grandes projetos”, que monopolizam os benefícios ou os mandam para fundar “cadeias produtivas” além-mar, nesse aspecto o governo paraense lembra a monarquia francesa anterior à revolução de 1789.

Vai chegar um dia em que uma Maria Antonieta, lato senso ou avant-la-lettre, recomendará ao povo que coma brioches, ou minério, ou dividas, ou o apito do trem de Carajás, enquanto outra Antonieta anotará em seu diário (ironicamente, liberal na nomenclatura) que não há nada que valha a pena fazer.

Não há dúvida que a administração atual é melhor do que a anterior e da que veio antes e de todas as que se seguiram a Aloysio Chaves, ainda a melhor referência do período, mesmo quando sujeita a chuvas e trovoadas. Mas um pouco melhor.

Não um marco, não um delimitador de épocas. E, mesmo quando bem melhor, não melhor na medida necessária para impedir que o Pará vire uma África do Sul dentro do sistema federativo brasileiro, com o amiudamento e o agravamento dos conflitos e tensões dos quais já somos contemporâneos.

Vaidoso e autocrata, o governador está sujeito ao banzo de suas luas pretas, ou a se tornar satélite de planetas que  nem conseguimos ver, tão distantes eles se encontram do nosso raio de visão (nem por isso perdendo sua eficácia de polvos, com longuíssimos tentáculos).

Contra a divergência

Porque só ouve e só vê o que quer, eliminando, às vezes com brutalidade, o que não lhe é espelho, como aconteceu com o finado Idesp, o governador não vê a miséria crescente e a crescente contradição entre o potencial de riqueza e a realidade do Pará, registrada nos estudos, levantamentos e estatísticos produzidos fora da satrapia, cuja origem é posta sob suspeita por não ser “da casa” (despida de autocrítica).

Por isso, na entrevista ao Sem Censura (e sem crítica?), sua excelência se permitiu desafiar o processo eleitoral como se tudo não fosse mais do que um jogo de futebol entre o Brasil e a Namíbia. No qual ainda fosse possível ganhar sem entrar em campo, sem sequer haver partida. “Qualquer um que venha, nós ganhamos. Não tem para ninguém”, tonitruou o governador, como se fosse um Juquinha solene.

Sua autoridade, ele próprio a outorgou: vem desde 1951, da política estudantil, meio século que sofreu intercalações e lacunas. De sentido ascendente, é verdade, mas num e noutro momento o avanço tendo decorrido de uma topada no acaso ou da ajuda de uma mão já não mais lembrada, que puxou ou empurrou, arrastou ou segurou o herói.

Foi essa experiência que permitiu ao doutor Almir, como ele fez questão de frisar, poder indicar o melhor candidato, Simão Jatene. Tão bom que já mudou a retórica propagandística do governo, agora empenhado não mais com o social ou o infraestrutural, mas com a produção. Não por acaso, o título da secretaria que abriga o candidato dos tucanos (e, depois da confirmação universal, dos paraenses tomadores de chá de bom senso).

Um novo messias?

Será assim porque todos se resignarão a seguir os “sinais” que sua excelência emitiu para que todos efetivamente o sigam, como se fosse aquela estrela solitária que representa o Pará na constelação federativa brasileira. Ele diz ter toda a paciência possível para administrar a coligação partidária que lhe possibilitou duas vitórias pessoais, em 1994 e 1998, e outras duas coletivas, nas disputas municipais intermediárias.

Desde que seja para receber, depois, o apoio que lhe cabe por tudo o que julga ser de seu merecimento, por ter feito o bem para o Estado, por ter recebido quase um milhão de votos (recorde em termos absolutos, mas não proporcionalmente, detalhe esquecido no discurso triunfalista). Se não for assim, aos antípodas resta o fogo dos infernos, ou, quando muito, a penitência do purgatório.

Almir, o Supremo, falou e disse. Agora é a vez de o Pará responder.

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (83)

  1. E o arrependimento matou o rei! Ele só foi conhecer quem era o poste quando se viu sem a coroa.
    Uma pena e a oportunidade perdida de termos um outro futuro.

    Curtir

    Publicado por JAB Viana | 14 de março de 2017, 23:26

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