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Política

A história na chapa quente (84)

Eleição: cartas marcadas

e cartas ainda sem marca

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 275, de janeiro de 2002)

Deve ter sido com a intenção de queimar pelo menos dois obstáculos que o governador Almir Gabriel fez questão de transformar em um claro ato de poder o lançamento do nome do secretário especial da produção, Simão Jatene, como seu candidato pessoal à própria sucessão.

A primeira queima foi do PSDB e da coligação eleitoral à frente do qual se mantém. Se ela estivesse monoliticamente unida, a ultrapassagem não passaria de formalidade. Mas já há duas dissidências abertas na “União pelo Pará”: a do vice-governador, Hildegardo Nunes, e a do presidente da Assembleia Legislativa, Martinho Carmo.

Atrás delas começam a formar fila os descontentes, mas incapazes de assumir de público a divergência. A porta da rua é serventia da casa, disse para eles o governador, indicando-lhes como sendo esse o caminho natural de quem não obedece a suas ordens.

A segunda barreira ultrapassada pelo modus faciendi do governador é o próprio 1º turno eleitoral. Almir anunciou Jatene não como um pretendente à vitória, mas já como um vitorioso. Certamente esse entusiasmo é um tanto excessivo, mesmo pela ótica dos mais realistas frequentadores do Palácio dos Despachos.

A força do poder

Mesmo um inimigo figadal do governador, porém, não haverá de negar, se quiser ser realista, que só um imprevisto catastrófico impedirá o secretário de ser um dos candidatos ao 2º turno. Ele é um neófito como político (embora não exatamente em política) e seu perfil não se ajusta ao que se espera do vencedor de eleição. Mas é provável que a máquina oficial vá ser usada como nunca nesta eleição. Só assim tirará o leite de votos da pedra (ou poste) que é Simão Jatene.

Um dos pontos altos da entrevista do governador Almir Gabriel foi quando ele, com um ar de triunfo, anunciou dispor de dinheiro suficiente (e ação planejada) para inaugurar mais de uma obra por dia em 2002.

Para machucar um pouco mais seus inimigos, garantiu que no cofre ainda restavam 95 milhões de reais dos R$ 450 milhões arrecadados na venda da Celpa, que os políticos privados de chá de bom senso diziam ter sido integralmente torrado na reeleição do governador.

A verba de investimento será de R$ 600 milhões neste ano, proclamou Almir, que ainda terá meio bilhão de reais para repartir entre os prefeitos do interior através de convênios. Só esses trunfos já são suficientes para assegurar a Jatene um dos polos no pêndulo eleitoral.

Essa perspectiva desestimulará os projetos dissidentes do vice-governador? Ele foi reforçado pela adesão do deputado Carmona, que decidiu apostar tudo numa possibilidade hoje um tanto remota: o governador aceitar a candidatura de Hildegardo, convencido da inviabilidade eleitoral de Jatene, e se candidatar a uma vaga praticamente certa no Senado; Hildegardo se desincompatibilizar do cargo, deixando que o presidente da AL seja o governador por nove meses (uma reedição tucana do furacão Carlos Santos?); e Carmona se comprometer a trabalhar pelos dois com toda a lealdade.

A resposta, por via indireta, Almir está dando com o máximo empenho aplicado na ginkana em favor do seu delfim. Se ele não possui atualmente consistência eleitoral, com as iscas de dinheiro, a maratona de inaugurações e a repercussão ampliada das inaugurações programadas, logo estará entre os três mais lembrados pelos eleitores que forem entrevistados pelos institutos de pesquisa, com possibilidade plena de pelo menos subir mais um degrau. É do que o esquema tucano no Pará precisa para apresentar Jatene como um candidato a vencedor na convenção de abril.

Até lá, porém, esse esquema terá que correr riscos. O mais evidente e imediato deles é a transgressão legal. O senador Ademir Andrade, do PSB, pretendente ao cargo de governador, ajuizou quatro ações tentando demonstrar que a propaganda oficial, veiculada fartamente nos órgãos de comunicação, sobretudo na televisão, é feita para dar benefícios pessoais ao governador e ao seu candidato virtual, constituindo-se em propaganda ilegal, por ser indevida e estar sendo feita antes do prazo.

Até pouco tempo atrás essas iniciativas se revelavam inócuas: colidindo com uma estrutura refratária a elas, ricocheteava na lentidão da tramitação dos pedidos, nos vazamentos recursais ou na má vontade do julgador.

Mas de uns tempos para cá certas autoridades têm pagado o preço da atuação pioneira da justiça e do Ministério Público na repressão ao abuso das verbas e dos recursos públicos. Essa nova situação chegará ao Pará? A evolução e o destino das quatro ações judiciais propostas por Ademir Andrade vão ajudar a responder a essa dúvida.

A posição de Jader

Se tudo continuar como dantes ou as mudanças só tocarem na superfície do processo político, uma incógnita da equação eleitoral estará preenchida. A outra é de decifração mais problemática: quem será o oponente do pretendido “governador do governador”? Nenhum ensaio mais consistente de resposta poderá ser dado sem uma definição preliminar: o que vai fazer o ex-senador Jader Barbalho?

As fontes mais próximas dele dizem, guardando hierarquia na sequência, que ele sairá novamente candidato ao Senado, a deputado federal, a governador ou a nada, preferindo se poupar de desgaste, certamente o maior dentre todos os possíveis candidatos.

É bem provável que o próprio Jader ainda não tenha reunido dados suficientes para decidir sobre o seu destino político, depois do terremoto que o fez cair da cadeira de presidente do Senado e da própria câmara alta. Sua movimentação, embora nos bastidores, indica, contudo, que ele age como candidato.

Se manterá essa disposição, isso ainda vai depender dos contatos que vem fazendo. Alguns são de cúpula e visam a formação de uma coligação partidária, com vários ensaios de composição e acomodação de interesses. Outros são de base e têm por objetivo trazer para o seu lado quem é capaz de transformar retórica em votos no interior, seu maior reduto.

Há alternativa?

A definição do ex-governador vai influenciar as três outras alternativas ao candidato oficial. A mais explícita é a do vice-governador, Hildegardo Nunes, o terceiro melhor posicionado nas pesquisas até agora. Por estar sujeito aos raios irados do governador e a descoberto de uma proteção “do outro lado”, ele é também aquele que mais pode se desgastar a partir do momento em que a guerra eleitoral estiver declarada. Ainda mais por continuar sem total imunização a traições de última hora em seu próprio partido, o PTB. Mesmo assim, Hildegardo diz que sua candidatura irá até as últimas conseqüências, sejam quais forem.

Um quarto polo seria o da oposição formal ou da esquerda, um tanto difusa. O PT é a sua imagem clássica, mas, absorvido e desgastado nas lutas internas, não tem um candidato de força ao governo. A vereadora Ana Júlia Carepa não quer pensar em outra coisa que não o lugar quase cativo que a espera no Senado, graças ao passaporte de vítima que a eleição anterior lhe conferiu e ao seu carisma pessoal.

O vice-prefeito de Belém, Valdir Ganzer, vítima do Brutus palaciano, já só pode aspirar a um mandato de deputado estadual. Todas as outras possibilidades seriam apenas uma forma de não aceitar a candidatura de Ademir Andrade e, mantendo a já tradicional (e pouco sensata) idiossincrasia petista, de partido escolhido, expor-se a mais uma derrota acachapante.

Desta vez estaria o PT condenado a colocar sua eficiente máquina política (e, agora, também administrativa) a serviço de Ademir, engolido, às vezes, mas descartado em outras, na chapa-camarão (corta a cabeça) que o partido diz que apoia? Em favor dessa relutância está a desconfiança de que o senador do PSB acabe sendo mais aliado do PMDB do que do PT.

Contra ela, contudo, há uma situação de fato: a autofagia deixou os petistas sem opção de verdade. A noiva tem um bom dote, mas não seduz. É preciso voltar a trabalhar para que ela se materialize, talvez não em 2004, mas, quem sabe, em 2006, se os homens do poder no PT do Pará não estiverem condenados a ser mais Fonteneles e Herundinas do que Dutras e Genros.

Discussão

4 comentários sobre “A história na chapa quente (84)

  1. Pois é. E voce esqueceu a sua conterranea Maria, que quase ganhou..

    Curtir

    Publicado por Jose Silva | 15 de março de 2017, 11:56

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