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Polícia, Política, Violência

A história na chapa quente (85)

Arquivamento precipitado

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 288, de julho de 2002)

Quinze anos depois do assassinato do ex-deputado estadual Paulo Fonteles, o caso pode ser remetido para o arquivo morto por estar plenamente elucidado? Aparentemente, sim: o principal personagem conhecido da trama que levou à morte o combativo advogado foi preso, julgado duas vezes e condenado em ambas as ocasiões a 21 anos de prisão.

Depois de cumprir um terço da pena, foi libertado, retomando sua vida no interior de São Paulo. Mas só a circunstância de até hoje não ter sido bem esclarecida a participação do advogado e agente de segurança James Vita Lopes no enredo, já é um indício de que o tema ainda não foi satisfatoriamente elucidado.

É ponto pacífico que o polêmico personagem serviu de elo. Continuam faltando as pontas dessa cadeia: os executores do crime e os que o conceberam e financiaram. O “capitão” James tratou da logística do atentado, embora os autos do processo, que o levaram às duas condenações pelo Tribunal do Júri, tenham apresentado apenas indícios nesse sentido, sem as provas cabais e definitivas. O que legitimou o julgamento foi sua angulação ética e moral. O que continua a nos impedir de considerá-lo um ponto final na história é a sua fragilidade técnica.

O convencimento dos jurados foi estabelecido mais pela presunção e pelo sentido moral da reação ao fato chocante do que pelos elementos materiais de demonstração da acusação. Se era mesmo o responsável por tudo ou o bode expiatório, James Vita Lopes preferiu guardar seu segredo e esperar que passassem seus sete anos de hospedagem compulsória numa cela especial num quartel da Polícia Militar em Belém.

Com isso, todos parecem ter se dado por satisfeitos. James ao menos era uma boa cabeça, com cuja decapitação se podia prestar contas às cobranças da sociedade. Um dos pistoleiros foi liquidado em queima de arquivo e outro sumiu. Um suspeito de ser o mandante do crime, agindo por trás do visado “capitão” James, o fazendeiro mineiro Fábio Vieira Lopes, aqui apontado várias vezes, permaneceu sem ser importunado. Por quem quer que fosse, inclusive a Polícia Federal, que recuou a meio caminho de uma pista segura, no Rio de Janeiro.

Este jornal [o Jornal Pessoal]  surgiu com um compromisso editorial: repassar à opinião pública tudo o que eu havia conseguido apurar em três meses de dedicação contínua ao esclarecimento da morte de Paulo Fonteles. Fundei o jornal porque não havia outro lugar na imprensa local disposto a assumir o compromisso.

Nenhuma informação, mesmo a mais explosiva, foi sonegada. Havia material suficiente para não permitir que esse crime permanecesse envolto em brumas de acumpliciamento. Desta vez tudo seria passado a limpo, levando-se a sério o bordão que Boris Casoy repete na TV, com a gravidade de uma bordadeira.

Justamente quando o affaire Fonteles já é tratado como elemento do passado e se providencia um armário adequado para receber o esqueleto, faço questão de dizer que o cadáver continua insepulto, a reclamar pela resposta à agressão bárbara e covarde que sofreu, em 11 de junho de 1987, quando saía de Belém.

Alguns dos criminosos, justamente os mais perigosos, ainda estão impunes. Não só fora das grades. Nem sequer citados. Parece que nos acomodamos a conviver com a selvageria e a engolir indignidades.

Discussão

4 comentários sobre “A história na chapa quente (85)

  1. E depois de todo esse tempo, nada mais foi revelado?

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    Publicado por Jose Silva | 15 de março de 2017, 11:57
  2. Ainda que infelizmente, a morte de Paulo Fonteles revela o que é a cultura da corrupção.

    Curtir

    Publicado por Luiz Mário | 15 de março de 2017, 18:45

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