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Imprensa, Justiça, tráfico de drogas

O uso da informação

A partir de dezembro de 1991 publiquei no Jornal Pessoal uma série de matérias sobre a penetração no narcotráfico internacional em Belém, especialmente na camada de mais alta renda da capital paraense. O fato motivador foi o assassinato de Bruno Meira Matos. Em maio de 1992, a Polícia Federal fez a maior apreensão de cocaína no Brasil até então: uma tonelada da droga, uma parte no Pará e outra no Amazonas. Toda a carga pertencia ao mesmo grupo de colombianos infiltrados na sociedade.

O delegado José Sales, responsável pela operação, convocou entrevista coletiva. Toda imprensa – incluindo representantes da mídia nacional – compareceu. Fui. Mas não fiz perguntas. Fiquei só ouvindo. O que eu queria era conversar com Sales. Quando a coletiva terminou e eu não saí do meu lugar, colegas, surpreendidos, decidiram ficar.

Lembrei-os que ia ter uma conversa reservada com o delegado, o off the records do jornalismo. É uma relação de confiança de jornalista e fonte, sem mais ninguém. Mas eu concordaria em torná-la coletiva se meus colegas se comprometessem a publicar tudo que seria dito ali, mesmo sem a identificação nominal da fonte, que podia ser creditada por sua origem, mas não pelo seu nome.

De pronto, todos foram embora, deixando-nos – o delegado e eu – perplexos. Era uma renúncia explícita de repórteres a exercer o seu ofício. Um ato de pura covardia. Ninguém queria se meter com o narcotráfico. Nem com pessoas influentes e histórias escabrosas a ele associadas. Continuei a cobrir sozinho o assunto pelos meses seguintes. Implicava riscos e receios, tudo inerente ao exercício da profissão.

Lembrei-me do episódio ao saber que a primeira informação sobre o conteúdo da chamada lista do Janot, preparada com base em denúncias de propinas pagas por empreiteiras investigadas pela Operação Lava-Jato, foi transmitida por representantes do Ministério Público Federal em um off coletivo com jornalistas, adredemente convocados pelos servidores públicos. Os chamados e escolhidos se comprometeram a manter o anonimato da fonte e divulgar exatamente o que ela lhes informou. Por isso a abordagem do dia seguinte dos jornais que participaram da anômala conversa foi inteiramente igual.

Só a partir do dia seguinte os repórteres começaram a descobrir, por acesso a outras fontes, que a lista continha mais políticos, ministros e outros personagens do que a relação apresentada no off depravado. Enriqueceram o seu noticiário, mas já haviam servido de mensageiros, pregoeiros ou moleques de recado, conforme a função que se ajustar à inspiração que tiveram e o objetivo que pretenderam os integrantes do MPF autores da convocação.

É um fato lamentável, mesmo com todas as ressalvas em função da dificuldade em obter informações nessa área, tanto para a Lava-Jato quanto para a imprensa. Os procuradores não podiam nem deviam ter quebrado o sigilo que inda prevalecia – e continua vigente – sobre o conteúdo dos autos. Deviam se manter em silêncio até o oferecimento da denúncia, que só acontecerá depois de processado o inquérito perante a justiça. Com seu procedimento, deram motivo aos que investem contra o combate à corrupção alegando que ela é direcionada e viciada, ainda que se baseiem apenas em aparências.

Já os jornalistas não podiam servir de instrumento a uma manipulação de informação, agindo como grupo de interesse ou mesmo bando. É frequente a cobertura de um assunto por grupo de jornalistas que se forma como corporação, acertando regras informais próprias, geralmente contrárias às normas de procedimento da profissão. Um deles é a individualização das iniciativas e uma abordagem pessoal. Serve justamente para prevenir ou conter tentativas de manipulação.

Esse grave caso, infelizmente, só foi abordado por Paula Cesarino Costa, ombudsman da Folha de S. Paulo, na edição de hoje do jornal. Ela foi ética ao não revelar os nomes dos procuradores que participaram da inusitada (mas não singular, ao que agora se pode temer) coletiva, mas podia ter apurado mais informações para, com seu registro, execrar o episódio e desestimular a sua repetição.

Divulgar o máximo de informações a respeito é o melhor antídoto contra esses escorregões. Espera-se que a imprensa em geral e os jornalistas em particular prestem mais atenção e dediquem maior respeito aos seus princípios e deveres para não se exporem a esse canto de sereia.

Quanto à minha abertura ao off coletivo, ele teve uma razão nobre: tentei quebrar o aço de silêncio que se formou entre as redações e as ruas no acompanhamento da penetração do tráfico internacional de drogas na economia subterrânea e criminosa de Belém. Mesmo quando eu lhes passava informações exclusivas a respeito, colegas se recusavam a transformá-las em notícias na grande imprensa. Eu procurava diminuir os meus riscos por noticiar sozinho fatos tão perigosos, é verdade. Mas minha principal intenção era alertar a sociedade sobre o que estava acontecendo nos subterrâneos. Esta é a missão mais nobre da imprensa.

Discussão

7 comentários sobre “O uso da informação

  1. Na ditadura da corrupção, cada capitania hereditária procura golpear primeiro.

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    Publicado por Luiz Mário | 19 de março de 2017, 13:44
  2. Lucio,

    E hoje? Porque a imprensa continua ignorando o assunto das redes de tráfico de drogas no Pará? Medo? Ou outra coisa?

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    Publicado por José Silva | 19 de março de 2017, 21:28
    • Bem colocado. Qual seria a “real realidade” dessa rede e suas conexões e consequência no dia-a-a do belenense ou paraense, mestre?

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      Publicado por Marlyson | 20 de março de 2017, 08:25
      • É frequente sentirmos que há uma economia invisível por trás de grandes prédios residenciais, empresas que surgem e desaparecem de repente, sinais ostensivos – mas não fundamentados – de riqueza. Perguntamos: de onde vem esse dinheiro? Poucos vão atrás da resposta. Preferem seguir aquele ditado americano que Maluf adotou, em versão adaptada ao Brasil: se o estupro é inevitável, relaxe e aproveite.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 20 de março de 2017, 10:42
      • Creio que essa economia “invisível” é a que mais cresce na cidade e no Estado. Não cresceria tanto assim se não estivesse gerando bons dividendos para os seus patronos e não estivesse contribuindo para a manutenção do status quo. Como sempre disse: Belém é a nova Medellin.

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        Publicado por Jose Silva | 20 de março de 2017, 11:29
    • O tratamento é de varejo. Pegam só os pés de chinelo, consumidores, intermediários e traficantes. Nas duas pontas da cadeia, quase nada.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 20 de março de 2017, 10:35

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