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Política

A história na chapa quente (86)

O carnaval do voto

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 289, de julho de 2002)

A eleição de 2002 pode marcar o fim dos 20 anos de presença hegemônica de Jader Fontenele Barbalho na política paraense. Desde 1982, quando se elegeu governador do Estado pela primeira vez, usando o poderoso suporte de Alacid Nunes, que lhe passaria o cargo no ano seguinte, Jader foi o eixo da disputa pelo poder.

Sua marca registrada nesse período foi a capacidade de sobreviver a circunstâncias adversas e a golpes duros com o seu carisma, o elemento de maior magnetismo político entre as camadas majoritárias da população, agrupadas nas faixas de mais baixa renda.

A derrota de 1998 para Almir Gabriel indicou um emagrecimento da base de sustentação eleitoral de Jader, mas sua derrota ainda teve um tom de heroísmo: era a primeira vez que governadores podiam concorrer à reeleição no cargo.

Almir Gabriel utilizou a máquina oficial, aplicou muito mais dinheiro na campanha e tinha a empurrá-lo o governo federal, a força pública predominante nos investimentos num Estado de fronteira como o Pará, “vocacionado”, sobretudo por suas riquezas minerais, ao modelo econômico dos grandes projetos. Deles sempre sobra um “troco” do faturamento, que constitui a diferença para quem se mostra simpático a esse tipo de empreendimento, como o governador Almir Gabriel, e pode virar “sobras de campanha”.

Escudo de proteção

Aparentemente, ao decidir, à última hora, trocar a disputa de um cargo majoritário por uma vaga proporcional, o ex-senador deu um passo atrás para dar dois passos à frente, num saque de leninismo intuitivo. Assim, ele poderá despontar das urnas como um dos deputados federais mais bem votados do país, carregando para sua bancada alguns outros parlamentares (provavelmente incluindo o ex-amigo-depois-adversário-agora-amigo-de-novo Hélio Gueiros) e criando as condições para a “volta por cima” dentro de quatro anos.

Desta maneira, fortaleceria regionalmente o PMDB e se credenciaria para novamente ser um interlocutor nacional, sem se expor ao desgaste de retomar o caminho pelo Senado, do qual foi defenestrado. Ao mesmo tempo, passaria a contar com a proteção da imunidade parlamentar para não ser surpreendido pelo desfecho de algum dos inúmeros processos, administrativos ou judiciais, em curso contra ele. Qualquer medida punitiva passaria a depender de uma autorização prévia da Câmara dos Deputados para poder ser executada.

É o que diz o discurso peemedebista. Mas não é toda a realidade. Além disso, o desfecho pode não ser o que ele anuncia. Será preciso esperar por uma pesquisa de opinião séria para verificar como o povo reagiu a essa “volta por cima”. Ela pode muito bem ser entendida como fuga.

O povo não gosta de quem foge da raia, mesmo que tenha razões gloriosas para o forfait (expressão que, sintomaticamente, já foi corrente em geral de campo de futebol). Em 1998 houve glória na decisão de Jader Barbalho de enfrentar uma situação francamente desfavorável, mesmo sob o forte risco de derrota. Por essa lógica, será desonrosa a atitude atual, de buscar um novo rumo para não encarar a possibilidade de derrota?

Rejeição maior

Apesar de toda conversa em sentido contrário, é evidente que o ex-presidente do Senado pensou na própria pele e não no PMDB quando decidiu disputar a eleição para deputado federal e não para senador ou governador. O que pesou nessa escolha foi o índice de rejeição ao nome de Jader.

Sua fatia cativa do eleitorado diminuiu pouco, mesmo com a pesada campanha da imprensa nacional contra ele, caindo apenas 4 ou 5 pontos percentuais abaixo de um terço do colégio eleitoral paraense. Mas a rejeição cresceu bastante porque há mais eleitores predispostos contra ele.

Certamente Jader passaria para o segundo turno se fosse candidato a governador, talvez até em primeiro lugar. Se vencesse na segunda votação, porém, a diferença a seu favor seria mínima, abaixo provavelmente de 1%. A probabilidade maior seria a de perder, qualquer que viesse a ser o seu adversário, por causa da rejeição. Essa tendência, ajustada às regras da eleição para o Senado, que não tem segundo turno, seria mais ou menos a mesma caso decidisse renovar o mandado ao qual renunciou no ano passado.

O carisma de Jader Barbalho se renovaria se ele, como fez há quatro anos, aceitasse pegar o pião na unha, procurando reverter a conjuntura desfavorável no contato direto com o eleitor e recorrendo às suas maiores armas: o discurso fácil, a simpatia, a retórica oposicionista e sua melhor aceitação entre as pessoas mais humildes.

Por paradoxal que possa parecer, entretanto, esse caminho só tem final feliz para o candidato que, além de ter bastante dinheiro, dispõe de estrutura física para chegar aos lugares mais distantes do Estado, sensibilizando o eleitorado menos suscetível à pregação da mídia, que se uniu nacionalmente contra o político paraense.

Desta vez Jader Barbalho, com um passivo a descoberto monumental (e sem um mandato à sua espera, como havia em 1998, quando ainda tinha quatro anos como senador), decidiu não arriscar. Ou arriscar sob controle.

O risco do declínio

As coisas só darão errado para ele se sua votação para deputado não for consagradora, se a fatia do PMDB na bancada federal paraense não for majoritária e se o tom da campanha continuar a ser um plebiscito em torno de Jader Barbalho. Provavelmente ele não crê numa conjugação desses fatores. Mas se isso ocorrer, 2002 será o marco do declínio do político que comandou o poder no Pará ao longo das últimas duas décadas.

Ao optar pela coligação branca, apoiando o senador Ademir Andrade, candidato do PSB ao governo, Jader está se expondo a um segundo risco, este inédito em sua carreira: permitir que a legenda do PMDB se descole do seu nome. É grande o número de peemedebistas dispostos a não ouvir a voz de comando do líder incontestável até agora.

Ao invés de seguir a corrente pró-Ademir, vão formar fileira com Hildegardo Nunes, na dissidência da “frente trabalhista”, comandada pelo PTB, ou com Simão Jatene, o candidato do PSDB, atrelando um laranja a outro laranja (nada que não seja o estilo da casa, aliás).

Se essa dupla marginália constitui desafio para o Ministério Público e a justiça eleitoral, encarregados de fiscalizar e fazer cumprir a exigência de verticalização das coligações (no fortalecimento dos partidos para inglês ver), é também o produto de uma eleição com todas as pintas de novidade. Novidade que se credita, sobretudo, ao desejo dos mais poderosos de desafiar a credulidade popular confiados em seu próprio poder – de convencimento, de manipulação e de imposição de sua vontade absoluta.

A audácia tucana

No momento em que indica a esposa do senador Luiz Otávio Campos para o Tribunal de Contas do Estado, uma neófita em gestão pública, o governador Almir Gabriel endossa a candidatura ao Senado do deputado Duciomar Costa, o fraudador de diploma de curso superior, e da locutora Valéria Pires Franco à vice-governadoria.

Sem nunca ter disputado uma eleição e sem ter tido sequer uma atuação vizinha da função política, Valéria poderá ocupar o segundo cargo do executivo estadual sem receber um único voto, caso a máquina oficial faça de Simão Jatene o sucessor de Almir Gabriel. A síndrome do vice está de volta à praça.

Em termos estritamente cronológicos e formalmente temáticos, tanto o PSDB quanto o PSB, que indicou a capitã da PM e jornalista Vanessa Vasconcelos companheira de chapa de Ademir Andrade, o PMDB como o PT (com mulheres disputando as duas vagas de senador, e mais uma mulher como pretendente petista ao governo), podem argumentar que estão renovando a política paraense. Na verdade, estão abrindo oportunidade a jejunos em política, a mulheres e a jovens. Todos eles, porém, subordinados a uma velha estrutura de mandonismo e de patronato político.

Nesta eleição, o eleitor está sendo encarado como um comprador de supermercado. Seu único poder é o de optar por uma ou outra mercadoria colocada na prateleira. Nenhuma das mercadorias dependeu da vontade desse comprador. E ele será induzido a comprar por puro marketing, engolindo gato por lebre, urubu fantasiado de faisão. Essa é a circunstância propícia a surpresas para valer, a verdadeiras zebras.

O problema é: quem pode ser zebra na vergonhosa eleição dos paraenses em 2002?

Discussão

3 comentários sobre “A história na chapa quente (86)

  1. Ele já está com os dias contados. Pela idade, pela saúde e pela lista do Janot que acaba de ser liberada.

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    Publicado por Paul Nan Bond | 21 de março de 2017, 18:31
  2. Pois é. Não teve zebra nesse caso. Lucio, já tivemos alguma na história das eleições no Para?

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    Publicado por José Silva | 21 de março de 2017, 20:23

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