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Polícia, Política, Saúde

Qual carne é a fraca?

Eu estava atento à leitura de um jornal quando ouvi o eco da notícia dada pela televisão: a Polícia Federal colocara 1.100 homens na rua para executar a Operação Carne Fraca. Tomei um susto. Era quase o triplo da primeira etapa da Operação Lava-Jato, três anos atrás, que mobilizou um efetivo de 400 pessoas. A república agora vai mesmo cair, pensei com meus botões.

Há uma semana tento encontrar explicações convincentes para essa ofensiva sem igual na história da Polícia Federal brasileira. Não os encontrei. A vigilância sanitária tem falhas? Tem. Qualquer consumidor brasileiro sabe disso, por prova degustativa, sentir-lhe os efeitos ou ouvir dizer. É impossível não ter falhas? É. A média brasileira está acima do padrão mundial? Não.

Parte dessas falhas se deve à corrupção? Certamente. Não há nicho de pureza na inchada e viciada máquina governamental, um Leviatã a exaurir seus mantenedores. Somos dos países mais corruptos do mundo.

No caso da vigilância sanitária animal, esse fator está acima do aceitável no mundo? Talvez não. Incide sobre esse setor a atenção e as exigências de consumidores internacionais, que são fortes clientes do agronegócio brasileiro, e sabem se defender.

Imaginei que o grupo JBS, já tão encalacrado em promiscuidades com o governo, sobretudo de Lula para cá, tivesse sido, finalmente, pego com a mão na massa. Não seria pouca coisa. Conforme a corporação mesmo declara, é o maior produtor de proteínas do planeta, glória – ou jeitinho? – nacional.

Talvez a Federal tenha puxado um fiozinho solto de um gigantesco novelo de falcatruas dissimuladas por marketing e propaganda. Mas, até agora, é apenas um fiozinho mesmo, um caso de corrupção que não é generalizado, embora ainda haja a possibilidade de se desvendar uma conspiração contra a saúde alheia.

Até que essa hipótese se torne mais consistente, o que a blitzkrieg da PF revelou foram casos isolados de corrupção, de vilania empresarial, de falhas institucionais, de um foco localizado (no Paraná, com alguma irradiação por Goioás) de trampolinagem e de uma ou outra suspeita de atuação de uma organização maior. Todos esses achados podiam ser investigados sem todo aparato montado para o desencadeamento da operação.

Não foi um problema de comunicação: foi mesmo um erro brutal. Os bandidos e criminosos em potencial estão sendo homeopaticamente revelados, os frigoríficos irregulares foram interditados, os produtos suspeitos submetidos a análises, os políticos eventualmente cúmplices e beneficiários das fraudes na mira, mas a bomba teve o efeito de um ataque nuclear para um efetivo efeito de busca-pé.

Deu um desproporcional prejuízo ao setor produtivo, manchou a imagem comercial do Brasil num setor altamente competitivo da economia mundial, criou um potencial de gravames sobre a agropecuária num ano em que a safra, com perspectiva de recuperação, poderá ser novamente prejudicada por fatores climáticos. E deu um golpe na Operação Lava-Jato, pelo aventureirismo e empolgação dos atores da Carne Fraca – até agora mais deles do que dos malfeitores.

O cidadão comum, que come carne ou que recebe diretamente os efeitos da penetração comercial do Brasil em mercados ricos e sofisticados – vai achar que, afinal, a ação da PF no combate à corrupção chegou a um paroxismo, ao pecado do exibicionismo, ao abuso. A Carne Fraca deu substanciais munição aos inimigos da corrupção por desvio de dinheiro público. Quem já estava na defensiva agora se permite atacar a força-tarefa.

Como explicar essa iniciativa desastrada, mesmo que bem intencionada e residualmente produtiva? Espero que o leitor se interesse pela busca de uma resposta mais satisfatória do que as dadas até o momento – ao menos para mim.

Discussão

12 comentários sobre “Qual carne é a fraca?

  1. Teorias da conspiração à parte, flutua na poeira levantada pela operação “Carne Fraca”, a carranca da “engenhosidade americana” para desmonte do agronegócio brasileiro.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 22 de março de 2017, 11:42
    • Não creio em atividade externa neste caso. Creio sim em incompetência interna em tornar a produção de carne no pais sustentável e socialmente inclusiva. No rastro da indústria, há muita coisa que não presta. Se o agronegócio brasileiro foi desmontado, é porque ele foi criado em base pouco sólidas.

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      Publicado por Jose Silva | 22 de março de 2017, 18:31
  2. Desastrada mas reveladora. A sociedade brasileira precisa saber o que tem consumido e qual a verdadeira face do agronegócio no país. Para além do viés das relações internacionais e da economia, precisamos pensar em como o conjunto de todos os fatores (sociais, políticos, culturais) do consumo da carne hoje são alicerces de desigualdade e exploração.
    Abs

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    Publicado por Paloma Franca Amorim | 22 de março de 2017, 16:41
  3. Um dos textos mais sensatos que eu já li sobre esse assunto.

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    Publicado por Jonathan | 22 de março de 2017, 19:34
  4. Uma distração desastrosa desse tamanho pode mesmo ser acidental? Em dias de tantas outras pautas bombas no congresso e na gaveta de Janot?

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    Publicado por Marlyson | 23 de março de 2017, 08:47
  5. Arena romana: quanta coincidência a fraca carne se revelar logo após a apresentação da lista do Janot com a relação dos nomes da cúpula do PSDB em destaque.

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    Publicado por Luiz Mário | 24 de março de 2017, 11:04
  6. A apresentadora Miriam Leitão utilizou dados já apresentados pela organização em 2013, com a divulgação do Radiografia da Carne, que apontava os problemas nos diferentes tipos de inspeção agropecuário existente no país e as diferentes regras de fiscalização no território brasileiro. Smeraldi também afirmou que “há um problema de sistema na fiscalização, que é um problema que apontamos em 2013, que diz respeito inclusive aos diferentes tipos de fiscalização: federal, estadual e municipal”.Smeraldi defendeu uma reforma no sistema de controle da cadeia produtiva da carne, e uma etapa importante para que isso aconteça seria o controle dos indiretos: “que é o fornecedor do fornecedor. Hoje, o que está funcionando é o controle sobre a compra direta. Se você Miriam, desmatou na sua fazenda eu não compro da sua fazenda, eu controlo isso. Agora se comprou da fazenda do Péricles, um bezerro, que depois você engordou, dai eu não estou sabendo. Está faltando esse elo que é a origem.”, exemplificou.
    “Rastreabilidade é a transparência na cadeia”, afirma o ambientalista. Para ele essa poderia ser uma solução sanitária, ambiental e econômica para a cadeia da carne no país.

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    Publicado por Amélia Oliveira | 27 de março de 2017, 21:19

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