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Política

A história na chapa quente (88)

Ninguém sabe, ninguém viu

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 290, de agosto de 2002)

Por teimosia ou por falta de opção, o governador Almir Gabriel, do PSDB, e o ex-senador Jader Barbalho, do PMDB, os maiores caciques políticos na eleição deste ano no Pará, e também os maiores inimigos, podem ser surpreendidos pela derrota. O candidato do governador, Simão Jatene, às vésperas do início da propaganda eleitoral gratuita, ainda é o terceiro colocado nas prévias. Continua em ascensão, mas ela é lenta.

O preferido nas sondagens, o senador Ademir Andrade, do PSB, parece ter tido uma ligeira queda em função do apoio público que recebeu de Jader. Reação previsível da opinião pública encarada como o preço a pagar para contar com o suporte da máquina peemedebista.

O maior crescimento em julho foi do segundo colocado, o vice-governador Hildegardo Nunes, que finalmente conseguiu entrar no vácuo da onda de Ciro Gomes, candidato a presidente da República pela mesma coligação, a Frente Trabalhista.

Como a distância entre o primeiro e o terceiro colocado não é tão expressiva, nem parece definitiva, o quadro está embolado. “Todos os candidatos são japoneses”, brinca um analista. Literalmente, tudo pode acontecer, inclusive a candidata do PT, Maria do Carmo Martins, entrar no bolo dos que têm condições reais de vencer a disputa para o governo, ainda que ela seja a única a ainda não ter subido para a faixa dos dois dígitos. Segundo o último vazamento de pesquisa não registrada no TRE, por isso mesmo não divulgada, Ademir teria 24% das preferências, Hildegardo 19%, Jatene 16% e Maria do Carmo 9%.

As pesquisas qualitativas que a coligação oficial tem feito, as mais consistentes de todas, mostram que o eleitorado ainda está mal informado e indiferente à corrida eleitoral. Pelo menos 70% acham que Almir Gabriel pode concorrer a mais um mandato e 40% não sabem que Jatene é o seu candidato.

O conturbado ninho tucano

Esse resultado teria levado o governador a se aproximar mais do seu ex-secretário e a acompanhá-lo em viagens, que foram incrementadas, inclusive nos fins-de-semana, contrariando os hábitos do candidato. Algumas fontes, porém, asseguram que o distanciamento se deveu a divergências entre Almir e a equipe de Jatene. Emburrado em função de decisões que não endossava, o governador ter-se-ia afastado.

Os porta-vozes negam a versão, reafirmando a unidade da coligação. Mas cresce a boca pequena o coro dos descontentes na corte. É notório o desligamento da campanha de alguns integrantes da linha de frente da administração estadual.

No nível intermediário, a reação a Jatene é ainda mais nítida. E degenera para o boicote entre algumas lideranças políticas, desavindas com o candidato desde que ele foi o todo-poderoso secretário de planejamento. A dissensão se agravou ainda mais com o que esses políticos consideram ser o fraco rendimento de Jatene.

Inegavelmente a vitória da aliança situacionista seria mais fácil se o cabeça de chapa fosse o vice-governador. Por diferentes motivos, porém, conforme a abordagem sobre as origens do problema, os caminhos de Almir e Hildegardo se tornaram tão distantes que o tratamento dispensado ao vice descambou nos últimos dias para a retaliação aberta, com demissões em seu gabinete e a virtual extinção de sua equipe para-eleitoral, que ainda se beneficiava da engrenagem da vice-governadoria.

A estratégia de Jader

Se a onda Ciro Gomes não quebrar antes de alcançar a praia, Hildegardo terá recursos (com os quais até agora não conta) para se beneficiar de outra circunstância: a reação dentro do PMDB à coligação branca com Ademir Andrade, decidida unilateralmente pelo ex-senador Jader Barbalho. Cresce o número dos peemedebistas que, de forma explícita ou nos bastidores, apoia o candidato da Frente Trabalhista (ou embarcou na canoa de votos do governo).

Uns acham que esse crescimento é estimulado indiretamente pelo próprio Jader, permitindo-lhe atuar em duas frentes, a de Ademir e a de Hildegardo. Mas outros garantem que isso já é indício de rebeldia na base contra um líder. Ele vinha mandando recados de que disputaria um cargo majoritário, provavelmente o de governador.

Mas acabou optando à última hora por um cargo proporcional, imiscuindo-se entre políticos que ficaram subitamente deslocados do eixo decisório. Pensou em si e não no partido e nos seus correligionários, é a queixa dos peemedebistas.

A má cobertura

Assim, por baixo dos panos, o andamento das campanhas é mais tumultuado e belicoso do que sugere a plácida cobertura da imprensa. Essa abulia interna se reflete externamente: dono do 9º maior colégio eleitoral do país, com mais de 3,5 milhões de eleitores, o Pará raramente aparece no noticiário nacional. Ninguém lá fora se importa com o que acontece cá dentro porque os próprios paraenses não parecem dar maior importância à disputa eleitoral no Estado.

O noticiário da imprensa é pior do que registro de diário oficial. Há dias em que a referência à temporada de caça ao voto se resume à agenda dos candidatos. Parte considerável do raquítico material publicado tem origem em press releases. Não há mais repórteres acompanhando as incursões dos candidatos ao interior. Até mesmo os comícios na capital passaram a ser ignorados.

Sem receber a mínima pressão, os grupos políticos manipulam como podem as informações. As pesquisas qualitativas que promovem para orientar as campanhas permanecem sigilosas, sem vazamentos confiáveis, o que multiplica a boataria.

Como nenhum dos candidatos assumiu uma posição de destaque, as sondagens não são oficializadas para divulgação. Só no dia 17 deverá ser divulgada a primeira pesquisa do Ibope, imposta pelo calendário da Rede Globo. Até lá, se realmente houver a pesquisa, prevalecerá a especulação.

Mas não só ela: a ausência da imprensa na divulgação das campanhas dificulta a difusão dos componentes da eleição num Estado que tem o segundo maior território do país e uma grande dispersão demográfica.

O Pará é o 9º colégio eleitoral, mas quando o referencial passa a ser o das capitais, Belém desce para a 10ª posição (o Ceará é o 8º colégio entre os Estados, mas Fortaleza é a 6ª capital com mais eleitores, concentrando um quarto dos eleitores cearenses). Isso significa mais dificuldades para os candidatos chegarem à maior parte dos eleitores, já que na capital encontram-se apenas 20% do contingente.

Daí esse panorama de desinformação e desinteresse, que só deverá ser rompido pelo início da propaganda eleitoral gratuita e pelo ingresso de recursos compatíveis com as campanhas majoritárias. O primeiro componente poderá favorecer os candidatos com maior desenvoltura, mesmo que não disponham de recursos compatíveis.

Já o segundo tornará ainda mais importante o peso do poder econômico: quem for mais longe, levando alguma coisa para o eleitor, terá um potencial de voto maior.

Assim, por essas características, a eleição no Pará será rápida como um meteoro, a ponto de a massa do eleitorado provavelmente se dirigir para sua seção com um grau surpreendente de desinformação. Muitos não saberão em quem votar. Inquiridos, muitos eleitores não sabem dizer em quem pretendem votar para a Assembleia Legislativa e a Câmara Federal. Simplesmente por não saberem quais são os candidatos, ignorados olimpicamente pela mídia.

Mas não é para desesperar: outros tantos que souberem em quem votar, no fundo não saberão em quem realmente votaram. Uma situação que tanto é campo fértil para surpresas quanto para esmagar qualquer possibilidade de novidade. Mais uma confirmação da condição colonial do Pará. Um Estado em cuja porta a história vive a bater, sem que o dono da casa se dê conta desse chamado.

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (88)

  1. Pois é. A onda Ciro Gomes quebrou por causa do próprio narcissismo do candidato, Ademir nem foi para o segundo turno, a divisão do PMDB entre Ademir e Hildergardo prejudicou ambos, Maria subiu na onda do Lula e Jatene conseguiu chegar ao segundo turno graças aos debates na televisão e investimentos de última hora feitos pelo Almir Gabriel.

    Em resumo: (a) a campanha presidencial pode sim influenciar na campanha estadual; (b) investimentos de última hora geram resultados; (c) o PMDB fragmentado não ele ninguém; (d) tudo continua como antes na aldeia tupininquim.

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    Publicado por Jose Silva | 23 de março de 2017, 12:10

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